O ectoplasma da inflação
Publicado em 09/04/2008 10:08
A grande discussão dos próximos dias será sobre o suposto risco de inflação - álibi utilizado pelo Banco Central para justificar a provável próxima elevação da taxa Selic. Ontem, no “Valor Econômico”, dois dos melhores economistas brasileiros – Antonio Delfim Netto e Yoshiaki Nakano – fizeram um belo apanhado dos sofismas apresentados. Há diversas maneiras de avaliar o risco de inflação. Uma delas é analisando as próprias expectativas do mercado - isto é, no nível da inflação que o mercado está apostando para 2008 e 2009. Essa aposta se dá na Pesquisa Focus, feita semanalmente pelo Banco Central. De um mês para cá as expectativas do mercado para o IPCA de 2008 subiram de 4,41% para 4,47%; de uma semana para cá, de 4,44% para 4,47% - elevação insignificante. Para a produção industrial a previsão era de 5% há quatro semanas, de 5,14% há uma e de 5,16% agora. Nada que sugira pânico. *** Outra maneira é analisar a inflação futura é desagregar o próprio IPCA, isto é, dividi-lo em categorias de gastos para avaliar se há uma pressão generalizada de preços ou se pressões são localizadas. No caso de pressão generalizada, justificam-se medidas de alcance amplo - como mexer no nível de juros. No caso de pressões localizadas, não. A análise do IPCA mostra que as maiores pressões são de produtos que ou tiveram problemas climáticos, ou foram afetados pelas cotações internacionais. Delfim mostra que, se excluir carnes, leite e feijão (que sofreram problemas localizados) o IPCA ficaria em 3,4% nos últimos 12 meses. Onde o risco de aumento generalizado de preços? *** Se o IPCA não justifica o alarme sobre a inflação, outro indicador é o índice de Preços no Atacado (IPA), que mede os preços cobrados pelos produtores. é um índice meio defeituoso, porque não capta os descontos que são concedidos sobre os preços de tabela. Mesmo assim, conforma demonstra Nakano, as altas do IPA estão concentradas em setores afetados pela inflação mundial -- produtos alimentares de origem vegetal (17,36%), produtos alimentares de origem animal (16,73%), fertilizantes (39,16%), combustíveis e lubrificantes (5,1%), matérias plásticas (5,92%). Setores afetados pela demanda não mostram sinais de aceleração da inflação, como é o caso de material de transporte (2,29%) e máquina e equipamento para indústria (1,5%). A exceção é o setor de materiais de construção, mas a taxa de inflação nos últimos doze meses é de 4,26%. *** Uma outra maneira de prever inflação futura é analisar o Nível de Utilização de Capacidade Instalada (NUCI) da indústria. Quando começa a ficar muito alto, pode significar aquecimento nos preços. No presente, a situação é relativamente tranqüila. O índice da FGV aumentou um pouco, para 85%; o da CNI (Confederação Nacional da Indústria) para baixo, 82,9%. O que é importa é que no ano passado o consumo cresceu 6,5% enquanto os investimentos cresceram 13,4%, e o consumo aparente de máquinas e equipamentos 20%. Ou seja, a capacidade está avançando mais rápido que a demanda. Onde está, então, o crescimento disseminado dos preços? Resposta: na cabeça do Banco Central























