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Inesc tem nova integrante no colegiado de gestão

24/02/2022, às 14:45 (atualizado em 25/02/2022, às 10:03) | Tempo estimado de leitura: 15 min
Cristiane Ribeiro é psicóloga, psicanalista, ativista de um coletivo de mulheres negras e especialista em práticas socioeducativas. Leia a entrevista com a nova integrante do colegiado de gestão do Inesc

É com muita alegria que anunciamos a chegada de um reforço importante na nossa equipe, à altura do que este 2022 intenso e desafiador nos pede. Cristiane Ribeiro vai compor o colegiado de gestão do Inesc a partir de março, e passa a liderar a instituição ao lado de Iara Pietricovsky e José Antônio Moroni.

Cris não chega sozinha, traz consigo, como nos conta nesta entrevista, “as mulheres negras velhas que sonharam, lutaram, tombaram e venceram”. Psicóloga, psicanalista, especialista em Práticas Socioeducativas e em Inventividades Socioculturais em Periferias, e mestre em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência, Cris traz também uma experiência profissional, de estudo e de militância que vai contribuir, reforçar e transformar as ações que o Inesc vem desenvolvendo nos últimos 42 anos.

Conheça a história, a trajetória e as perspectivas da Cris Ribeiro para essa nova etapa:

Quem é a Cristiane Ribeiro?

Bom, Cristiane Ribeiro, ou Cris Ribeiro, como a maioria das pessoas me chamam, é uma mulher negra, periférica, de axé, lésbica, filha e neta de mulheres pretas poderosas, que são Marli e Dona Chica. Como moradora do Morro das Pedras, favela da região oeste de BH, muito cedo as violências da desigualdade, dos racismos e do sexismo atravessaram a mim e às pessoas com quem convivi e convivo. A resistência e a construção de armas para os enfrentamentos cotidianos foram forjadas a partir de mamãe e vovó, e tantas outras e outros que vieram antes de mim e com quem compartilho o mesmo tempo. Costumo dizer que cada pedra do meu morro constitui o que sou hoje, com todas as dores e delícias de ser quem eu sou, há 39 anos.

Fale um pouco da sua trajetória de trabalho, estudo e militância até aqui

Me formei psicóloga, psicanalista, especialista em Práticas Socioeducativas e em Inventividades Socioculturais em Periferias, e mestre em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência. Durante minha trajetória acadêmica, que não é fácil pra ninguém, pude experimentar algumas das perversidades da insistência do mito da democracia racial e da meritocracia. Fazer dois estágios e estudar à noite, em grande parte do tempo, ou ainda, ser desconsiderada quando tentava fazer qualquer recorte racial, de classe ou de gênero, fazia de mim uma exceção que confirmava a regra. Mais do que a dificuldade de ingressar na universidade, o desafio foi me manter naquele espaço. Mas me formar e trilhar um caminho acadêmico, na medida do que me foi possível, foi uma estratégia construída à muitas mãos, de fazer uso político do meu corpo com objetivo de arranhar a estrutura desde dentro. Sigo rumo ao doutorado em breve!

Sou pesquisadora em questões raciais e psicanálise e tive o prazer de integrar o time de mulheres negras da Múcua Consultoria, trabalhando questões relacionadas à diversidade, equidade e inclusão na perspectiva da saúde mental nas organizações. A concepção teórica que escolhi nortear a minha prática, a psicanálise, assim como todos os campos de saber, parte de uma visão eurocentrada. Avisada disso, fui me encontrando pelo caminho, com pessoas negras e não negras, que estavam empenhadas em reler e adequar o que nos fosse possível, na teoria e na prática, para que pudéssemos participar da construção e releitura de saberes que não desconsiderem a formação da sociedade brasileira com suas bases desigual, sexista e racista. Tanto como pesquisadora quanto como consultora na Múcua, esse foi o ponto que me orientou. Precisamos pensar nas práticas com a lente da interseccionalidade para que possamos de fato alcançar a diversidade que almejamos nos espaços.

