Sistema público de saúde sofre carência de recursos
Publicado em 27/11/2006 16:53
A recente greve realizada pelos médicos do sistema público de saúde em alguns estados da Região Nordeste é só um dos fatores da atual crise do Sistema Único de Saúde (SUS). A retenção de parte das verbas destinadas para o setor está afetando as políticas de saúdes desenvolvidas pelos estados brasileiros.
Neste ano, foram retidos quase R$ 6 bilhões que faziam parte do orçamento do setor, fato que foi duramente criticado pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS).
Em entrevista à Radioagência NP, o presidente da CNS, Francisco Batista Júnior, destaca os principais pontos da e comenta a falta de responsabilidade do Estado que está gerando uma dependência cada vez maior com as instituições privadas.
Radioagência NP: Como isso afeta as políticas de saúde desenvolvidas por cada estado?
Francisco Batista Júnior: Apesar da versão oficial da área econômica do governo, de que não haveria impacto na saúde, o contingenciamento na área [em 2006] repercutiu diretamente na política pública de todo o país, a ponto de nesse momento, as dificuldades que são enfrentadas por todos os estados serem absolutamente visíveis na forma de comprometimento de ações, comprometimento de assistência farmacêutica e também na questão da gestão das relações de trabalho. As ações de saúde não podem ser interrompidas. Elas têm que ter um planejamento porque são ações interligadas, se forem interrompidas de alguma forma, comprometem todo o processo restante. Essa é a maior dificuldade que estamos tendo nesse momento.
Radioagência NP: Os quase R$ 6 bilhões que foram retidos neste ano pelo governo poderiam ter amenizado a crise no setor de saúde nordestino?
FBJ: Nós temos um entendimento que as crises deflagradas, especificamente na região Nordeste, têm um componente mais estrutural e mais perverso. No nosso entendimento não serão R$ 6 bilhões ou mesmo R$ 10 bilhões que vão resolver. Nós temos hoje uma demanda por hemodiálise, por medicamentos de alto custo, por procedimentos complexos que é conseqüência da falta de prevenção, da falta de uma ação intersetorial que vem se agravando dia-a-dia e que no nosso entendimento é praticamente impossível de ser financiada em sua plenitude.
Radioagência NP: Se isso não pode ser financiado, como se trabalha com tal situação?
FBJ: Essa dependência é concentrada no setor privado. O Sistema Único de Saúde no nosso país é absolutamente refém deste modelo de atenção, da alta complexidade e do medicamento de alto custo e, mais ainda, refém do setor privado que realiza esses procedimentos por meio de contratos e convênios. A tendência é que esse financiamento [privado] seja cada vez mais insuficiente. Não temos a prevenção para tentar diminuir essa demanda que surge e aumenta no dia-a-dia, e não temos uma rede estatal estruturada para dar conta de uma demanda que a cada dia fica mais dependente do setor privado.
Radioagência NP: O que você quer dizer quando afirma que a dificuldade na gestão dos trabalhadores e das relações de trabalho também é um fator agravante?
FBJ: Nós temos realmente no setor público uma situação de remuneração que é praticamente impraticável. Aqueles que são especialistas e que têm uma situação privilegiada, buscam no mercado privado a válvula de escape para uma remuneração diferenciada, aqueles que não são especialistas buscam nos variados vínculos empregatícios, uma forma de suprir as dificuldades de remuneração. Então esse tipo de relação de trabalho tem inviabilizado o sistema público.
De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.























