Maioridade penal - Senado cria comissão para discutir tema antes de votar mudança
Publicado em 27/11/2006 16:53
Parlamentares terão 45 dias para ouvir especialistas em segurança pública e direitos das crianças e adolescentes. Objetivo é apresentar pacote que inclua mudanças no sistema prisional, na área da Justiça e na unificação das polícias.
Jonas Valente – Carta Maior*
BRASÍLIA
– A morte brutal do menino João Hélio Fernandes – e a atuação dos
grandes meios de comunicação – desencadeou, nas últimas semanas, uma
campanha adotada por parte dos parlamentares pela redução da idade
mínima para condenação por crime dos atuais 18 para 16 anos. Parte do
“resultado” desta campanha estava marcada para esta quarta-feira (28),
quando a Comissão de Constituição e Justiça do Senado votaria uma
Proposta de Emenda Constitucional que deixaria o caminho aberto para
esta mudança. Um acordo de lideranças partidárias, no entanto, freou a
votação e instituiu um grupo de trabalho que, em 45 dias, deve
apresentar um pacote de medidas de combate à violência, onde estariam
incluídos projetos relacionados à população infanto-juvenil. Entre os
elementos da reforma sugerida estão também o aumento dos recursos para
o sistema de justiça e segurança pública, a unificação das polícias e
alterações no sistema prisional.
Para as organizações de defesa
dos direitos humanos, a criação do grupo de trabalho – que será formado
por seis senadores, ainda a serem definidos pelas lideranças dos
partidos – respondeu às reivindicações de dezenas de entidades feitas
nas últimas semanas, desde que o tema da redução da maioridade penal
ganhou a mídia. Nesta terça-feira (27), por exemplo, as entidades se
reuniram separadamente com cada um dos membros da CCJ. Agora, durante
os trabalhos da comissão recém-formada, especialistas e representantes
da sociedade civil terão a oportunidade de serem ouvidos. O diálogo com
os senadores que farão parte do GT começará assim que os nomes da
comissão forem escolhidos.
“Criou-se uma possibilidade
importante para convencer os senadores de que a redução da maioridade
penal só fará aumentar a criminalidade e terá um efeito contrário ao
desejado pela sociedade; será uma chance para mostrar que alterações no
ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] feitas de maneira
assoberbada, como se fosse uma legislação do pânico, não vai resolver o
problema”, explica Ariel de Castro Alves, coordenador do Movimento
Nacional de Direitos Humanos e membro do Conselho Nacional da Criança e
do Adolescente (Conanda).
Na avaliação do senador Aloísio
Mercadante (PT-SP), a decisão da comissão refletiu o entendimento de
que é preciso tratar do problema da criminalidade cometida por e contra
jovens de forma mais aprofundada. Em seu voto em separado, Mercadante
apresentou as argumentações contrárias à redução da maioridade penal
defendidas pelas entidades. Segundo o senador, é preciso “uma profunda
reforma no sistema de segurança e não reduzir problema à questão da
maioridade”. “Reduzir não resolve por que presídios não são lugar para
juventude, pois viraram universidade do crime”, defendeu.
Para
Perla Ribeiro, do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, a
realidade da experiência do encarceramento crescente da população
adulta envolvida em atos criminosos é um dos fortes argumentos de que o
envio de adolescentes a partir dos 16 anos para estes espaços não
resolverá o problema. “Reduzir a maioridade é suicídio, é jogar os
adolescentes para outro sistema cada vez mais marcado pela violação de
direitos”, completou Maria Luiza Mendonça, representante do Conselho
Federal de Psicologia no Conanda.
A alternativa apresentada
pelo senador e endossada nos documentos das organizações entregues aos
senadores na reunião é fortalecer o outro lado, o das medidas
socioeducativas. “Por que ao invés de reduzir a maioridade penal não se
cumpre o Estatuto da Criança e do Adolescente?”, questionou Marcelo
Gavião, da União da Juventude Socialista (UJS).
Criado em
1990, o ECA é uma das mais avançadas legislações para este segmento da
população em todo o mundo, mas sua aplicação prática vem deixando muito
a desejar. A avaliação do Conanda é a de que há problemas graves nas
unidades de internação de crianças e adolescentes em conflito com a
lei, marcadas pela violação dos direitos dos jovens e desprovidas de
espaços educacionais de qualidade e de condições para que os
adolescentes voltem à sociedade com mais oportunidades. O
acompanhamento de medidas de semi-liberdade e liberdade assistida
também carece de recursos por parte dos governos.