Sou ativista no Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras, na Rede de Mulheres Negras de MG e na Rede Mães de Luta MG. A vivência nessas coletivas me coloca em posição de constante aprendizado. São histórias, vivências e trajetórias de mais de 40 anos de luta e resistência. Cada mulher porta uma biblioteca no próprio corpo, que traz na oralidade a transmissão necessária para formar as mais novas, sem desconsiderar que mesmo as mais novas têm o que ensinar. É um jeito bonito de partilhar a luta, que mesmo com muitas dores, traz acolhimento e leveza.

Minha trajetória profissional se deu sobretudo nas Políticas Públicas e em organizações da sociedade civil. Trabalhei com as medidas socioeducativas de Liberdade Assistida, Prestação de Serviço à Comunidade, Semiliberdade e Internação, nas políticas de Assistência Social e na Defesa Social. Também fui Diretora de Proteção Social de Média Complexidade implantando CREAS regionais em Minas Gerais. Na Associação de Iniciativas Cidadãs minha colaboração se deu sobretudo com atendimento a adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social, articulação política e desenvolvimento de projetos.

A experiência no socioeducativo me marcou profundamente. Adolescentes tão novos e com tão pouca aposta na vida. Cumprindo uma sentença que estava para além de um ato cometido, mas uma sentença social na qual eles já nascem condenados à morte. Já nascem sabendo que a cada 23 minutos podem morrer e que provavelmente não chegarão aos 29 anos. Seja como técnica no atendimento direto, seja como diretora de unidade, meu desejo sempre foi que meu trabalho tivesse sobre eles o efeito de que eles ficassem vivos, de que eles sonhassem e vivessem dias melhores. Eu me posicionei nos enfrentamentos institucionais brigando por recursos, por melhores condições de trabalho para a equipe, por melhores condições de atendimento para os jovens. Sempre me foi muito nítido que num processo de responsabilização, seja de um adolescente em conflito com a lei, seja de uma família nomeada pelo sistema como “negligente”, tem uma parcela importante da responsabilidade que é institucional, e não perco oportunidades de enfatizar isso. Em última instância, acredito que as pessoas precisam ser instrumentalizadas, em nível micro e macro, para que possam reivindicar direitos, e que tenham gente ao lado para fazer isso de forma coletiva. Como nos ensina um provérbio africano, precisamos de uma aldeia inteira para educar uma criança.

O Inesc trabalha há anos com a pauta dos direitos humanos, e você também tem uma trajetória atrelada à defesa de uma sociedade menos desigual. Como acha que pode contribuir para o Inesc e como o Inesc pode ser um espaço de reforçar os trabalhos que você já vinha desenvolvendo?

Primeiro é preciso dizer da minha profunda admiração pelo trabalho do Inesc. É uma organização decidida e que não recua no seu propósito de participar ativamente dos avanços nos processos democráticos e no fortalecimento das pessoas e dos movimentos populares, e tudo isso a partir da incidência no orçamento público, o que é fundamental. Uma organização constituída em sua maioria por mulheres, que tomou uma decisão política de não demitir ninguém durante a pandemia, que traz em seus sete eixos de trabalho recortes que são fundantes e estruturantes para a construção de uma sociedade mais igualitária.

A pandemia revelou um quadro extremo de desigualdades, escancarou questões sociais que acreditávamos que estivessem mais fortalecidas institucionalmente. Me parece que nos saltou aos olhos o quanto nossa jovem democracia brasileira é frágil e precisa cada vez mais de dispositivos de participação popular para ser consolidada.

