"O capitalismo precisa do submundo"
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De prancheta na mão, rabo-de-cavalo e camiseta multicolorida, o indo-americano Sudhir Venkatesh, então com 23 anos, entrava no conjunto habitacional Robert Taylor, um dos mais pobres de Chicago, nos Estados Unidos. Era novembro de 1989. Seu visual californiano nada combinava com a catacumba fria onde vivam 27 mil americanos, na maioria negros, todos pobres. O universitário estava ali para entender as entranhas da economia informal americana. Lá, ele conviveu por seis anos com os moradores do conjunto e integrantes da gangue Black Kings, cuja principal fonte de renda era o tráfico de drogas. Desde 1999, ele voltou seu foco para a prostituição em Nova York e as mudanças dessa atividade em função das políticas públicas de revitalização da cidade.
Hoje com 42 anos, Venkatesh, diretor do Centro de Políticas e Pesquisas Urbanas da Universidade Columbia, em Nova York, é considerado um dos maiores especialistas do mundo em economia informal. Sua experiência com os Black Kings resultou no livro Líder de gangue por um dia, publicado este ano e sucesso de crítica nos Estados Unidos. A fama internacional veio antes, com a participação na seção Freakonomics, do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner, do jornal The New York Times. Nesse trabalho, ele dissecou o submundo em uma linguagem muito distante do pedantismo acadêmico.
Em entrevista a ÉPOCA, ele diz que, embora desconheçam a realidade dos guetos, os americanos precisam deles. “Na economia capitalista formal nunca haverá espaço para todo mundo. É preciso que existam pessoas trabalhando no submundo, fazendo os serviços que ninguém quer, satisfazendo os desejos ilícitos daqueles que estão na sociedade dominante.”
ÉPOCA - O que motivou o senhor a seguir essa linha de pesquisa?
Sudhir Venkatesh - O que me motivou é que não acho que seja útil negar a existência dessa importante parcela de nossa sociedade. Alguns deles estão trabalhando sem ser pagos. Outros trabalham e não têm nenhum dos interesses e expectativas atendidos. Essas pessoas precisam ser ouvidas. Nasci na Índia e vim para a Califórnia muito cedo. Meu interesse foi entender os aspectos marginais da sociedade americana, daí o foco na economia informal.
ÉPOCA - Como o senhor conseguiu ser aceito num conjunto habitacional pobre de Chicago, um ambiente que lhe era estranho?
Venkatesh - Ganhei a confiança dos moradores porque passei muito tempo no bairro. Assim como alguns jornalistas passam semanas em um local para decodificá-lo, passei anos. Isso ajuda. Eles sabiam que eu era um acadêmico fazendo uma pesquisa. A minha origem indiana, minha pele morena - embora bem diferente da negra - me deu uma certa isenção, como se eu não pertencesse a nenhum grupo de opressão, seja polícia, agentes sociais, membros de gangues negras ou latinas. Quando você é um jornalista ou acadêmico e precisa ir a campo, deve manter certo distanciamento, o que não é tão difícil. Não fui um líder de gangue, mas andei muito próximo ao de uma no início dos anos 90 (JT, chefe da Black Kings). Pude entender seus desafios, ver quão difícil era gerenciar toda essa cadeia dentro da economia informal. Isso me possibilitou uma visão muito próxima. Vi algumas pessoas sendo espancadas, mas nunca tive de me envolver.
ÉPOCA - O ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, exerceu um intenso combate sobre a prostituição nas ruas de Nova York. A atividade sobreviveu a essa investida?
Venkatesh - A mudança mais profunda é que agora as prostitutas estão trabalhando “indoor”. Quando elas passaram a se prostituir fora das ruas, o negócio se voltou para garotas de classe média. O advento desse mercado “interno”, com perfil mais elitizado, acarretou várias mudanças no pensamento dessas mulheres. Elas se vêem menos como prostitutas e mais como ajudantes, terapeutas. O sexo não é a única coisa procurada pelos clientes. De acordo com minhas pesquisas, 40% dos encontros não terminam em sexo. São homens que querem apenas companhia.
ÉPOCA - Como a economia formal dos EUA enxerga a sua outra face?
Venkatesh - Na economia capitalista formal nunca haverá espaço para todo mundo. É preciso que existam pessoas trabalhando no submundo, fazendo os serviços que ninguém quer, satisfazendo os desejos ilícitos daqueles que estão na sociedade dominante. E, por causa disso, sempre encontraremos pessoas para cumprir esses trabalhos, e a tendência é que sejam os pobres, que não possuem outras alternativas. Costumamos ser muito inocentes em relação ao que está acontecendo ao nosso redor. Boa parte dos americanos não entende os pobres em nossa sociedade, suas expectativas e o motivo de agirem como agem. Mas temos de ser cuidadosos ao dizer que existem duas Américas: a formal e a informal. Na verdade, elas estão muito próximas e conectadas uma à outra. Existe uma classe dominante na sociedade, composta de várias raças, não puramente branca. Eles têm contato com essa América de submundo, a contratam para tomar conta de suas crianças, arrumar suas casas, consertar o encanamento. Só não a trata apropriadamente.
ÉPOCA - Sua pesquisa resultou em algum benefício para os grupos com os quais o senhor conviveu?
Venkatesh - Geralmente sou visto com bons olhos. As pessoas estão interessadas em ler sobre o submundo porque têm de lidar com ele constantemente, mesmo que não o compreendam bem. Minha presença e meu trabalho, porém, não motivaram os grupos pesquisados a melhorar suas vidas como eu gostaria que tivessem motivado. Além disso, eles já recebem o apoio de alguns setores da sociedade. Por quase meio século tivemos um estado de bem-estar social muito amplo e isso dá forma às expectativas que os pobres têm. Sinceramente, não creio que o trabalho de um pesquisador pudesse mudar muita coisa. Mas demonstrei muito respeito e eles gostaram de ser o objeto de estudo. Eles gostaram de ser observados porque isso os deu um tipo de dignidade que de outra forma eles não receberiam. Eles querem ser ouvidos, ser notados.
| Foto: Paresh Gandhi. |























