O problema é a dengue
Publicado em 23/01/2008 10:46
Para médicos, o que preocupa não é a febre amarela, mas a dengue, que matou mais de 130 pessoas em 2007 Fábio Góis Oito mortos em apenas três semanas. Eis o número oficialmente reconhecido pelo Ministério da Saúde, neste ano, em relação aos óbitos em decorrência da febre amarela. As ocorrências Brasil afora, principalmente na região central do país, têm alertado para o risco de uma epidemia. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, apressou-se em tranqüilizar a população e garantiu: não haverá surto da doença. De acordo com especialistas na área ouvidos pelo Congresso em Foco, o ministro está certo. Mas não há motivo para o brasileiro respirar aliviado. O verdadeiro problema é uma velha conhecida, que tem crescido de maneira silenciosa e preocupante: a dengue, causada pelo mosquito aedes aegypti, curiosamente, também responsável pela transmissão da febre amarela urbana. O Brasil não tem casos de febre amarela urbana desde 1942. De lá pra cá, todos os casos registrados, de acordo com o governo, foram de febre amarela silvestre, ou seja, de pessoas que contraíram a doença em regiões de mata. Números preocupantes Segundo informe epidemiológico sobre a dengue divulgado pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), departamento do Ministério da Saúde responsável pelo controle de epidemias, de janeiro a novembro do ano passado foram registrados 536.519 casos suspeitos de dengue em todo o país. Desse total, foram confirmados 1.275 casos de “Febre Hemorrágica da Dengue – FHD” (a chamada dengue hemorrágica), que resultaram em 136 mortes. O índice de letalidade, nesses casos, ficou de 10%, o dobro do pico anterior, registrado em 2002. De acordo com o relatório, o ano de 2007 registrou, nos primeiros 11 meses, 200 mil casos a mais do que o mesmo período do ano anterior. Ou seja, um crescimento de 37%, que, segundo a secretaria, “foi influenciado pela ocorrência de epidemias ocorridas nos estados de Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco”. Ainda conforme o documento, o Centro-Oeste apresentou o maior número de ocorrências de dengue no Brasil, com 811 casos por 100.000 habitantes, o que levou a região a ser classificada como de “alta incidência”. Ao todo, foram notificados 109.640 casos da doença na região – desses, 190 foram da variação hemorrágica, com 34 mortes confirmadas (leia a íntegra do relatório). De acordo com o Ministério da Saúde, são três os possíveis casos de morte por dengue hemorrágica em 2008. “São dados preliminares, em investigação, mas temos essas notificações. São casos de óbito no Rio de Janeiro, em Ananindeua e em Redenção, ambos no Pará”, declarou ao Congresso em Foco o diretor-técnico da SVS, Fabiano Pimentel. Mas os dados apresentados pelo diretor-técnico de Gestão da SVS são pra lá de tímidos se comparados com os divulgados ontem (23) pela Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará. Segundo o órgão, apenas nos primeiros 20 dias deste ano já foram registradas sete mortes no Pará causadas por dengue. Em todo o estado, já foram notificados 432 casos da doença somente nas últimas três semanas. Desses, 16 foram do tipo mais severo, a dengue hemorrágica. Bomba “A bomba que vem por aí é o combate à dengue. Pode consultar qualquer sanitarista”, disse à reportagem o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS), presidente da Frente Parlamentar da Saúde (FPS). Segundo Perondi, que também é médico, o governo já sabe do risco que se aproxima. De acordo com o sanitarista e professor do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (UnB) Pedro Tauil, a dengue hemorrágica é, de fato, a grande dor de cabeça que o governo terá nos próximos meses – embora não faça questão de lançar holofotes sobre a questão. “Desde o ano passado, a dengue hemorrágica matou mais de 100 pessoas no interior do país, mas ninguém fala nada, porque não tem vacina”, afirmou o sanitarista, ressaltando que, ao contrário do que ocorre com a febre amarela, ainda não existe um medicamento para a prevenção da doença. A solução está, portanto, no combate ao transmissor da doença. “Temos que controlar esse bendito mosquito, o aedes aegypti, e é muito difícil esse controle. Isso depende de um trabalho de prevenção conjunto de vários setores, inclusive da mídia”, defendeu. Ação Segundo o diretor-técnico de gestão da SVS, Fabiano Pimentel, o envolvimento do governo no combate à dengue tem sido intenso, embora as ações do ministério não tenham ganhado visibilidade à altura. “Talvez as ações não tenham tanta repercussão, mas o que precisa existir mesmo é exatamente a ação”, defendeu. “Dengue é um tipo de problema de saúde pública que exige uma ação intersetorial muito grande, porque deve envolver os trabalhos de ministérios