Políticas para Mulheres - Contingenciamento atinge programas
Publicado em 27/11/2006 16:53
Orçamento de 2007 destina R$ 42 milhões para Secretaria da Mulher
Os gastos públicos federais para financiar políticas públicas
específicas voltadas para as mulheres não escaparam dos
contingenciamentos realizados pelo Poder Executivo no ano passado. A
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SEPM), vinculada à
Presidência da República, com orçamento com programas previsto para
2006 de R$ 27 milhões – R$ 12,8 milhões acrescidos de emendas
parlamentares –, só pôde realizar despesas de R$ 19 milhões.
A deputada Professora Raquel Teixeira (PSDB-GO) afirmou que, a despeito
do esforço do Congresso em sentido contrário, a secretaria tornou-se
“peça decorativa”, em razão dos cortes que vem sofrendo em seu
orçamento. “Temos leis que combatem a discriminação e a violência
contra a mulher, mas a sua implementação é inviabilizada pela total
omissão do estado”, lamentou. “Eu tenho um pensamento crítico em
relação a cortes na secretaria”, concordou a deputada Maria do Rosário
(PT-RS). A petista, no entanto, lembrou que a atuação do governo em
defesa da mulher se estende para outros ministérios, por meio de
programas como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica (Fundeb), o Bolsa-Família e programas na área da saúde.
A socióloga Guacira César de Oliveira, diretora e uma das fundadoras do
Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), lembra que o
carrro-chefe da secretaria, o programa Prevenção e Combate à Violência
contra a mulher, que desde o ano passado ganhou visibilidade com a
aprovação da Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha) só pôde gastar, no ano
passado, R$ 7,7 milhões dos R$ 13 milhões previstos no orçamento. “Os
contingenciamentos recaem de uma maneira muito pesada sobre os
programas de direitos da mulher”, disse.
Culpa dos prefeitos
Correia admite que o corte do ano passado foi uma decisão política do
governo. Ele, porém, aponta motivos que, em parte, nortearam o
contingenciamento. “Os municípios sempre estão com problemas no Siafi.
Eu não posso liberar recursos para projetos de prefeitos que estão
inscritos como devedores no Cadin”, justificou.
Rufino Correia disse que o sucesso de políticas para a mulher. “Não
depende só do governo federal, elas tem que ser implementadas,
sobretudo, nos municípios”, afirmou. Para ele, a criação da secretaria
foi importante, porque “deu mais ênfase” às questões femininas.
“O discurso não se configura na prática, na condução da política
pública. Por isso é tão importante os movimentos sociais acompanharem a
execução do orçamento”, rebate Eliana Magalhães, assessora de política
fiscal e orçamentária do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e
atual secretária executiva do Brasil do Orçamento (FBO). O FBO reúne 53
entidades da sociedade civil que acompanham o orçamento federal.
Aumentos e cortes
Criada no início de 2003, a Secretaria recebeu para este ano R$ 29
milhões, só em emendas do Congresso Nacional. Com isso, seu orçamento
com políticas para a mulher em 2007 atingiu R$ 42 milhões. O
contingenciamento de R$ 16,4 bilhões do orçamento da União – R$ 347,3
milhões apenas em dotações previstas para Presidência –, anunciado no
mês passado, pode mudar esses números para menor. “Eu não sei nesse
momento quanto será contingenciado na secretaria”, disse Correia.
“Mesmo com um contingenciamento de 25% esse será o melhor orçamento da
história da secretaria”, comemorou.
O diretor de programas considera, porém, que o contingenciamento de R$
347,3 milhões do orçamento da Presidência, que será rateado entre seus
órgãos internos, não vai atingir a secretaria. “Nosso orçamento é muito
pequeno. Mesmo que haja algum corte, a dotação será recomposta ao longo
do ano”, previu.
O programa Prevenção e Combate à Violência contra Mulheres, consiste,
segundo Correia, na construção de casas de abrigo ameaçadas por
violência doméstica, centro de referências e o financiamento de ações
voltadas para o apoio à mulher vítima de violência. Esse programa conta
com R$ 22,3 milhões no orçamento da União para 2007. Raquel Teixeira
diz, no entanto, que o Centro de Valorização da Mulher, casa de abrigo
sediada em Goiânia (GO) não recebe “um tostão” governo.
