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Racismo torna invisível extermínio da juventude negra, diz assessor da Anistia

23/02/2016, às 11:56 | Tempo estimado de leitura: 6 min
Entrevista com Alexandre Ciconello, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional.

A violência e o homicídio de negros são mais uma faceta do racismo que se vive no Brasil. É o que defende o advogado e assessor de direitos humanos da Anistia Internacional Alexandre Ciconello. “Quem está morrendo é esse invisível, e o racismo faz com que a outra parte da sociedade, a sociedade branca, não se interesse por isso”, destaca ao lembrar que as maiores vítimas de homicídios são homens jovens, negros e moradores de periferia.

Para Ciconello, essa falta de visibilidade faz com que a sociedade e até o poder público não encarem o problema de frente. “Temos de romper com a indiferença e isso tem a ver com racismo, pois aqueles que estão morrendo não são os filhos daqueles que têm poder numa sociedade. Se fosse, essa situação já teria mudado. Afinal, quem está morrendo é o outro, aquele que não tem voz e que está em situação subalterna”, completa.

Na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Ciconello destaca que ainda há o desafio de lutar contra o estigma de que todo jovem de periferia é ou pode vir a ser bandido. “Em geral, a polícia tem essa concepção do elemento suspeito, o jovem e o homem negro, e que suas vidas valem menos, são corpos matáveis”. São como pessoas de menos valor e que, dada a situação, sua execução é aceitável. É neste mesmo contexto que estão as mulheres negras, que morrem muito mais do que as mulheres brancas. “O corpo da mulher negra é ainda mais visto como objeto do que o corpo da mulher branca. Há todo um estereótipo de que a negra é boa de cama”, analisa.

Alexandre Ciconello é assessor de direitos humanos da Anistia Internacional. Advogado, formado pela Universidade de São Paulo, é especialista em Direitos Humanos pela American University (Humphrey Program – Fulbright), Washington, e mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

Um trecho da entrevista:

“A polícia, a repressão, continua com um viés racista contra a população negra e pobre. Se formos analisar, há o componente do racismo institucional que prioriza outra agenda que não essa. O racismo institucional é quando as instituições, os seus procedimentos e práticas se reproduzem lá no racismo. Assim, diariamente negros e negras passam por situações discriminatórias em vários espaços, mercado de trabalho, na rua, no ônibus, em tudo. São decisões que reforçam essa institucionalização do racismo. Você vê um jovem negro sem camisa e já puxa sua bolsa. O jovem vai ao shopping e o segurança começa a segui-lo, ou então vai em busca de um emprego e não consegue. Sei de um caso, no Distrito Federal, em que menos de 10% dos atendentes dos bancos eram negros. Isso gerou uma ação do Ministério Público do Trabalho para entender por que os bancos não contratavam ninguém negro para atendimento, somente para posições mais subalternas.

Então, levando esse contexto para polícia, vemos que ela realmente vê que a vida do jovem negro não tem valor. Isso gera uma série de mecanismos na polícia e na própria sociedade, que acobertam a impunidade. É quando se diz aquela infeliz frase que “bandido bom é bandido morto”. Ao falar isso, não estamos nos referindo a político corrupto suspeito de roubar milhões, estamos falando do estereótipo do negro da favela com arma na mão e de chinelo. A construção social desse bandido que pode ser morto é o jovem negro. Porque quando traficante de drogas branco é pego na zona sul do Rio de Janeiro, ou numa área mais nobre, até a imprensa fala: “estudante é preso por traficar drogas na zona sul”. É diferente quando ocorre na favela. É algo muito entranhado, visível e ridículo.”

Confira aqui a íntegra da entrevista.

Categoria: Notícia
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