O Copom e a síndrome da avestruz
Publicado em 13/06/2008 17:56
Veja bem: há um claro processo de deterioração das contas externas. Não se trata mais de um fenômeno percebido por poucos. O próprio JP Morgan, o mais importante dos bancos de investimento do mundo, já alertou que, em breve, as necessidades de financiamento externo baterão na casa dos US$ 40 bilhões. E que o mar internacional não está para peixe. Qualquer análise de risco honesta colocará essa deterioração das contas externas no radar, como o evento mais relevante a ser acompanhado. O Banco Central continua focado na relação nível de atividade-juros-preços.Ignora completamente o impacto dos juros sobre a taxa de câmbio - e conseqüentemente sobre as contas externas. A única menção mais expressiva é sobre a influência do câmbio na inflação. Admite que, daqui para frente não será expressiva. Se as contas externas entrarem em parafuso, o câmbio explode. Ou não? Se o câmbio explodir, todo esse esforço gigantesco para segurar a inflação vai para o espaço. Ou não? O custo fiscal desses anos todos de juros elevados, a enorme luta para a criação de uma curva de juros mais longa, os pontos de PIB (ou seja, de emprego, salário e renda) comidos ao longo de anos e anos terão sido em vão. No entanto, na ata do Copom, esses problemas são simplesmente ignorados. Suponha que o BC acredite que não seja um problema concreto. Se o papel da ata é interferir nas expectativas, se o mais importante banco de investimentos do mundo já tem a expectativa de que haver um nó nas contas externas, o mínimo que se esperaria de uma instituição competente seria tratar do problema – ainda que fosse para rebater o receio dos investidores. Mas não. Olha as menções às contas externas que constam da última ata do Copom: No capítulo Evolução Recente da Economia Brasileira, é o 9º item em 12. Limita-se a descrever a situação atual. A balança comercial continua registrando perda de vigor na margem, tendência já antecipada e que está em consonância com avaliações expressas em Relatórios de Inflação e em Notas de reuniões anteriores do Copom. (...) Como observado em Notas de reuniões anteriores, as importações vêm crescendo em ritmo mais acelerado do que as exportações, em razão tanto do fortalecimento do real como do maior nível de atividade econômica no país, a despeito das elevadas cotações de diversas commodities características da pauta exportadora brasileira. A redução dos superávits comerciais contribuiu para que o saldo em transações correntes registrasse déficit de US$14,7 bilhões em doze meses até abril de 2008, equivalente a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Por sua vez, os investimentos estrangeiros diretos chegaram, nos doze meses até abril, a US$37,2 bilhões, equivalente a 2,8% do PIB. No Sumário dos Dados Analisados, no item Comércio Exterior e Reservas Internacionais limita-se novamente a repetir dados quantitativos. É prospectivo em relação à inflação, aos efeitos da política monetária, dos investimentos internos. Quando entra no tema contas externas, vira descritivo. Simplesmente porque, se for prospectivos em relação à deterioração das contas externas, não haverá mais como deixar de lado o problema. Então, ignora. Não ousa sequer um exercício estatístico sobre o quadro externo para os próximos anos. No BC existem economistas preparados, o Departamento Econômico é competente, os técnicos, de primeira. Mas o clima interno se ideologizou. Quem ousa enxergar o rei nu é mal visto pelas chefias. Cabe ao Congresso Nacional ou ao TCU exigir do presidente do Banco Central a apresentação das projeções do banco em relação às contas externas. E os funcionários e economistas do BC entendam que são funcionários públicos. Quando a crise vier, os turistas voltarão para o mercado financeiro e os funcionários de carreira é que terão que arcar com o desmoralização de suas análises.























