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Eleições & Sociedade Civil - O Brasil real fora do debate eleitoral

Publicado em 02/08/2010 16:02

Entrevista concedida por Iara Pietricovsky, membro do colegiado de gestão do INESC, ao jornalista Geraldinho Vieira para o Blog do Noblat sobre as eleições de 2010.

 

“O debate sobre os problemas do país durante o processo eleitoral é menor do que se espera e menos qualificado do que eu gostaria. É que o sistema político está organizado de tal maneira que a disputa de poder está acima dos interesses públicos”.
Na opinião de Iara Pietricovsky de Oliveira - 56, membro do Colegiado de Gestão do INESC - Instituto de Estudos Socioeconômicos – “como não se discute o próprio sistema político, tende-se ao conservadorismo, à manutenção do status quo (oligárquico e patrimonialista). Se o sistema político não se rompe, o debate não se viabiliza. Por isso, o processo eleitoral em si mesmo não gera uma nova consciência pública”.
Décima entrevista desta série de breves diálogos com lideranças da sociedade civil sobre o que esperar da disputa eleitoral, Iara Pietricovsky é uma atriz de primeira grandeza, bastante reconhecida pelo público de Brasília.

 

Dedicada à defesa dos direitos humanos, Iara ajuda a fazer do INESC uma entidade de referência internacional na articulação da sociedade civil para ampliar a participação social em espaços de deliberação de políticas públicas. O INESC atua desde 1979 (www.inesc.org.br).
“É através da pressão da sociedade” – diz Pietricovsky - “que certos processos ganham amplitude (Impeachment, Ficha Limpa...). É através destas dinâmicas que a mesma sociedade evolui, independente do espaço de campanha eleitoral.”

Quero saber a visão de Iara sobre como são tratados pelos candidatos mesmo aqueles temas mais essenciais, como Segurança, Saúde, Educação... Para ela, “são temas tratados desde uma perspectiva de políticas específicas para os mais pobres, quando deveriam ser a concretização de direitos sociais amplos”.

- Mesmo que nesta perspectiva equivocada de ´política para os mais pobres´ , são temas que poderiam ser melhor debatidos...

- “Os serviços públicos que atendem aos direitos sociais não funcionam pela mesma razão que faz com que o debate sobre estas políticas seja superficial: os serviços não são universalizados de fato - as elites privatizaram seus serviços nestas áreas; as elites não conhecem nem precisam dos serviços públicos” – afirma Iara.

Iara acrescenta à lista de temas que estão na agenda mas não ganham um novo debate:

- A questão redistributiva: “Não ganha o debate necessário o desafio da Reforma Tributária; o problema não é enfrentado durante as campanhas e há um cenário de extrema desigualdade social”.

- A estrutura sócio-cultural brasileira: “São transformados em ´minorias´ os sujeitos das questões raciais ou indígenas, de gênero ou de preferência sexual. Mas estes são elementos e questões fundamentais da nossa estrutura social e cultural”.

Drogas, nem pensar!?

- Drogas: “Não, o Brasil não vai discutir a questão das drogas. Nem mesmo os países da Europa ou os Estados Unidos avançam significativamente numa idéia de descriminalização do uso de drogas; o Brasil não adotaria uma visão mais progressista. A produção e o consumo seguirão sustentando estados paralelos”.

Pergunto a Iara Pietricovsky se o Congresso Nacional - onde o INESC tem atuação permanente e que também é renovado através do mesmo processo eleitoral... no Congresso, o Brasil real existe, é debatido?

- “É um importante espaço de debate, mas ainda não representa a sociedade brasileira, como ela se constitui. É um Congresso de homens-brancos- católicos-conservadores-patriarcais. Muitos dos parlamentares são gente afastada dos grandes debates. Nossa democracia tem ainda muito a ser refinado”, responde Iara.

 

Geraldinho Vieira é vice-presidente da ANDI - Agência de Notícias dos Direitos da Infância, consultor de ongs e fundações na área da em comunicação para a transformação social e professor da FNPI - Fundación Nuevo Periodismo (entidade colombiana presidida pelo jornalista e escritor Gabriel García Márquez).

 

Leia as entrevistas com:

1 - Fernando Rossetti, GIFE

2 - Ana Toni, Fundação Ford

3 - Veet Vivarta, ANDI

4 - João Brant, Coletivo Intervozes

5 - Joselito Crispim, Bagunçaço

6 - Vera Cordeiro, Saúde Criança

7- Maria Alice Setúbal, Fundação Tide Setúbal

8 - Oscar Vilhena, Conectas Direitos Humanos

9 - Miguel Milano, conselheiro Fundação O Boticário

10- Iara Pietricovsky, INESC

11 - Dora Andrade, Edisca

12 - Cláudia Werneck, Escola de Gente

 

Acesse o Blog do Noblat

 

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