Doença holandesa de desindustrialização
Publicado em 02/02/2010 12:00
Por José Noronha Sacramento
02/02/2010
No Brasil, a alta taxa de evasão escolar mostra que a lição de casa não foi feita
"O grande equívoco é acreditar que a qualidade de vida da população esteja associada apenas ao tamanho do PIB sem considerar a capacidade distributiva de renda da matriz econômica do país."
Em excelente artigo publicado no Valor, os colegas Bresser-Pereira e Marconi mostram que o Brasil segue firme para se tornar a "fazenda do mundo" e que a desindustrialização é um fato.
Parafraseando Goldratt, a meta de todo governo deveria ser "maximizar a qualidade de vida da população de seu país, agora e no futuro". Sabemos que crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não significa desenvolvimento, porém, a tirania dos indicadores econômicos tem levado governos a adotar políticas que podem apresentar bom desempenho econômico, mas com chance mínima de melhorar a qualidade de vida da população. A qualidade de vida está diretamente relacionada ao poder aquisitivo da população e, portanto, a uma boa distribuição da renda gerada pelas atividades econômicas no país. Estudando o impacto da matriz econômica na capacidade distributiva de renda dos países, verifiquei que não é por acaso que, nas três Américas, apesar de todo crescimento econômico apresentado nos últimos anos, em 2008, o Brasil ainda continuava à frente apenas do Haiti em distribuição de renda.
Matriz econômica de um país é o conjunto das atividades que gera o seu PIB. Essas atividades podem formar "redes ou cadeias de suprimentos" que começam em atividades extrativistas que geram commodities e abastecem os diversos processos de industrialização que adquirem bens de capital e utilizam a infraestrutura do país para atender consumidores finais por meio das inúmeras atividades de serviços - logísticos, financeiros, marketing, tecnologia da informação, educacionais, alimentícios, entretenimento e muitos outros.
Os quatro grandes grupos de atividades econômicas - extrativista, produção de commodities (incluindo agronegócios), industrialização e serviços - são importantes para a economia do país, mas apresentam capacidades distributivas de renda distintas:
A atividade extrativista, além de explorar recursos naturais finitos, requer grande base de ativos e, apresentando ganhos crescentes de produtividade, é a atividade com menor capacidade distributiva entre as produtoras de bens.
A produção de commodities, incluindo agronegócios, também requer uma grande base de ativos e, com ganhos crescentes de produtividade, utiliza cada vez menos mão de obra, tendo baixa capacidade distributiva de renda.
A atividade de industrialização - a grande empregadora no século passado - já exauriu sua capacidade de gerar empregos. Novas tecnologias fazem com que se produza cada vez mais com menos empregados. Nos Estados Unidos, o número de postos de trabalho nas atividades de produção de bens - extrativistas, commodities, agronegócios e indústrias - se mantém estável desde 1950. Com participação decrescente no PIB mundial, sua capacidade distributiva de renda vem sendo reduzida acentuadamente.
Pela infindável diversidade e baixa necessidade de capital inicial, as atividades de serviços passaram a ser a grande alavanca da economia mundial propiciando um crescimento vertiginoso no número de empregos e o surgimento de inúmeros pequenos empreendedores. Atualmente a produção de bens representa menos de 20% enquanto serviços já superaram 80% do PIB mundial. Produtos se transformaram em plataformas para venda de serviços. O governo americano prevê que, em 2016, 86% dos postos de trabalho nos Estados Unidos serão em atividades de serviços. Pela sua grande capilarização pela sociedade, as atividades de serviços têm maior capacidade distributiva. Uma exceção seria o grupo de serviços financeiros - que requer grande base de ativos e é altamente concentrador de renda.
Mas, aumentar a participação de serviços na matriz econômica do país requer planejamento de longo prazo. Por exemplo, antevendo os efeitos da evolução da tecnologia da informação no perfil dos postos de trabalho, o governo americano investiu US$ 1 trilhão em 30 anos para preparar a população para trabalhar em atividades de serviços. O programa alcançou ótimos resultados.
O aumento simultâneo do poder aquisitivo da população americana no mesmo período comprova que a capacidade distributiva de renda aumenta à medida que se caminha downstream na cadeia, ou seja, é baixa nas atividades extrativistas e alta nas atividades de serviços. E o investimento para gerar postos de trabalho também decresce significativamente downstream.
Dados apresentados pelo Ministério do Trabalho brasileiro sobre vagas criadas em 2009 mostram que enquanto as atividades em serviços e comércio geraram quase 800 mil postos de trabalho, a indústria colaborou com apenas 10 mil e a agricultura eliminou mais de 15 mil postos. Esses números contrastam com a política econômica que continua priorizando investimentos em indústria, agricultura e, quando há interesse, em construção civil. Ou seja, continuamos investindo muito dinheiro para gerar pouco ou nenhum posto de trabalho enquanto, por demandarem menor investimento, são criados, quase que a revelia, centenas de milhares de postos de trabalho em atividades de serviço. Mas, como a capacidade distributiva de renda das atividades de Serviço é diretamente proporcional ao nível cultural e educacional da população esses novos postos aumentam a capilarização da distribuição de renda, mas ainda são de baixa remuneração média.
Em 1991, Peter Schwartz, especialista em construção de cenários, já alertava que em países como o Brasil, sem investimentos consistentes em Educação e geração de emprego, os adolescentes, movidos por ambição e/ou medo da pobreza, poderiam enveredar por caminhos indesejáveis. A alta taxa de evasão escolar - apesar do crescimento populacional o número de alunos matriculados no ensino médio caiu 800 mil nos últimos quatro anos e 1,5 milhão de vagas não ocupadas no Ensino Superior - mostra que a lição de casa não foi feita.
Atividades de serviços são movidas pelo empreendedorismo, que será mais importante para o século XXI do que a revolução industrial foi para o Século XX - na China ensina-se empreendedorismo já no ensino fundamental. No Brasil, o empreendedor enfrenta barreiras enormes criadas pela legislação, burocracia, má qualidade dos servidores públicos e corrupção.
Uma comparação entre as principais empresas que movimentam a Bovespa e a NYSE e a constatação de que uma única empresa, a Petrobras, extrativista e produtora de commodities, já representa 10% do PIB brasileiro, comprovam que nossa matriz econômica é fortemente concentradora de renda. E, sem mudanças significativas, a única saída para mitigar a desigualdade social será ampliar ainda mais os programas distributivos governamentais -com todos os riscos que isso significa.
José Miguel Noronha Sacramento é professor do departamento de Produção e Operações da FGV/SP
Artigo extraído do jornal Valor Econômico.























