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Racha na base e baixo clero desafiam candidatura de Temer

by Congresso em Foco — last modified 09-10-2008 12:32

Congresso em Foco

Eleições 2009

Disputa por cargos e possibilidade de rompimento de acordo com o PT no Senado ameaçam candidatura de Temer à presidência da Câmara


Renata Camargo e Eduardo Militão

 


Menos de uma semana após o primeiro turno das eleições municipais e ainda sob a agitação do segundo turno, a disputa pela presidência da Câmara e do Senado já sinaliza para um racha entre partidos da base aliada. E para embolar ainda mais as articulações, oposição e base reivindicam cargos em troca de apoio à candidatura do presidente do PMDB, Michel Temer (SP), que precisa da maioria para conquistar, pela terceira vez, a presidência da Câmara.

 

De olho no apoio da bancada mais numerosa da oposição – o PSDB, que conta com 59 deputados –, Temer já ofereceu o cargo de primeiro vice-presidente aos tucanos. Em contrapartida, o líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal (SP), que confirmou ao Congresso em Foco a articulação, garante apoio do partido à candidatura do presidente peemedebista. “Evidente que apoiando uma candidatura, um partido pleiteia o melhor lugar. E esse lugar, no que se vê, seria a primeira vice-presidência”, diz Aníbal.

 

A busca de Temer por apoio, entretanto, esbarra no interesse da segunda bancada mais numerosa da Casa, o PT, com 79 representantes (número superado apenas pelo PMDB, que possui 95 deputados). Nos bastidores, os petistas também pleiteiam a primeira vice-presidência. Mas querem, ainda, comandar a poderosa primeira-secretaria. Temer já teria acordado com o PT a indicação para esse segundo cargo. “Estão gulosos demais os petistas. Eles que se contentem com o que têm”, disse Aníbal.

 

Acordo no Senado em risco

 

O líder do PT, Maurício Rands (PE), entretanto, não confirma que o partido pretende abocanhar a primeira-secretaria, cargo importante, espécie de "prefeitura da Câmara", responsável pela administração dos contratos da Casa. No entanto, admite que os petistas reivindicam dois cargos na Mesa.

 

"Como não teremos presidência, teremos dois cargos. Esse é o acordo", declarou Rands, que descarta qualquer arranjo sem o aval dos senadores do PMDB e do PT. "Tem que ser em conjugado Câmara e Senado."

 

No início do ano passado, os peemedebistas abriram mão de indicar candidato à presidência da Câmara em troca do apoio dos petistas à reeleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) como presidente do Senado. Pelo entendimento feito na época, o PT se comprometeria a apoiar o nome lançado pelo PMDB para suceder Chinaglia.

 

Os petistas, por sua vez, teriam o aval da maior bancada do Senado – de novo, o PMDB – para comandar a Casa no início de 2009. Hoje, o candidato do partido seria Tião Viana (AC). Mas, como revelou ontem (8) o Congresso em Foco, essa costura começa a ser desfeita, com a participação de Renan e José Sarney (PMDB-AP), que articulam a candidatura do ministro das Comunicações, o senador licenciado Hélio Costa (PMDB-MG) – leia mais.

 

Pequenos famintos

 

Mas o apoio em troca de cargo não tem sido moeda de troca exclusiva dos grandes partidos. O PSC, que hoje ocupa o cargo de 4º suplente de secretário, com o deputado Deley (RJ), também aspira uma vaga no comando da Mesa Diretora. Segundo o líder Hugo Leal (RJ), o partido “pode acompanhar” Temer na busca pela presidência, mas “vai depender de alguns fatores”.

 

“Já tive a oportunidade de conversar com o Temer. O caminho natural seria apoiar o PMDB. O partido ainda não se reuniu e, como você sabe, hoje temos a 4ª suplência. Então tudo vai depender de como o PMDB vai se comportar”, avisa Leal.

 

A pretensão de Temer à presidência da Câmara esbarra também na falta de unidade dentro do próprio PMDB e na fragilidade do acordo com o PT sobre a alternância para presidir as duas Casas.

Unidos, mas nem tanto

 

Na tarde de ontem (8), a cúpula do partido oficializou a candidatura de Temer com presença em peso dos grandes caciques do PMDB. Entre eles, os senadores José Sarney, Renan Calheiros, o líder peemedebista Valdir Raupp (RO) e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), e os ministros José Gomes Temporão (Saúde), Edison Lobão (Minas e Energia) e Reinhold Stephanes (Agricultura).

 

“A prioridade do PMDB é a candidatura de Michel. Quero cumprir tarefas para que você [Temer] volte à presidência da Câmara dos Deputados”, discursou Renan Calheiros. “Estamos aqui dando mais um passo na materialização da unidade do partido. A presidência da Câmara é um projeto do partido. O Senado não será obstáculo para que isso ocorra”, sinalizou Jucá.

 

Aclamada pelos 82 deputados peemedebistas presentes na reunião, a candidatura de Temer, no entanto, contou com a voz contrária da deputada Rita Camata (PMDB-ES), que ameaçou disputar a indicação com o presidente, mas retirou a candidatura na última hora. “Não me sinto pior do que nenhum outro companheiro de bancada. Mas não concordo com estas decisões tomadas pela elite do PMDB”, disse Rita.

