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Mercosul deve reivindicar um "papel mais significativo", diz Wallerstein

Publicado em 27/11/2006 16:53

Agência Senado

Agência Senado

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[Foto: sociólogo americano Immanuel Wallerstein]

Ao mesmo tempo em que o Parlamento do Mercosul realizava sua quinta sessão, em Montevidéu, o sociólogo americano Immanuel Wallerstein apresentava uma conferência em Porto Alegre, a 890 quilômetros da capital uruguaia, com o tema Impasse e mudança no século XXI. Para Wallerstein, pesquisador sênior da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, o Mercosul deveria reivindicar um "papel mais significativo" em um novo mundo multipolar, no futuro próximo.

Em entrevista à Agência Senado, na capital do Rio Grande do Sul, o sociólogo - que criou a teoria do Sistema Mundo - fala sobre seu novo livro, O Universalismo Europeu, e sobre o que ele chama de "impasse semipermanente" entre o Norte e o Sul.

O Parlamento do Mercosul acaba de realizar sua quinta sessão, em Montevidéu, na tentativa de aprofundar a política regional de integração. Como o senhor vê o potencial do Mercosul?

Eu acho que o Mercosul é uma instituição muito importante e tem a perspectiva de ser muito mais importante. Em um mundo que tende a tornar-se multipolar, o Mercosul pode converter-se em um dos pólos do sistema.

O Mercosul tenta aprofundar um tipo de cooperação Sul-Sul. Como o senhor avalia o estado das relações Norte-Sul ao longo dos últimos anos?

Vamos observar algo muito simples em que o próprio Brasil está bastante envolvido, que são as relações Norte-Sul no quadro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em Cancun, em 2003, houve uma reunião muito importante da OMC na qual o Brasil liderou um grupo chamado G-20, que envolvia Índia, África do Sul e China e que negociava basicamente com os Estados Unidos e com a Europa. Eu interpreto o que aconteceu da seguinte maneira: o G-20, liderado pelo Brasil, basicamente disse: 'olha, o comércio livre pode ser uma boa idéia, mas uma idéia de mão dupla: se nós abrirmos nossas fronteiras das maneiras x, y ou z, vocês devem abrir suas fronteiras das maneiras x, y ou z para nós'. Os Estados Unidos e a Europa disseram que não podiam fazer isso. Eles queriam que os países do G-20 abrissem suas fronteiras, mas disseram que não poderiam abrir suas fronteiras. E por uma razão simples: politicamente, internamente, isso era impossível. Nenhum dos seus governos iria sobreviver. Então eles disseram 'desculpe, nós não podemos fazer isso' e, por isso, o Brasil disse 'desculpe, nós não podemos fazer isso também'. Então aconteceu um impasse, que eu acredito ser semipermanente.

O Brasil tem sido acusado de ter interrompido a Rodada de Doha. O que o senhor acha disso? 

Eu acho que a Rodada de Doha não está indo a lugar nenhum. A OMC é agora uma estrutura inexpressiva. Ela não vai fazer nada importante. Nós temos, basicamente, um beco sem saída nas relações entre o Norte e o Sul. Ambos estão parados em seus territórios, que são relativamente protecionistas. Mas o protecionismo será um grande tema nos próximos dez ou vinte anos.

Em seu último livro, O Universalismo Europeu, o senhor propõe a criação de um universalismo verdadeiramente universal. Poderia definir isso?

O universalismo europeu pretende ser universalista. Mas eu demonstro no livro que ele realmente não é. É uma maneira de justificar a intervenção em favor dos grupos de países mais fortes contra os mais fracos. Ele não é verdadeiramente universalista. Existem múltiplos universalismos e nós temos que tentar colocá-los para conversar uns com os outros na medida que pudermos e, dentro desse diálogo, começar a criar as bases do universalismo universal, que não será uniforme, mas flexível.

Nós poderíamos continuar falando sobre centro e periferia, ou existem muitos centros, hoje, no mundo multipolar? 

Existem muitos centros e muitas periferias. Agora, com a divisão básica centro-periferia, existe uma divisão Norte-Sul, que vive essa espécie de beco sem saída. O Sul tornou-se forte o suficiente para dizer não para o Norte, mas não forte o suficiente para fazer o Norte mudar sua ação. Então, nós estamos vivendo em um período muito incerto e muito flutuante.

No Brasil, alguns usam os exemplos da Coréia e da China para dizer que estes países, que estavam na periferia antes, estão se tornando mais ricos e fortes. Como isso se encaixa na análise do Sistema Mundo?

Dentro da estrutura da economia mundial capitalista, é claro que países podem tornar-se mais ricos. Isto tem acontecido o tempo todo nos últimos quatrocentos ou quinhentos anos. Mas isso acontece quando outros países se tornam mais pobres. É muito importante que o povo brasileiro lembre que, em 1945, a Argentina possuía a décima economia no ranking mundial. E a Argentina era mais forte que a Itália e um doador para esse país, no período pós-Segunda Guerra Mundial. Agora a Argentina tem caído e a Coréia, crescido. Um dos argumentos básicos da análise do Sistema Mundo é que os países não estão fixos em suas posições, mas a distribuição de quantos são fortes e quantos são fracos é fixa. Então, quando alguém é promovido, outro é rebaixado. A idéia de a Coréia ter-se tornado mais forte economicamente é absolutamente verdadeira, mas você tem que perguntar quem ficou mais fraco.

O presidente francês Sarkozy sugeriu que o G-8 se reunisse mais freqüentemente com países como o Brasil, a África do Sul e a Índia. Ele sugeriu também que o Brasil fosse aceito no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há alguma chance para as duas situações?

Essas questões são separadas. Que o G-8 se transforme em G-13 ou G-15 é possível, pois é uma tentativa para atrair politicamente o Brasil, a Índia e alguns outros países e uni-los mais com o Norte do que com o Sul. Eu não acredito que seja possível que o Brasil ou outro país se torne um membro permanente do Conselho de Segurança, por uma razão muito simples: existem cinco membros permanentes que têm poder de veto, e qualquer um deles pode vetar qualquer novo membro. Os Estados Unidos não querem certos países, a China não quer certos países e assim sucessivamente.

Então, na sua opinião, não haverá reforma?

Na minha opinião, não haverá reforma. São necessárias algumas discussões sobre um terceiro tipo de país, além dos membros permanentes e membros rotativos. Pode existir um grupo médio de países que se revezem sem poder de veto. Isso pode acontecer. Mas eu acho que é um problema muito secundário e simbólico. O Brasil, o Japão e a Alemanha desejam estar no Conselho de Segurança porque é um tipo de reconhecimento de sua importância por razões simbólicas. Mas o Conselho de Segurança não é tão importante. Não importa tanto para o mundo real. Se eu fosse o Brasil, eu iria me concentrar em outras coisas.

Como o senhor avalia as perspectivas do Mercosul e dos países sul-americanos?

Eles já estão mais fortes do que eram há dez anos. Nós estamos entrando em um período que será mais multipolar e eles irão reivindicar um papel mais significativo. Mas nós estamos em um período de transição em todo o sistema mundial.

Em direção a quê?

Ah, desconhecido. Incerto, imprevisível, mas diferente.

Marcos Magalhães / Agência Senado

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