Preocupação política, e não álcool, traz Bush ao Brasil, diz Stiglitz
Publicado em 27/11/2006 16:53
ROBERTO DIAS
Editor-assistente de Brasil da Folha de S.Paulo
O
que traz George W. Bush à América Latina é a preocupação política com a
região, e não o álcool, na opinião do economista americano Joseph
Stiglitz.
Para ele, o presidente americano pode ter percebido,
com os resultados eleitorais na Venezuela e no Equador, que sua
abordagem "tem sido rejeitada". Por isso, seu colega Luiz Inácio Lula
da Silva deve ser tomado como exemplo de "centro" do espectro político
da região, no qual convém aos Estados Unidos concentrar esforços.
A
discussão comercial sobre o álcool entraria de carona, segundo o
cenário traçado por Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001. Por
mais que a pressão de ambientalistas para reduzir a dependência
americana de petróleo seja sentida pela Casa Branca, pouco resultado
deverá ser produzido na prática, por conta dos obstáculos políticos
internos.
Ele afirma que os EUA continuarão a jogar pesado
contra blocos comerciais como o Mercosul, negociando acordos bilaterais
na região. "Quando os países tiverem feito um cálculo mais preciso dos
benefícios que tiveram com os acordos, será fácil para o Brasil
contrabalançar", afirmou Stiglitz, 64, em entrevista por telefone na
sexta-feira dia 2.
FOLHA - Por que o presidente Bush de repente "descobriu"
a América Latina e a questão do álcool? O que ele de fato quer?
JOSEPH STIGLITZ
- Não me surpreenderia se ele tiver percebido que está perdendo a
batalha para conquistar corações e mentes em todo o planeta. Isso é
mais visível nos resultados eleitorais na América Latina.
Ele
apoiou a tentativa de derrubada de [Hugo] Chávez. E a grande vitória
eleitoral de Chávez e o resultado eleitoral no Equador claramente
sugerem que o tipo de política que ele tem empreendido tem sido
rejeitada.
FOLHA - E a questão energética? O presidente Bush
e sua família têm fortes ligações com o petróleo. Por que seria ele o
presidente a tentar reduzir a dependência americana de petróleo?
STIGLITZ
- Dentro nos EUA, existem três coisas acontecendo na questão da
energia. Primeiro, Bush finalmente se convenceu dos riscos da
dependência energética. Ele foi forçado, enfim, a reconhecer a
existência do aquecimento global, e algo precisa ser feito, porque há
gente demais preocupada com isso.
A combinação dessas duas
coisas o levou a perceber que suas políticas passadas falharam.
Entretanto, se você olhar suas políticas, elas refletem totalmente sua
falta de compreensão do mecanismo econômico básico por conta de sua
manipulação por grupos de interesse.
Então, por exemplo, ele
finalmente começou a falar sobre biocombustível. Ele continua a ter uma
taxa de US$ 0,50 sobre o álcool brasileiro. E, se você quer menos
dependência energética em relação ao Oriente Médio, que é o que ele
anunciou, ele poderia mudar isso muito rapidamente eliminando a tarifa
sobre o álcool brasileiro.
Em vez disso, ele mantém a tarifa e
continua a subsidiar o álcool americano, feito de milho, que é muito
ineficiente. No Discurso sobre o Estado da União, ele falou em apoiar
usinas de energia de carvão, mostrando que ele não entende a questão do
aquecimento global.
FOLHA - O senador Richard Lugar acaba de
apresentar uma proposta para reduzir as tarifas sobre o álcool
brasileiro nos próximos três anos. Quais as chances de isso ir adiante,
considerando o Congresso dominado pelos democratas e a impopularidade
de Bush neste momento?
STIGLITZ - É muito difícil dizer,
porque há duas forças conflitantes. Uma é o grupo ambientalista, cada
vez maior, que está muito preocupado em reduzir nossa dependência de
combustíveis fósseis. Combinado a isso, há pessoas que acham que
devemos ser coerentes em nossa retórica de mercados livres e justos.
Por
outro lado, existe um sentimento protecionista que continua na base
agrícola, para ajudar os produtores de milho. Mais do que os produtores
de milho, a atuação real nisso é feita por meio de agribusiness como a
ADM, Archer Daniels Midland, que é a maior produtora de álcool e que
sabe que não pode competir com o álcool brasileiro. É uma grande
doadora para os dois partidos.
Assim, não sei a resposta para
sua pergunta. Espero que os que acreditam em princípios e os que estão
preocupados com o meio ambiente consigam superar os doadores de
campanha, mas não tenho certeza disso.
FOLHA - Como os democratas vêem essa questão?