 

O grande racha do PMDB, entretanto, virá com a candidatura do deputado Osmar Serraglio (PR) à presidência da Casa. O parlamentar, que não participou da reunião de oficialização da candidatura de Temer, por estar “resolvendo problemas mais importantes”, segundo informações de seu gabinete, já declarou que concorrerá como candidato avulso e pode ter o apoio de Rita Camata. Por meio de sua assessoria, Serraglio confirmou que será candidato de qualquer forma e afirmou que tem o apoio dos parlamentares paranaenses do PMDB.

 

Correndo por fora

 

Os planos do PMDB também esbarram no chamado baixo clero da Câmara. Com o nome do atual 2º secretário da Mesa, deputado Ciro Nogueira (PP-PI), despontando no cenário como um possível candidato à presidência da Câmara, partidos menores tendem a se unir para apoiá-lo e acabar com acordo entre PT e PMDB.

 

Considerando “prematura” a oficialização da candidatura de Temer, Ciro Nogueira desconversa sobre sua entrada na disputa, mas avisa que “ninguém vai resolver a presidência da Câmara com acordo”.

 

“De forma nenhuma vai resolver quem será o presidente com acordo no Senado, com distribuição de ministérios. Michel [Temer] quer resolver isso de fora para dentro. Mas prevalece na Casa esse sentimento que tem que ter eleição e disputa”, avisou Nogueira. “Esse acordo foi feito para não acontecer. Temer não vai ser eleito, a não ser que tenha disputa. Mas essa discussão só quero trazer em dezembro. Ainda é cedo”, disse.

 

Ainda que Ciro evite comentar sobre suas pretensões, o vice-líder do PP Benedito Lira (AL) afirma que o partido vai trabalhar para angariar apoio à candidatura do colega de bancada. “Vamos buscar apoio de cada deputado. Vamos acabar com essa história de que o partido A, B ou C tem que indicar o presidente. A regra é disputa voto a voto e não acordo de partido A ou B”, diz Lira.

 

Concentração de poder

 

O bloco partidário encabeçado por PSB, PCdoB, PDT, PMN e PRB, composto por 76 deputados, também se mostra "simpático" à candidatura de Ciro. O vice-líder do chamado Bloquinho, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), afirma que Michel Temer é "um grande quadro", mas que PT e PMDB concentram muito poder na Casa. "A concentração muito grande de poder nas mãos de alguns partidos tem de ser analisada", ressaltou.

 

Rollemberg acrescenta que, nos próximos dias, o PSB deve reunir-se para debater as eleições e o segundo turno, ocasião em que também vai tratar da sucessão na Câmara. A opinião do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, deve ser preponderante na decisão da sigla sobre o apoio a Temer ou a Ciro Nogueira.

 

O PSC também deve decidir sua posição nos próximos dias. Mesmo pleiteando cargo junto ao PMDB, os 11 deputados da legenda não têm consenso sobre o nome de Temer. “O Ciro tem apoio interno no nosso partido. Tem aqueles deputados que manifestam a favor dele. Por isso que digo que tudo caminha para o entendimento com o PMDB, mas não tem como dizer que isso está decidido”, diz Leal.

 

O nome de Ciro também está sob avaliação da bancada do PTB, que conta com 19 deputados. O líder do partido, deputado Jovair Arantes (GO), adianta que a bancada já se reuniu para debater o tema, mas ainda não chegou a um acordo.  “O Ciro tem um trabalho muito forte dentro da Câmara e a vontade política de Temer tem história. O PTB se resguarda o direito de decidir com calma. Não nos incluímos em nenhum acordo entre PT e PMDB”, adverte Jovair.

 

Uma eventual vitória de Ciro Nogueira, na avaliação de Jovair, não deve ser comparada com a eleição do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que, em 2005, alcançou o comando da Câmara ao vencer dois petistas – Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), candidato oficial do partido, e Virgílio Guimarães (MG), que concorreu mesmo sem o apoio da bancada.

 

“O fenômeno Severino não se repete. Ciro tem perfil para a presidência, ele tem aceitabilidade. Não é um candidato de desgosto, que seria eleito para ser do contra”, avalia Jovair.

 

Lançamento prematuro

 

O líder do PPS, deputado Fernando Coruja (SC), avalia que Michel Temer fez uma boa gestão à frente da Câmara, mas diz que a bancada ainda vai discutir o assunto, tendo em vista que os deputados estão focados na solução para a crise econômica internacional.

 

"Fui a um café da manhã com o Temer, uma coisa institucional. Ele fez um bom trabalho. Eu estive dois anos com ele na presidência e o achei firme", disse o parlamentar.

 

A liderança do DEM também prefere abafar as discussões sobre a eleição à presidência. “Não vamos discutir isso agora. Está muito cedo. As eleições só acontecerão em fevereiro. Não vou falar em possibilidades. Mas é certo que vamos discutir Câmara e Senado juntos”, disse o vice-líder do DEM, José Carlos Aleluia (BA), que não descartou o apoio do partido para que o PMDB presida as duas Casas.