O avanço do etanol brasileiro
Publicado em 21/05/2008 09:42
Assim como os rios bravios que correm para o mar... Esse início de letra de samba canção do Custodio Mesquita, se aplica com precisão à grande batalha mundial do etanol. É um xadrez delicioso. Primeiro, a constatação de que estaria havendo mudanças climáticas obrigando a uma mudança de postura da economia mundial. A saída foi converter a recuperação do planeta em bom negócio, através das práticas criadas pelo chamado Protocolo de Kioto – que permitiu a criação de um mercado mundial para o chamado seqüestro de carbono da atmosfera. Depois, as medidas evoluíram para a adoção dos combustíveis limpos como alternativa ao petróleo. Foi um autêntico movimento de bolha que mobilizou até grandes personalidades internacionais interessadas eminvestir no setor. *** Para turbinar os negócios em cada pais, criou-se a idéia da “segurança energética” – um arremedo da “segurança alimentar”, que se tornou obsessão na Europa depois das agruras das duas grandes guerras. Cada pais teria que ser auto-suficiente em energia, um contra-senso que atropelava princípios básicos de economia e de integração mundial. A rodada não terminou. As últimas reuniões foram decepcionantes. Mas os subsídios estão caindo um a um, derrubados pelo embate com a realidade e com o conflito entre alimentos e energia. *** Ontem foi a vez da Comissão órgão executivo da União Européia – aprovar o fim dos subsídios ao etano, criados em 2003. Para salvar a cara, enfatizou que continuará adotando critérios drásticos para a importação de etanol, como respeito ao meio ambiente e social – o que não é novidade. Definiu também que não irá importar etanol que esteja competindo com a produção de alimentos – o que alija a produção americana do mercado europeu. Até então, a UE bancava 45 euros por hectare plantado. A proposta de acabar com o subsídio foi apresentada pela Comissão de Agricultura, Mariann Fischer Boel. Depois de aprovada pela Comissão Européia, passará pela votação dos 27 países membros da UE, para poder ser implementada. Dois pontos importantes: não se mexeu nos percentuais de mistura do etanol na gasolina; e os recursos liberados serão aplicados em pesquisas para a segunda geração de bio-combustíveis. *** Mesmo acabando com os subsídios, a UE negou que a produção local crie conflitos com alimentos. Segundo ela, apenas 1% da produção de cereais reverte para a produção de biocombustível. As criticas, no caso, são para o etanol americano feito à base de milho. Mantida a meta de 10% dos carros sendo movidos a etanol até 2020, o impacto sobre os alimentos será óbvio. Mas a Comissão Européia limitou-se a pedir que a expansão do etanol – na Europa e no mundo – se dê com o uso responsável das terras. *** Com esse movimento, na prática na próxima rodada das negociações de Doha o Brasil estará com a faca e o queiro na mão.
Com isso, os subsídios agrícolas ganharam mais consistência e parecia impossível que a rodada Doha – que discute a redução do protecionismo agrícola – chegasse a bom termo.























