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Uma outra polícia é possível?

Publicado em 23/07/2008 15:45

Uma Outra polícia é possível, pergunta Atila Roque, um dos membros da Colegiado de Gestão do Inesc. "Não adianta o governador chamar os policiais que cometem crimes de “débeis mentais” ou o secretário de segurança dizer que eles estão despreparados. Declarações duras que raramente são ditas quando os mortos são jovens ou crianças negras nas favelas. Quantas vezes ainda teremos que assistir na tv mães desesperadas tentando tirar os filhos da linha de fogo enquanto a nossa “tropa de elite” avança sob o signo da caveira?"
Uma outra polícia é possível?

Inesc

Outra polícia é possível

Atila Roque*

É fácil e covarde os governantes focarem os problemas nos jovens policiais que cometem o erro mais trágico do momento. Mas estamos prontos como sociedade a aceitar que refundar a polícia é uma prioridade?

Temos que investir massivamene na formação dos policiais e na remuneração digna daqueles e daquelas que são autorizados a carregar armas em nosso nome. Formação policial deveria ser tão importante como a de médicos, advogados e professores universitários, com curso superior e pós-graduação. E, claro, ser acompanhado de um sistema eficiente de controle social, corregedorias independentes, apoio psicológico aos que se envolvem em confronto com mortes e punição aos que cometem crimes. É isso ou continuaremos cada vez mais reféns do medo e próximos da barbárie. Como disse a mãe do menino de 3 anos fuzilado pela polícia, as desculpas se não são acompanhadas de ação  no sentido de reformar a segurança pública e  a polícia em instituições das quais todos nos orgulhemos, não devem ser aceitas.

Não adianta o governador chamar os policiais que cometem crimes de “débeis mentais” ou o secretário de segurança dizer que eles estão despreparados. Declarações duras que raramente são ditas quando os mortos são jovens ou crianças negras nas favelas. Quantas vezes ainda teremos que assistir na tv mães desesperadas tentando tirar os filhos da linha de fogo enquanto a nossa “tropa de elite” avança sob o signo da caveira? Como esperar civilidade e competência de uma polícia cuja chefia, governador e comandantes, acham natural que o símbolo da sua elite policial seja uma caveira? E que a política que prevalece é a do confronto mesmo e que bandido que reage deve mesmo morrer? Ou, como já cansamos de ler em diversos relatórios independentes, inclusive publicados pelo próprio governo brasileiro, são muitas as evidências de que as chamadas mortes em confronto não passam de execuções sumárias.

Aceitamos normalmente que a polícia carioca tenha matado 1330 pessoas em 2007 e caminha para a superação deste recorde em 2008. É hora de parar. Estamos todos perdendo essa batalha, inclusive e principalmente a polícia, cada vez mais parecida com os criminosos. Cada vez mais humilhada e desrespeitada pela sociedade, tratada como escória que ninguém quer por perto, como mostrou o recente e chocante episódio em que a proposta de criação de um curso de segurança pública na graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, motivou protestos na instituição. Foram espalhados pelo campus cartazes com frases como “Fora polícia da UFF”.

O que mais ouvimos até agora é que estamos em guerra e que em guerra, infelizmente, morrem inocentes. E que os “bandidos” deveriam saber que agora  a tolerância é zero, a polícia é o inseticida, como disse um comandante, que vai acabar com a praga da bandidagem. Mas não vai, como sabemos. Vai apenas instalar  e incentivar o extermínio com a benção dos superiores. E vai expor os policiais a um processo constante de brutalização que os leva gradativamente a perder o valor à vida, a dele e a dos outros. Processo muito parecido e de conseqüências trágicas como o vivido pelos jovens que vivem na periferia, à beira do crime ou já cooptados pelo tráfico, cada vez mais violentos e perversos nos  métodos de tortura que aplicam aos inimigos. Eles aprenderam que a vida deles vai ser curta e bárbara. Que a sociedade já os trata como os “sem futuro”. Ou já esquecemos em tão pouco tempo o documentário de M.V.Bill e Celso Athayde “Falcões, os meninos do tráfico”? Como esperar outra coisa desses meninos abandonados à própria sorte?

Sabemos que temos que enfrentar o crime e libertar as favelas e periferias pobres da tirania do tráfico e das milícias. Não sejamos complacentes com isso. Assim como sabemos, mas o estado não executa ou  o faz em uma escala cosmética ou eleitoreira –  como o caso da “proteção” do exército a “obra social” do “bispo” candidato –, que precisamos de investimentos sociais massivos e conseqüentes nas periferias e favelas. Multiplicar em milhares de vezes o que grupos sociais como o Afroreggae ou a CUFA (Central Única de Favelas)  já fazem com sucesso comprovado e reconhecido no mundo inteiro, muitas vezes em parceria com a academia e a própria polícia, como é o caso da experiência em Belo Horizonte coordenada pelo Afroreggae e o CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), da Universidade Cândido Mendes.

Não aguentamos mais isso. É preciso romper o imobilismo. Dizer com todas as letras, como fez o professor e ex-secretário nacional de segurança, Luiz Eduardo Soares, no post abaixo, que não é mais aceitável a pusilanimidade e falta de coragem dos responsáveis governamentais em assumir o equívoco de uma política de confronto que aprofunda a crise, o medo e multiplica as tragédias e os erros. Temos que ter a coragem de dizer não à barbárie ou seremos cada vez mais cúmplices e reféns de uma política de segurança que há anos tem nos levado à terrível situação de não mais saber a quem temer, o bandido ou a polícia. Precisamos de mudanças que nos ajudem a ter orgulho da polícia. Isso é possível. Eu ainda acredito, apesar de tudo, e sei que muitos, inclusive dentro das polícias, também acreditam que outra polícia é possível.

 

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* Atila Roque é historiador e membro do Colegiado de Gestão do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos)

 

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