Sobreviventes e parentes de vítimas do massacre de Eldorado recebem indenização
Publicado em 17/04/2008 14:50
Adriana Monteiro
Especial para o UOL
Em Belém
e da Redação
Um grupo de 19 sobreviventes e parentes de vítimas do massacre de Eldorado do Carajás recebe indenizações nesta quinta-feira (17) da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), em ato simbólico em Belém. Pagas a mando da Justiça, as indenizações saem 12 anos depois do massacre ocorrido numa operação da Polícia Militar.
Na ocasião, um grupo de 1.100 pessoas que participavam de uma invasão à fazenda Macaxeira, em Curionópolis (PA), fazia marcha até Belém. Os líderes do MST no local decidiram obstruir a rodovia PA-150, em Eldorado do Carajás (PA). O então governador Almir Gabriel (PSDB) ordenou a ação da PM para desobstruir a estrada.
Houve confronto e a operação resultou na morte de 19 lavradores ligados ao MST e deixou outros 69 feridos. Únicos condenados, os comandantes da operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria de Oliveira, aguardam em liberdade a análise de recursos. Laudos da perícia judicial sobre o massacre apontaram que os sem-terra foram mortos com tiros à queima-roupa, pelas costas ou na cabeça e com golpes de machado e de facão.
O governo do Estado pagará um total de R$ 1,2 milhão a esse grupo de 19 sobreviventes e familiares em precatórios que variam de R$ 30 mil a R$ 90 mil, cumprindo decisão judicial de 2005 a título de indenização por danos morais e materiais.
AÇÕES DO MST EM 9 ESTADOS
RECLAMAÇÕES NÃO MUDAM
Segundo o advogado, dos feridos sobreviventes do massacre, 50 foram localizados e, desses, 20 já recebem pensões especiais vitalícias do Estado. Outras 30 pessoas esperam aprovação de projetos de lei para garantir o benefício.
Pesadelos
Com 36 anos na época, Antonio Alves de Oliveira estava na linha de frente do grupo de sem terra que bloqueava a rodovia PA-150 no dia em que ocorreu o conflito. Foi atingido por três balas, uma no calcanhar direito, outra no joelho direito e outra na coxa. À época, era enfermeiro do trabalho e tem histórico no MST: "Eu nasci, cresci e vou morrer no movimento", disse. "Nós buscamos na Justiça o pagamento dessas indenizações e sei que esse dinheiro não vai nos fazer esquecer nunca daquele dia. Sonho com isso até hoje e nossos filhos também se envolvem, porque passam a sofrer junto com a gente."
Hoje, aos 48 anos, Antonio diz ainda sofrer com as seqüelas físicas provocadas pelos tiros. Desde 1999, recebe um salário mínimo como pensão, dinheiro que, segundo ele, é insuficiente para manter-se. "Não posso andar direito, como não posso andar tenho problema na coluna, porque as balas ainda estão alojadas no meu corpo", afirmou.
José Carlos Moreira tinha apenas 17 anos quando testemunhou o conflito na "Curva do S". Estava ao lado dos pais, que integravam o MST. Durante os disparos, recebeu um tiro na cabeça. Até hoje a bala continua alojada no crânio. A pensão que recebe do Estado é a única fonte de renda. "Por causa dela (bala) tenho problemas de memória e eu não tenho acompanhamento de especialista para amenizar o problema", destacou ele, que mora no assentamento "17 de Abril", onde aconteceu o confronto há 12 anos.
Como José Carlos, outros sobreviventes afirmam que, apesar de a Justiça determinar o pagamento, o ato não vai amenizar o trauma psicológico das vítimas. As viúvas e órfãos foram, de acordo com a Coordenação Estadual do MST, os maiores prejudicados: "Eu vejo tudo isso como uma desumanidade. Não é porque o Estado vai fazer o pagamento dos precatórios que vamos ficar felizes para o resto da vida. Ainda tenho pesadelos até hoje e os meus filhos, infelizmente, compartilham comigo esse sofrimento. O trauma psicológico nunca vai passar", destacou
As vítimas do massacre também alegam que o atendimento médico prestado pela rede pública da saúde na cidade é precário. Júlia Pereira da Silva perdeu o marido, sete meses após o conflito, em conseqüência dos ferimentos. Ela também foi baleada na clavícula durante o confronto entre os sem-terra e a polícia militar. "As duas médicas que atendem no "17 de Abril" tratam mal os pacientes", declarou.
Para Josimar Pereira de Freitas, 45, somente depois de alguns anos após o conflito com os PMs é que se deu conta do viés político que envolveu o episódio. Pai de cinco filhos, ele levou um tiro na perna durante o confronto e teve fratura exposta. "Os atos da governadora tem sido de grande solidariedade, mas não apagam a memória e o sofrimento", comentou.
Manifesto
Cerca de 600 integrantes do vão participar nesta quinta-feira (17), em Belém, de uma marcha pelas ruas da cidade para marcar os 12 anos do massacre de Eldorado do Carajás. A Coordenação Estadual do MST garante que as manifestações serão pacíficas, mas "contundentes".
O grupo, que está acampado numa praça no centro de Belém, seguirá rumo ao Ministério Público Federal para protocolar documento, cobrando uma "ação rigorosa" do MPF em relação às declarações da imprensa, empresários e entidades patronais que acusam o movimento de ser "criminoso".
"A Constituição garante que qualquer movimento faça as suas reivindicações. Apoiamos o Movimento dos Garimpeiros, em Parauapebas (Sudeste do Pará) e é uma inverdade dizer que eles ocuparam a ferrovia da Vale", declarou Ulisses Manaças, coordenador estadual do MST, referindo-se à declaração do presidente da Vale, Roger Agnelli, que condenou o movimento e os seus integrantes, os quais classificou de "criminosos".























