MPF pede anulação do licenciamento e do EIA do Complexo Madeira
Publicado em 27/11/2006 16:53
Ministério Público impetrou ação pedindo invalidação do licenciamento e do Estudo de Impacto Ambiental das hidrelétricas do rio Madeira. Em comemoração ao dia mundial de luta contra as barragens, movimentos sociais fazem atos em SC, DF, MG e RS.
Verena Glass - Carta Maior
SÃO
PAULO – No infindo embate jurídico-socioambiental em que se
transformaram os projetos de construção de hidrelétricas na Amazônia,
uma nova ação do Ministério Público Federal em Rondônia pode jogar um
balde de água fria sobre o afã do governo de licenciar e disponibilizar
para leilão o chamado Complexo do Rio Madeira (composto pelas
hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio) ainda no primeiro semestre
deste ano.
Alegando, entre outros, que a empresa
empreendedora Furnas, responsável pela elaboração do Estudo de Impacto
Ambiental (EIA) do complexo hidrelétrico, não fez uma análise dos
impactos das linhas de transmissão e das eclusas das usinas, “em
contradição ao que determina a Resolução n. 001/86 do Conselho Nacional
do Meio Ambiente (Conama)”, o MPF ajuizou, terça-feira (13), uma ação
civil pública contra o Ibama e Furnas, pedindo a declaração de nulidade
do processo de licenciamento ambiental conferido pelo primeiro, e do
EIA realizado pelo segundo.
“O órgão licenciado (Ibama) aceitou
os estudos ambientais da faixa de corredor de transmissão realizados
por Furnas, quando, pela normatização, deveria ser feito o Estudo de
Impacto das Linhas de Transmissão. Para o MPF, o licenciamento deve
analisar o impacto do empreendimento como um todo, não apenas parte
dele” afirma nota divulgada nesta quarta (14) pelo Ministério Público.
Há
também, no entender dos procuradores, uma falha primária no processo de
licenciamento, referente aos impactos sobre as comunidades indígenas da
região. “O Estudo de Impacto não realizou qualquer análise acerca dos
reflexos do empreendimento sobre os usos e costumes das populações
indígenas localizadas na área de influência direta e indireta das
obras”, diz o MPF, adicionando que as comunidades indígenas que poderão
ser afetadas não foram consultadas previamente, “contrariando o que
prevêem, respectivamente, a Constituição Federal e a Convenção n. 169
da Organização Internacional do Trabalho”.
Liminar
Na
ação, que tramita na 3ª vara da Seção Judiciária de Rondônia, o MPF
solicita que seja concedida initio litis (imediatamente) medida liminar
determinando ao Ibama a suspensão do licenciamento ambiental e a
licença prévia eventualmente emitida, até o efetivo julgamento do
mérito. Pede também que seja declarada a nulidade do processo de
licenciamento ambiental e do EIA/RIMA respectivo, e que Furnas seja
obrigada a realizar, antes da concessão da licença previa para a obra,
um novo EIA incluindo as linhas de transmissão.
Por fim, a
ação demanda também que a empresa realize consultas às comunidades
indígenas e um estudo antropológico analisando a influência das usinas
sobre a sua organização social e econômica, propondo medidas
mitigatórias e compensatórias. Já o Ibama deve ser obrigado a exigir o
cumprimento destes estudos e determinar a realização de novas
audiências públicas.
De acordo com a assessoria do MPF, cabe
agora à Justiça pedir aos réus que se pronunciem, para definir se o
pedido de liminar será aceito total ou parcialmente (ou até
indeferido), quais as exigências (paralisação do licenciamento,
adequação etc) e quais as medidas que deverão ser adotadas. Em todo
caso, a possibilidade de que todo o processo regrida ao estágio inicial
juridicamente é real.
Entre ambientalistas e movimentos sociais
que têm se oposto à construção das usinas, a ação dos procuradores
federais foi vista como muito positiva. “O Ministério Público deu eco à
voz do povo”, comemorou Wesley Lopes, da coordenação do Movimento dos
Atingidos por Barragens (MAB).
“O MPF é um órgão que zela pelo
direito do cidadão, portanto a ação impetrada é importante para exigir
o cumprimento da legislação ambiental e a preservação dos direitos das
minorias”, adenda o doutor em Planejamento Energético e professor da
Universidade Federal de Rondônia (Unir), Artur Moret.
Luta contra as barragens
Coincidentemente,
o 14 de março, dia em que foi divulgada a ação contra o Complexo
Madeira em Rondônia, é festejado no mundo todo como dia internacional
de luta contra as barragens. Em comemoração à data, a Via Campesina e o
Movimento dos Atingidos por Barragens realizaram manifestações em
Brasília, Minas Gerais, Florianópolis e Rio Grande do Sul com alguns
temas locais e três bandeiras nacionais - a oposição à transposição do
Rio São Francisco, a política nacional de preços da energia e a
oposição à construção das hidrelétricas na Amazônia.
Em
Florianópolis e em Belo Horizonte, os manifestantes ocuparam as sedes
estaduais do Ibama para exigir a intervenção do órgão nos processos de
licenciamento ambiental de várias barragens. No Rio Grande do Sul,
cerca de 400 pessoas fizeram um protesto às margens da BR-153, no
município de Erechim, e em Brasília, os cerca de 600 militantes que
montaram acampamento contra a transposição continuaram os debates sobre
os impactos do projeto sobre as populações virtualmente atingidas.























