Da Queda do Muro a Batalha de Seattle. Próxima parada: Copenhague
Publicado em 27/11/2009 09:51
A década iniciada em 1989 com a queda do Muro e o respectivo fim da Guerra Fria pode ser sintetizada como a década onde se anunciou o "fim da História" e o reinado absoluto das teses do chamado Consenso do Washington, que traduziam a hegemonia política, cultural, econômica e militar dos EUA na nova ordem internacional unipolar. Na América Latina vivemos o período sob o signo da "década perdida", que combinava a vitória do retorno das democracias após o tenebroso ciclo de ditaduras com economias com resultados desanimadores e desmontes das estruturas produtivas e do papel regulador do Estado, com a febre das privatizações e perdas de direitos e encolhimento das esferas públicas.
Ao longo desta década os movimentos sociais e outras forças da chamada esquerda, ainda tontos diante da desorganização programática e do desmoranamento de paradigmas que ruíram junto com os escombros do Muro, foram atingidos em cheio pela força do pensamento hegemônico. A década assistiu a uma ampla desmobilização e fragmentação dos movimentos sociais. Muitas organizações passaram a investir esforços nos processos de reforma institucional das Nações Unidas, tendo havido grande esforço na tentativa de influenciar o ciclo de conferências da ONU, que incluiu a Eco 92 - de fato o primeiro grande momento de internacionalização da ação das organizações e movimentos depois de muitos anos - , as conferências de Direitos Humanos em Viena, de População e Desenvolvimento no Cairo, de Desenvolvimento Social em Copenhague, de Mulheres em Beijing. Apesar dos aprendizados que estes esforços proporcionaram, sobretudo no sentido do entendimento do funcionamento do sistema ONU, é preciso reconhecer que estas organizações e movimentos não eram atores na política internacional e sua capacidade de mobilização estava esvaziada. Em meadas da década alguns sinais contraditórios passaram a revelar que algo estava se movendo nas tumbas do fim da História. Em 1994, por exemplo, de um lado o ex-presidente dos EUA Bill Clinton lançava o NAFTA - o acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México, a bula neoliberal que depois se tentaria estender para o resto das Américas através da ALCA -, e ao mesmo tempo o movimento zapatista deslanchava o levante de Chiapas, com a característica de ser ao mesmo tempo resistência anti-neoliberal num território específico e também uma iniciativa que convocava um movimento global.
Foi no apagar das luzes da década perdida, em 1999, que finalmente movimentos e organizações de todas as partes do mundo revelaram que a semente da resistência recomeçava a brotar. Seattle deu início a um novo ciclo na política internacional, tendo produzido um momento de ampla contestação que reunia sindicatos com ambientalistas, camponeses, mulheres, ativistas por direitos humanos. Seattle trouxe para as ruas a crise de legitimidade do neoliberalismo. Seattle foi o ato inaugural do Fórum Social Mundial. A História não havia terminado!
A primeira edição do FSM em 2001 foi um sucesso. A tônica anti-Davos se combinou com o encontro entre várias culturas e tradições políticas da esquerda. Porto Alegre foi o espaço de convergência para a construção de novas formas de organização e de ação política, novas questões e lutas, novas dinâmicas não-centralizadas de organização. Um poderoso encontro da diversidade e da pluralidade. O FSM ainda comemorava o fato de ter espelhado o impulso de criação de um novo ciclo político quando o atentado de 11 de setembro às torres gêmeas novamente alterou o curso da História, ao recolocar no centro da agenda da política internacional a guerra e ao reforçar a tendência à unipolaridade que já vinha sendo o novo fundamento da ordem internacional desde a queda do Muro. A partir do 11 de setembro os movimentos que integram o processo FSM passaram a ser criminalizados e passaram ter que incluir no centro de suas lutas a resistência contra a guerra.
Na América Latina o início do novo milênio revelou que os anos de lutas de resistência e a força do FSM começavam a dar frutos com a eleição de um novo ciclo de governos. O projeto dos EUA para a região, a ALCA, fora derrotada por uma ampla campanha continental e pelos novos governos que responderam a esta campanha com o esvaziamento das negociações.
O FSM seguiu se mundializando e se enraizando em sociedades tão ricas e diversas como as da Índia, Quênia, Paquistão, EUA, Marrocos e tantos outros. O FSM hoje pode ser considerado como o ponto de referência de um ciclo longo de recomposição histórica de um pensamento contra-hegemônico. Ao voltar para o Brasil em 2009, e em especial para a Amazônia, o FSM revelou que um novo ciclo está se inaugurando. O FSM Belém teve uma nova qualidade em relação às edições anteriores, ao fazer emergir uma crítica mais profunda ao modelo de desenvolvimento que se reproduz devorando a natureza e os recursos naturais. Ao colocar o meio ambiente no centro do debate político, o FSM realizado na Amazônia, território onde os conflitos sócio-ambientais são tão evidentes, nos convida a dar um passo adiante, para além da crítica ao neoliberalismo.
A próxima parada do processo FSM inaugurado em Seattle será em Copenhague, na COP 15, onde as lutas de Seattle serão atualizadas e agenda do FSM Belém ganhará estatura. As mobilizações da nova geração política iniciada em 1999 serão amadurecidas nas ruas de Copenhague com a resistência contra a privatização do ar. Seattle e o FSM denunciaram ao mundo que o chamado pensamento único fundado nas teses do neoliberalismo levaria o mundo ao esgotamento e anunciaram que Outro Mundo É Possível. Os movimentos reunidos em Copenhague re-afirmarão a resistência ao neoliberalismo na sua versão atual de mercantilização do ar. Mas também irão muito além. A grave crise climática não encontrará solução adequada pela via do mercado de carbono. Além de reafirmar a resistência, as mobilizações em Copenhague demonstrarão que o planeta só terá chance de sobrevivência se o atual modo de produção e de consumo for alterado, se formos capazes de encurtar distâncias entre produção e consumo, desglobalizando a produção, apostando na energia limpa, democratizando o sistema internacional através da criação de novas instituições e regras que sirvam aos povos e a natureza e não às corporações transnacionais, se relacionando com a natureza como bem comum e não mais privatizando a terra, água, sementes, ar, conhecimentos, cultura.
Ao contrário de Seattle, onde quisemos e conseguimos que a reunião ministerial da OMC fracassasse, em Copenhague queremos que a conferência obtenha compromissos por parte dos governos condizentes com a gravidade da crise. Para tal, nossas lutas de resistência se alimentam de uma clara visão alternativa, que será o eixo das ações nas ruas: a Justiça Climática exige que governos e povos do mundo não entreguem ao mercado e às mega corporações a gestão da crise climática. Exige que os povos e grupos sociais mais vulneráveis – que serão os mais gravemente afetados – não paguem a conta e tenham prioridade nas políticas e programas de combate aos efeitos das alterações do clima. E exige que os países responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa assumam que têm uma dívida climática a pagar.
De Copenhague emergirá uma nova geopolítica e uma nova correlação de forças no sistema internacional, onde países do Norte e do Sul deverão assumir compromissos com a transição para um novo modelo de desenvolvimento. Para o movimento altermundialista, Copenhague proporcionará as bases para uma nova plataforma de ação, que terá no seu centro a defesa dos bens comuns, dos territórios e direitos dos povos e da natureza como perspectiva de futuro para um Outro Mundo Possível e, mais do que nunca, urgente.
Fátima Mello - FASE/REBRIP























