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Iraque: mercenários continuam na mira

Publicado em 27/11/2006 16:53

Agência Carta Maior

Novo relatório oficial do governo iraquiano acusa os mercenários da milícia privada norte-americana Blackwater de assassinato deliberado no incidente que provocou a morte de 17 pessoas no dia 16 de setembro. Relatório traz novas tensões para o governo norte-americano, inclusive dentro dos EUA.

O caso dos mercenários de empresas privadas que agem no Iraque, inclusive e sobretudo em missões oficiais, continua repercutindo na imprensa européia e nos Estados Unidos. Pelo menos três jornais – o The Guardian, de Londres, o Libération e o Le Monde, de Paris, registraram reações imediatas à divulgação de relatório oficial do governo iraquiano sobre o incidente de 16 de setembro pp., quando forças da empresa privada Blackwater, com sede na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mataram 17 pessoas perto de Bagdá, a capital do Iraque.

Em depoimento junto ao Congresso norte-americano o presidente e fundador da empresa, o ultra-conservador Erik Prince, voltou a insistir na tese de que os mercenários (chamados na imprensa de “The war whores”, em livre tradução, “Os prostitutos da guerra”, o que parodia a expressão ~The war heroes”, “Os heróis da guerra”) reagiram a um ataque de armas de fogo contra um comboio que gaurdavam.

Entretanto o relatório, feito sob as ordens do primeiro ministro Nouri al-Maliki e divulgado pelo porta-voz Ali Dahbagh nesta segunda-feira 8 de outubro, afirma que não há qualquer prova de que o comboio guardado pelos mercenários tenha sido atacado – “nem mesmo com pedras”. Ao contrário, o relatório acusa os mercenários de “assassinato deliberado”, além de precisar que o número de mortos foi de 17, ao invés de 11 ou 14, como se chegou a divulgar inicialmente, e o de feridos 22.

O relatório e o primeiro ministro, através do porta-voz, disseram que os acusados devem ser processados de acordo com a lei iraquiana. Isso pode criar uma nova tensão no já destroçado Iraque, pois até o momento era tácito que as ações desses grupos mercenários deveriam ficar sob a mira da justiça dos países de origem dessas empresas. Na prática nada acontecia, não só porque as autoridades desses países faziam vista grossa sobre os incidentes que as envolviam, mas também porque muitos dos mercenários vinham de outros países, sentindo-se viver numa cultura de absoluta impunidade.

A contratação de empresas desse tipo para executar missões oficiais tornou-se corriqueira no Iraque. Analistas na imprensa e fora dela já afirmaram que para as forças invasoras do Iraque o trabalho dessas companhias tornou-se indispensável. Prova disso é que mesmo a embaixada norte-americana recorre a elas, inclusive a Blackwater, para sua proteção e de seu pessoal. Ou seja, a Blackwater age no Iraque sob a autoridade, mas com mandato, do próprio governo dos Estados Unidos, através do Departamento de Estado. Além da Blackwater, outras 179 empresas desse tipo atuam no Iraque. Não existem cifras oficiais divulgadas sobre o efertivo, calculado entre 25 mil e 50 mil homens. Só da Blackwater, avaliada como entre as “melhores” nesse universo, há mil homens no Iraque.

O incidente é considerado tão grave – apesar de num primeiro momento se duvidar que ele pudesse ter conseqüências práticas – que uma comissão do FBI e um enviado especial da Secretária de Estado Condoleeza Rice, Patrick Kennedy, estão em Bagdá para avaliar a situação e reavaliar o papel e as atividades dessas empresas, em especial a Blackwater.

Essa empresa, fundada em 1997, diz em sua página na internete (www.blackwaterusa.com/) que sua “visão” é a de “apoiar a segurança, a paz, a liberdade e a democracia em todo e qualquer lugar”. Na prática a prática é bem outra... Desde 2005, depois de sua chegada ao Iraque, os mercenários já se envolveram em 195 incidentes. Segundo um relatório do Congresso dos EUA, em 85% desses incidentes pelo menos supostamente sob investigação, os mercenários atiraram primeiro, o que pelo menos confirma a existência de um estilo parecido com o dos faroestes de Hollywood, só que nestes ninguém morria de verdade.

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