STIGLITZ
- O problema é que as doações de campanha vão para os dois partidos. Os
democratas são mais sensíveis à questão do meio ambiente, mas o
financiamento de campanha infelizmente corrompeu algumas pessoas nos
dois partidos.
FOLHA - Essa viagem de Bush e a agenda a
seguir, com o presidente Lula indo aos EUA, significam alguma mudança
real na política americana em relação à América Latina?
STIGLITZ
- Acho que a mudança na política da América Latina cada vez mais
significa que Lula aparenta ser um moderado, em comparação ao que está
em volta. Então, o presidente Lula é a pessoa a quem vão dedicar mais
atenção política, que é visto muito mais como estando no centro [do
espectro político] da América Latina.
FOLHA - Que perigos essa negociação no álcool reserva
para o Brasil?
STIGLITZ
- Não é um perigo. O ponto não está aí, e sim nas oportunidades que
seriam ganhas se nós [americanos] abríssemos o mercado. Agora, é claro
que há preocupações entre os ambientalistas de que a demanda por álcool
vai fazer aumentar a demanda por terra, algo sensível aos
ambientalistas. Como em tudo, quando você resolve um problema, pode
criar um novo leque de problemas.
FOLHA - O que vai prevalecer? A questão do aquecimento
global ou a do desmatamento?
STIGLITZ
- O Brasil tem um tesouro de biodiversidade na Amazônia, e há
evidências de que a Amazônia está particularmente destinada a árvores,
e quando você a utiliza para agricultura, mantém a produtividade por um
período muito curto. A esperança é que sejam desenvolvidas outras áreas
do Brasil que não representem tanto problema ambiental.
FOLHA
- Nos EUA, os produtores de álcool estarão sempre contrários à
negociação com o Brasil ou poderiam tentar pegar uma carona na
discussão de mudar a dependência do petróleo?
STIGLITZ -
Infelizmente, nos interesses sectários, como os dos produtores de
álcool, não me lembro de nenhuma instância significativa em que eles
tenham colocado o interesse geral acima dos interesses deles. São
extraordinariamente paroquiais perseguindo seus próprios lucros ao
custo do ganho nacional, e, nesse caso, global.
FOLHA - Como
o presidente Bush não é candidato à reeleição, ele não poderia ser mais
sensível a negociar com o Brasil esse e outros pontos de protecionismo
agrícola?
STIGLITZ - Poderia ser, em princípio. Mas
entenda que sua mente diz: "Estou tão embutido na indústria do
petróleo, e na mentalidade que a cerca". E também seus assessores e seu
grupo de trabalho de energia. Assim, não é provável que isso aconteça.
FOLHA
- Em 2003, o sr. colocou em zero a probabilidade de haver um acordo
sobre a Alca até 2005. Qual a situação agora? "Abaixo de zero"?
STIGLITZ
- Ainda no zero. O fato é que os EUA não querem negociar os pontos
centrais. Prefere permitir o colapso de todas as negociações globais de
comércio em vez de fazer as concessões que precisaria fazer na
agricultura. Por que esperar que fariam as concessões apenas para a
América Latina se não vão fazer para o mundo todo?
FOLHA -
Qual o papel de Chávez nessa nova abordagem da política externa
americana em relação à América Latina? Como isso afeta a relação com o
Brasil?
STIGLITZ - Ele [Bush] gosta do fato de que Lula
está no "centro" [político] da América Latina e, assim, para entender a
América Latina, ele tem que entender o centro.
FOLHA - O sr. acredita que esta viagem tem sobretudo uma
motivação política ou uma motivação econômica?
STIGLITZ
- Provavelmente uma motivação política. A força exportadora brasileira
continua em grande parte na agricultura. Seria muito surpreendente se
houvesse uma grande mudança em qualquer uma das questões agrícolas
sensíveis importantes.
FOLHA - O Brasil assinou contratos que
beneficiam o Uruguai de maneira a conseguir que o país prossiga no
Mercosul em vez de assinar acordos bilaterais...
STIGLITZ
- Esse é um ponto importante. Uma das estratégias do presidente Bush
nos últimos seis anos tem sido dividir a América Latina, destruir
acordos regionais, como nos Andes, ao tentar tirar a Colômbia e o Peru
da Comunidade Andina. É uma tentativa deliberada de destruir cooperação
regional, como é o Mercosul. Então, a preocupação é que essa estratégia
de acordos bilaterais seja usada para destruir o Mercosul.
FOLHA - O sr. acredita que ele vai continuar a usar essa
estratégia?
STIGLITZ
- Ele tentará. E acordos regionais são muito importantes para a América
Latina. E nos acordos bilaterais, em quase todos os casos, o outro país
saiu em desvantagem. Não em todos os casos, em quase todos.
FOLHA - O sr. poderia poderia elaborar um pouco melhor?
