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Juros não combate a inflação

Publicado em 23/07/2008 16:27

Apesar do Índice de Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ter indicado estabilidade da inflação nos últimos 12 meses (6,06%), o Banco Central elevou de forma brusca a taxa de juros básicas da economia, que subiu de 12,25% para 13%. Com isso, o Brasil tem a taxa básica de juros mais alta do mundo. Contundo, a taxa juros não é o melhor terapia para combater uma inflação que é de custos externos (petróleo e outras commodities). A melhor alternativa é ampliar a oferta de alimentos e utilizar outros instrumentos de política econômica.

O cenário inflacionário piorou a partir de junho e especialistas acreditam que a dosagem do Bando Central (BC) na taxa de juros tem sido insuficiente para fazer o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2008 convergir e ficar dentro do teto da meta, de 6,5%. O foco é de 4,5%, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Na atual conjuntura, o ex-diretor do Banco Central (BC), Carlos Eduardo de Freitas, acredita ser "remota" a chance de a inflação não estourar a banda superior da meta, uma vez que a pressão inflacionária permanece e existe uma defasagem (de pelo menos seis meses) para o aumento da Selic surtir efeito na economia. O centro da meta para 2009, de 4,5%, também está ameaçado.

Até agora, desde a implantação do sistema de meta de inflação, em 1999, o BC não conseguiu cumprir a meta de 2001 a 2003. Freitas defende a implementação de novas medidas na economia para permitir ao BC conduzir a inflação para as metas. Entre elas estaria o aumento das taxas de depósitos compulsórios para reduzir o ritmo de concessão de crédito na praça que cresce acima de 30%; e o aumento da meta do superávit para 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB), uma vez que o aquecimento econômico permite arrecadação de tributos federais em patamares recordes. A meta de superávit já foi elevada de 3,8% para 4,3% do PIB.

Já o professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UNB) Victor Gomes, também defensor do aumento do juro para segurar a inflação, propõe a redução de subsídios destinados às grandes empresas. Neste caso, diz, as empresas não se preocupam em reduzir custos de produção e ficam de olho apenas no repasse de preço para o consumidor. O economista do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) Evilásio Salvador diz que a saída é elevar a oferta de alimentos no País e garantir os estoques reguladores. Ele é contra a redução dos gastos correntes, que atingem 31% do Orçamento público. Disse que o problema são as despesas financeiras, como juro e amortização da dívida pública, que respondem por 1/3 do Orçamento.

Para o ex-diretor do BC, a autoridade monetária deveria ter sido mais "agressiva" no que diz respeito ao aperto monetário este ano. Na opinião de Freitas, a velocidade da inflação pode ter causado surpresa aos especialistas e ao próprio BC. Freitas pondera que a autoridade monetária deveria ter feito uma reunião extraordinária no intervalo da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 4 de junho, e a deste mês _ quando houve uma piora dos índices _ e ter elevando a Selic em mais 1 ponto percentual. Ou seja, a Selic que se encontra nos atuais 12,25% já deveria estar em 13,25% ao ano. O Copom deve anunciar hoje novo aumento da taxa. O mercado prevê alta entre 0,50 e 0,75 ponto.

Gomes concorda que houve "cautela" nas decisões do BC. "Isso certamente é uma estratégia do Banco Central que pode ser mais agressivo ou pautar as decisões em algo em que o mercado possa prevê melhor a inflação".

Atacado em alta

Existe forte espaço para haver repasse de preço do atacado para o varejo. Neste caso, Freitas avalia que a inflação deve perdurar por algum tempo. Ele destaca as elevações nos indicadores em junho. O IGP-M em 12 meses acumulou alta de 13,44%. No mês, foi de 1,98%, variação que se anualizada, diz, fica em 26%. Enquanto isso, o IPCA recuou um pouco, de 0,79% para 0,74% em junho, mas se levar a média para o ano chega a 9,3%. Nos últimos 12 meses, o índice já acumula 6,06%. Os preços dos produtos administrados, como energia e telefonia, serão outra pressão neste semestre.

O ex-diretor rebateu críticas de alguns especialistas que avaliam que o BC pode "abortar" o novo ciclo de crescimento econômico que desenha no Brasil diante do aumento da Selic.

Freitas avalia que o atual aquecimento da atividade supera a capacidade da economia, cujo crescimento barra em gargalos como infra-estrutura, na baixa capacidade de máquinas do setor produtivo e falta de mão-de-obra especializada. "A economia é igual um ser humano que para trabalhar também precisa descansar".

(Viviane Monteiro)

 

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