como o de Meio Ambiente, o de Cidades e o de Turismo”, afirmou o diretor. De acordo com Fabiano, o ministro José Gomes Temporão fez, ainda no ano passado, um “alerta” aos médicos de todo o país em relação à dengue, uma das ações do ministério no combate à doença. “O ministro distribuiu CD-ROMs a médicos do Brasil inteiro. Esse material contém desde a atenção básica nos centros de saúde até os cuidados a pacientes com complicações de alta e média complexidade, internados em UTIs”, explicou. “A prioridade é tentar evitar óbitos”, destacou. Bromélias Para Fabiano, o governo Lula apresenta um diferencial aos anteriores no que diz respeito ao combate à dengue. “Uma prova concreta do governo Lula nessa questão foi o Dia Nacional de Mobilização contra a Dengue. O presidente Lula compareceu pessoalmente à mobilização, que foi realizada no Rio de Janeiro, onde detectamos uma transmissão de dengue continuada. Foi a primeira vez que um presidente da República foi pessoalmente a um evento como esse”, afirmou Fabiano Pimentel, lembrando até o dia em que Lula participou da ação, “19 de novembro de 2006”. A presidente nacional do Psol, a ex-senadora Heloísa Helena (AL), ironizou a importância da visita de Lula ao Rio para participar da mobilização. “Ele foi para fazer o quê? Distribuir bromélias? Para mim, ações são políticas eficazes de saúde pública junto às populações carentes”, bradou Heloisa. “Diante dos casos gravíssimos de saúde pública, a mais bela postura de um administrador seria de, humildemente, reconhecer sua incompetência, sua irresponsabilidade, sua insensibilidade, e então implementar medidas concretas em relação aos gravíssimos casos que estão acontecendo.” Situação gravíssima A ex-senadora, que é formada em Enfermagem e atualmente leciona Epidemiologia na Universidade Federal de Alagoas, disse que a situação da dengue no país é “gravíssima”, mas o descaso dos governantes com a saúde, em geral, é ainda mais grave. “O perfil epidemiológico no Brasil é gravíssimo, mas o país nada faz para garantir as melhorias nas condições de vida da população, nada faz para garantir a eficácia no solucionamento do problema da saúde pública”, denunciou Heloísa. “O problema é infinitamente maior do que eles imaginam, mas eles nem ligam.” Segundo Heloísa Helena, a culpa não pode ser debitada exclusivamente no governo Lula, pois o problema vem se acumulando de gestões anteriores. “É uma sucessão de irresponsabilidades. Nenhum governo tem autoridade moral para responsabilizar o passado quando nada fez para alterar as condições deixadas por outros governos”, vociferou, referindo-se às sucessivas gestões do Ministério da Saúde e demais órgãos competentes. “Esses irresponsáveis, incompetentes e insensíveis não foram capazes de prover as condições básicas de saúde, saneamento, educação básica.” A ex-senadora lamentou também o pouco enfoque dado à questão epidemiológica. “Infelizmente, casos relativos ao perfil epidemiológico no Brasil ficam restritos aos parlamentares ligados à área da saúde ou às descobertas do jornalismo investigativo.” Dor incurável Embora altamente letal, a dengue hemorrágica é considerada muito rara por especialistas em saúde pública. O único caso de morte em razão da doença registrado no Distrito Federal, por exemplo, foi o do estudante João Paulo Viana, em 3 de março de 2002. O jovem tinha 17 anos. O assunto foi amplamente noticiado pela imprensa à época. Segundo relato da própria mãe, Selma Viana, João Paulo fez uma viagem ao Rio de Janeiro durante o carnaval daquele ano e voltou infectado. Ao retornar à capital federal, João sentiu “sintomas de gripe”. “Quando ele voltou da viagem, se sentiu mal. Não pensei que fosse dengue, ele estava com sintomas de gripe. No hospital, ele ficou tonto, e então pedi para que o atendessem logo”, relatou Selma ao Congresso em Foco. “O médico constatou que era dengue, mas não resolveu tratar do meu filho. Não tive orientação nenhuma, como até hoje não temos. Não temos como fazer nada em relação à doença, porque não tem vacina. Os médicos só socorrem quando a pessoa não tem mais salvação”, desabafou. Segundo Selma, a difícil detecção da doença, aliada à ação deletéria fulminante do vírus, foi determinante para a morte de seu filho. “Ele não tinha sintoma de que estava doente. Estava bem, corado, não reclamava de nada. Na sexta-feira [22 de fevereiro de 2002], caiu de vez. Ficou internado durante nove dias, depois morreu”, lembra a dona-de-casa. “Vocês, como repórteres, têm de publicar isso, essas coisas erradas que acontecem na saúde”, exortou, para em seguida manifestar sua dor. “[A situação da saúde] é um descaso com o povo. Vejo as reportagens e fico revoltada. Os políticos não merecem nosso apoio, porque eles só se preocupam com eles mesmos.”