Para dar
conta destas questões, o governo federal lançou em 2006 o Sistema
Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), uma tentativa de
mudança do “modelo Febem” por alternativas que priorizam o meio aberto
e valorizam os jovens em conflito com a lei como sujeitos de direitos,
e não como um contingente a ser controlado e isolado do restante da
população. É esta concepção que as entidades do Conanda levarão aos
parlamentares durante os trabalhos do grupo criado pela CCJ, sobretudo
porque os primeiros meses de existência do Sinase foram marcados por
críticas por conta da falta de recursos (leia matéria “Conanda cobra recursos para implementação do Sinase”)
e quando o Conselho apresentou proposta de emenda pedindo mais R$ 107
milhões no processo de discussão do orçamento de 2007 não foi aprovado
sequer um centavo para a estruturação das medidas socioeducativas.
Embate midiático
O
trabalho da nova comissão será difícil. O nascimento da instância já se
deu sob críticas pesadas dos senadores Antônio Carlos Magalhães (PFL-B)
e Demóstenes Torres (PFL-GO), respectivamente o presidente da CCJ e o
relator da PEC que propõe a redução da maioridade penal. Ambos
manifestaram posição clara a favor da alteração da legislação,
argumentando ser esta a resposta que o Congresso tem de dar à
sociedade, em uma referência clara ao assassinato do menino João Hélio.
Do outro lado, o senador Mercadante pode inclusive deixar de
apresentar a proposta que previa um aumento do tempo de internação dos
adolescentes que entrassem em conflito com a lei. Para Mercadante, a
discussão a ser feita na comissão deve inverter a lógica da compreensão
do jovem como principal agente da violência. “Estão sendo assassinados
no Brasil hoje 16 crianças e jovens por dia. Nós queremos medidas que
possam impedir esta violência na qual o jovem é, sobretudo, vítima e
não autor, ainda que alguns sejam partícipes desta onda e que estes
devem pagar no rigor da Lei”, defendeu.
Maria Luiza Mendonça,
do CFP, é enfática a respeito. “O caso do João Hélio é algo muito
triste, mas existem muitos outros Joãos que são enterrados em caixa de
papelão e não recebem um milésimo da atenção deste caso”, diz.
A
extensão do debate por mais 45 dias pode ser fundamental para que este
outro entendimento do problema ganhe mais visibilidade. Na opinião da
presidente do Conanda e sub-secretária dos direitos da infância e
adolescência da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Carmen de
Oliveira, tem havido uma cobertura desequilibrada do tema por parte da
imprensa, com teor majoritariamente favorável à redução da maioridade
penal. Em defesa da PEC, o senador Demóstenes Torres deixou
transparecer essa pressão ao citar uma cobrança que teria sido feita
pelo jornalista Alexandre Garcia, da Rede Globo, contra qualquer
adiamento da votação da proposta.
O bombardeio não se
restringiu aos comentários jornalísticos. Nesta terça, os pais do
menino João Hélio apareceram ao final do capítulo na novela “Páginas da
Vida” pedindo “justiça”, em uma clara remissão à votação que poderia
ter acontecido nesta quarta.
“É maléfico o conjunto de
informações distorcidas que a imprensa vem divulgando a respeito do
tema”, acredita Perla Ribeiro. Uma pesquisa do Conanda, por exemplo,
desconstrói o mito de que o jovem é o principal responsável pela
violência ao revelar que apenas 0,2% dos adolescentes estão envolvidos
em atos infracionais. “Outra desinformação é o argumento de que o jovem
não paga pelo seu crime, quando na verdade ele pode pegar de três até
nove anos de condenação, sendo o primeiro triênio em regime fechado, o
segundo em semi-liberdade e o terceiro em liberdade assistida”,
esclarece.
Se o Senado aprovar a redução da maioridade penal
mesmo após os debates do grupo de trabalho criado pela CCJ, as
organizações da sociedade civil estudam recorrer ao Supremo Tribunal
Federal e a órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos da
ONU e da OEA (Organização dos Estados Americanos).
* colaborou Bia Barbosa.