Na história consolidada do Inesc, posso contribuir a partir do que venho acumulando em relação à saúde mental no mundo do trabalho, partindo da perspectiva afrocentrada, que entende que é preciso considerar os afetos de cada pessoa e os impactos disso na constituição de uma equipe. Quando pensamos no desafio em trabalhar a diversidade, equidade e inclusão nas organizações, dentro de um sistema historicamente construído a partir de normativas machistas, sexistas e racistas, não podemos perder de vista que não estamos falando de processos naturais e pacificados, mas de decisões institucionais que precisam ser sustentadas a partir de estratégias que envolvam toda a equipe.

Encruzilhada a tudo isso, chego para contribuir com as ações desenvolvidas pelo Inesc desde onde venho, com minhas experiências e trajetórias, individual e de participação em coletivas, mas também numa perspectiva de interesse, dedicação e implicação, de aprendizado para caminhar junto com a equipe.

O Inesc é uma organização multitemática e que atua em espaços diversos, nacionais e internacionais. Quais os desafios de compor a liderança de uma organização como essa? E quais são as perspectivas?

Acho importante localizar que minha chegada ao Inesc é fruto de um processo implicado e comprometido de trabalho interno, contando com a participação de uma consultoria externa e com a participação ampla da equipe, com relação à equidade racial na organização. Junto a diversas outras ações efetivas, a contratação de uma mulher negra para esse lugar de decisão institucional fez parte desta construção. Não se trata de uma vaga destinada à militância, mas a aposta de que ter uma mulher negra nesse lugar de decisão pode contribuir para todas as discussões do Inesc. O que quero dizer é que, nós pessoas negras, sempre reivindicamos o direito de falar sobre todas as áreas, e não ficarmos reduzidas à questão racial, e é justamente esse o lugar que o Inesc propõe.

Os desafios diante de um novo lugar existem sempre. Compor o colegiado de gestão de uma organização com a representatividade e solidez do Inesc, no cenário nacional e internacional, faz esse desafio ainda maior. A própria longevidade das pessoas que compõem o Inesc dá provas de como as pessoas se constroem ao mesmo tempo que constroem a instituição. Sempre me orientei pelo desejo de quem quer fazer parte de grandes mudanças, sejam elas as micro revoluções cotidianas, sejam os grandes acontecimentos que marcam um antes e um depois no mundo.

O que posso sustentar é meu desejo, minha decisão de estar aqui, de compor essa equipe, de transmitir, aprender e trabalhar para a manutenção da missão e dos valores do Inesc, construídos a muitas mãos nos seus mais de 40 anos de existência e resistência.

Você ingressa no Inesc em um ano intenso, de agravamento da crise econômica e social no Brasil e de disputa eleitoral. Como avalia o cenário político brasileiro atual e o papel de organizações como o Inesc nesse contexto?

Intenso e desafiador são nomes importantes para esse momento histórico, reflexo de uma conjuntura que vem se agravando nos últimos anos. Gosto de pensar que quando as coisas alcançam limites muito extremos, podemos nos surpreender com nossa capacidade, individual e coletiva, de inventarmos saídas completamente novas. Pensando na importância do Inesc e das várias organizações vinculadas aos movimentos populares que tem se esforçado em construir saídas de forma coletiva, desde o acolhimento e manutenção do básico da sobrevivência, como segurança alimentar, até o investimento em difusão de formações e informações políticas que são capazes de munir as pessoas de elementos que podem fazer a grande diferença, como a participação popular e o voto. E a incidência no orçamento público, a lente norteadora do Inesc, é fundamental nesse processo.

Não estamos falando de milagres, mas daquilo que de mais potente carregamos, que é a diferença, a diversidade, que é potencializada quando fazemos juntas, juntos e juntes.

Não chego no Inesc só, chego com as mulheres negras velhas que sonharam, lutaram, tombaram e venceram; e com as que ainda estão por vir e precisarão de um terreno fértil para suas vivências. Bom, chego animada demais para esse encontro, para essa roda, sabendo dos tempos sombrios que enfrentamos, mas feliz com a contribuição que darei para o trabalho, e meu compromisso em não medir esforços para isso!

Categoria: Notícia
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