A SEPM também cuida de outros dois programas voltados para a mulher: o
Gestão da Transversalidade de Gênero nas Políticas Públicas, com
orçamento de R$ 8,8 milhões; e o Incentivo à Autonomia Econômica das
Mulheres no Mercado de Trabalho, com R$ 11,7 milhões.
Gastos difusos
O real impacto dos cortes é difícil de ser avaliado, já que as ações do
governo federal voltadas para as mulheres estão dispersas em inúmeros
programas, supervisionadas por diferentes ministérios.
A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, segundo a deputada
Maria do Rosário, existe para articular ações políticas para a mulher
desenvolvidas em todos ministérios. A assessora técnica da
Subsecretaria de Articulação Interinstitucional da SEPM, Cleide Silva,
porém, admitiu que não existe esta articulação, apesar do esforço nesse
sentido. Hoje a atuação da SEPM, basicamente, é “formular as políticas,
que são executadas por governos estaduais e municipais”, afirma Cleide.
A deputada Fátima Pelaes (PMDB-AP) disse que a secretaria cumpre o seu
papel de articuladora, “mas tudo que se faz é pouco diante de tudo que
se tem para fazer”. Para ela, o fortalecimento da mulher depende de uma
atuação governamental “com viés transversal”, não limitada a um órgão
específico.
Um dos principais programas voltados para a mulher, o Atenção à Saúde
da Mulher, com orçamento de R$ 7 milhões em 2007, é administrado pelo
Ministério da Saúde, sem ingerências da SEPM. O programa, aliás, também
pode ser achatado com o corte de R$ 5,76 bilhões de contingenciamentos
no âmbito do ministério.
(Por Edvaldo Fernandes
e Janary Júnior)
Para Cfemea, cortes tiveram critério político
A diretora do Cfemea Guacira César de Oliveira aponta critérios
políticos nos cortes. Segundo ela, dos 50 programas que compõem o
orçamento mulher, só não sofreram cortes relevantes aqueles de
interesse político para o governo. É o caso do Bolsa Família, cuja
execução chegou a ultrapassar os 93%. “Os outros programas não têm o
mesmo nível prioridade política que garanta a sua execução”, disse
Guacira. Desde que passou a acompanhar o orçamento mulher, o Cfemea
constatou que há um descasamento entre o discurso do governo e a
prática orçamentária.
Pressão política
As duas ativistas concordam em dois pontos: sem a pressão política dos
movimentos de mulher e de deputadas e senadoras da bancada feminina, os
recursos dificilmente são liberados de forma satisfatória. Além disso,
somente o acompanhamento da execução permite visualizar quais as
efetivas prioridades políticas do Executivo na questão de gênero.
“O acompanhamento do orçamento permite uma ação política mais
qualificada e no tempo político apropriado”, disse Guacira. O trabalho
dos movimentos sociais foi facilitado a partir de 2006 com o Orçamento
Brasil e o Siga Brasil, repositórios de informações orçamentárias na
internet disponibilizados, respectivamente, pela Câmara e pelo Senado.
“Não basta ter a política pública. É preciso acompanhar o recurso, ver
se ele está sendo aplicado. Quanto mais informações, melhor para as
entidades da sociedade civil”, disse a coordenadora do Núcleo de
Estudos Mulher e Políticas Públicas do Instituto Brasileiro de
Administração Municipal (Ibam), Delaine Martins Costa.
Delaine também destacou a importância da criação de conceitos como o
orçamento mulher, que direcionam o olhar sobre as despesas públicas,
facilitando o trabalho das entidades. Para a antropóloga, a tendência é
que o os orçamentos públicos sejam cada vez mais vistos por uma ótica
“tranversal”, ou seja, que priorize temas relacionados às noções de
justiça e cidadania, como direitos humanos, gênero, raça e meio
ambiente. O Inesc, por exemplo, criou a metodologia do “orçamento
criança”.
“O orçamento não é neutro. É um instrumento de negociação política onde
cada segmento procura um espaço para suas demandas. Os movimentos
sociais precisam trabalhar e traduzir a linguagem orçamentária para seu
público”, disse Delaine.]
EV e JJr