STIGLITZ -
Por exemplo: existe um acordo de propriedade intelectual muito poderoso
nesses acordos bilaterais que dificulta o acesso a remédios que salvam
vidas. Então as pessoas sofrem, existem muito poucas aberturas
comerciais --uma ou outra indústria se beneficia.
Enquanto isso,
num dos acordos oferecidos a um dos países latino-americanos, eles eram
quase obrigados a comprar arroz americano. Então isso não é um acordo
de livre comércio, é um acordo de comércio direcionado --direcionado
contra os interesses dos países latino-americanos.
FOLHA - Mas o Brasil tem poder para contrabalançar isso
ou é um jogo perdido?
STIGLITZ
- Quando os países tiverem feito um cálculo mais preciso dos benefícios
que tiveram com os acordos, verão que são pequenos. E será fácil para o
Brasil contrabalançar esses pequenos benefícios.
FOLHA - Como o Brasil deveria proceder?
STIGLITZ -
O Brasil é o maior mercado da América Latina, pode fortalecer laços
comerciais e abrir mais seus mercados, mais do que a pouca abertura
oferecida pelos acordos bilaterais americanos de comércio, sem os
requerimentos desvantajosos que os americanos sempre exigem.
FOLHA - Mas a que custo?
STIGLITZ - Não acho que seja um alto custo porque
acredito que expandir o comércio dessa maneira é mutuamente benéfico.
FOLHA
- Os trabalhadores na indústria canavieira aqui no Brasil representam
um dos mais famosos casos de má condição de trabalho. Qual o
conhecimento que se tem disso nos EUA? Qual a situação aí?
STIGLITZ
- Há muito pouco conhecimento disso nos EUA, basicamente zero.
Corresponde ao baixo conhecimento que se tem da indústria de cana nos
EUA. O que chama muito atenção nos EUA é o impacto ambiental negativo
da indústria canavieira na Flórida. Tem se dado muito atenção ao alto
grau de protecionismo à cana nos EUA. Esses são os dois tópicos que
chamam a atenção da opinião popular.
FOLHA - Falando sobre a
opinião pública, o sr. acredita que a questão do álcool poderia ser
utilizada pelo presidente Bush na eleição? Ele poderia dizer que está
tentando melhorar o preço do combustível?
STIGLITZ -
Poderia, mas não deverá fazê-lo. Porque acredito que ele estará
preocupado com os doadores da campanha do Partido Republicano.
FOLHA
- O sr. enxerga alguma correlação entre essa viagem de Bush e a
política interna dos EUA? A diplomacia brasileira já falou que gostaria
de trabalhar ao lado dos EUA na questão cubana do pós-Fidel. O
presidente Bush poderia discutir Cuba com Lula?
STIGLITZ
- Existe essa possibilidade. Claramente, pode-se dizer que deverá ser
discutida a mudança no cenário político da América Latina.
FOLHA
- Bush e Lula dificilmente poderiam ter origens ideológicas mais
diferentes. Como podem ter chegado a uma relação tão boa como dizem ter?
STIGLITZ
- Bush não mostrou capacidade de entender os americanos de origem e
perspectivas diferentes [da dele], e não acho que vá ser muito bom em
entender as pessoas nessas condições em outros países.
Seu
conhecimento dos países em desenvolvimento é muito limitado. O
propósito dessa viagem não tem a ver com isso. O fato é que ele está
representando os EUA, e tem assim uma agenda política e econômica a
implementar. Mas não espere um entendimento profundo.
FOLHA - O sr. acredita que o relacionamento deles não
seja tão bom assim?
STIGLITZ
- É parte da política dizer que você tem um relacionamento bom e
profundo com todas as pessoas. Ele disse que olhou nos olhos do
presidente [russo Vladimir] Putin e entendeu que poderia negociar com
ele. Foi uma afirmação que eu acredito que agora ele lamente ter feito.
Mas é o tipo de afirmação política pela qual ele é particularmente
famoso.
FOLHA - Bush disse ao novo embaixador do Brasil em
Washington, Antonio Patriota, que o momento da Rodada Doha é agora. É
possível acreditar que essa história vá andar agora?
STIGLITZ
- O que ele quer dizer é: é a hora de andar nas nossas condições. Não
nos termos que buscam entender a hipocrisia, a desigualdade, as
preocupações de desenvolvimento que motivaram a Rodada. Não vejo
nenhuma evidência de que ele entenda essas grandes injustiças que vêm
desde o passado e os desequilíbrios nas negociações comerciais. Não
vejo espaço para que ele faça as verdadeiras concessões que seriam
necessárias para uma verdadeira rodada de desenvolvimento.























