Caso Bruno - A leniência dos clubes
Publicado em 19/07/2010 10:00
16 de julho de 2010
Um goleiro bem sucedido leva ao extremo o que temos visto em outros casos em que astros dos esportes terminam na crônica policial. São histórias que quase sempre incluem violência contra as mulheres (namoradas, esposas, amantes), proximidade com o crime organizado e consumo exagerado de drogas lícitas ou ilícitas.
" Ainda há uma atitude leniente nos grandes clubes com as atitudes sexistas, violentas e hedonistas dos seus craques, em grande medida despreparados para o circo da fama e do dinheiro "
A despeito de louvarmos a eficiência e a rapidez com a qual a polícia vem desvelando os fatos após encontrar o filho de Eliza em posse da esposa de Bruno, é de lamentar que o goleiro não tivesse sido indiciado meses atrás quando foi formalmente denunciado pela vítima de agressão física e outras ameaças. Uma ação mais decisiva da polícia talvez tivesse inibido o desfecho trágico.
Mas o que até agora tem ficado fora do noticiário é o papel dos clubes de futebol. Não se trata de culpar a agremiação pelo desvario de um atleta, mas sim questionar uma certa postura leniente ainda existente nos grandes clubes com as atitudes sexistas, violentas e hedonistas dos seus craques, em grande medida despreparados para o circo da fama e do dinheiro ao qual são alçados da noite para o dia. Uma circunstância que leva a que acreditem na possibilidade de impunidade completa dos seus atos e na liberdade sem freios dos seus desejos. Ao longo dos últimos anos, vimos isso acontecer em escala variada com craques de quase todos os times de primeira divisão.
Era de se esperar que a essa altura da expansão da indústria esportiva e da influência exercida pelos atletas sobre os jovens, os clubes e as federações de futebol já fossem capazes de investir uma parcela dos recursos astronômicos que manejam em programas de educação para uma cultura de direitos humanos e para a uma administração responsável da carreira dos seus jovens atletas. O mesmo pode ser dito de um investimento mais cuidadoso na relação dos atletas com os fãs e com a imagem que passam para a juventude. Isso é o que se esperaria de uma gestão moderna de uma atividade que mexe de maneira tão decisiva com as paixões da sociedade.
A imprensa esportiva e o jornalismo em geral também têm a sua parte de responsabilidade por não exercer a devida cobrança e quase sempre tratar com certa tolerância os "desvios de conduta" de jogadores famosos. Como se a "fama de mau" contribuísse para o charme dos atletas, no fundo "bons meninos".
É preciso parar e pensar com serenidade e urgência sobre essas questões. Esperemos que a tragédia de Eliza, em plena Copa do Mundo, levante uma discussão mais ampla sobre o tema e não seja restrita ao debate sobre a necessária responsabilização e punição dos envolvidos.
*Atila Roque é historiador e Membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC). Artigo de Atila Roque, publicado no jornal "O Globo"*





















