Lei internacional vive era mais sombria da história, diz juiz da ONU
Publicado em 27/11/2006 16:53
O poder atropelou o direito e transformou a época atual na mais sombria da história para o respeito às leis nas relações internacionais. A avaliação pessimista é de Francisco Rezek, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil (1990-1992) e juiz da Corte de Haia, principal instância jurídica da ONU, até abril do ano passado. Para ele, apesar de "bem-nascido", o Tribunal Penal Internacional já comete os mesmos erros de seus antecessores: deixa que imperativos políticos se sobreponham à justiça. Leia a seguir trechos de sua entrevista à Folha.
Folha- O TPI está cumprindo a missão de punir
os crimes contra a humanidade?
Francisco Rezek- O TPI é muito bem-nascido, porque tem a
característica extraordinária de não ser um tribunal de circunstância, montado
por determinados países para atender a interesses geopolíticos. Assim foram alguns
julgamentos que tivemos na história, como Nuremberg, Tóquio, Iugoslávia e
Ruanda. O TPI nasceu sob o signo da esperança: nós teríamos finalmente um
Tribunal Penal Internacional universal, vocacionado para julgar qualquer pessoa
em qualquer parte do mundo que tivesse cometido crimes previstos no direito
internacional. Sua criação é louvável, mas ele ainda tem muitos problemas do
passado.
Folha- Quais?
Rezek- Quando os países-membros elegeram o procurador-chefe do TPI,
um argentino relativamente jovem que se destacou em processos que exigiram
talento e coragem na Argentina democratizada, foi organizado em Haia um
seminário com ele. Na minha interpelação, eu lembrei que o novo tribunal
deveria exorcizar os fantasmas de outros tribunais. Disse a ele que o grande
desafio era deixar de fazer o que as velhas instituições vinham fazendo:
escolher os réus sempre em países derrotados em guerra ou caídos em desgraça
por qualquer razão, países miseráveis, arruinados. Eu disse a ele claramente:
"Procurador, espero que seus réus não sejam africanos". Disse que,
para dar credibilidade ao tribunal, ele deveria ir além da acusação de pessoas
cuja alegada criminalidade resulta sobretudo de um quadro de miséria social,
política e econômica. E isso ele não está conseguindo fazer. Os primeiros réus
do TPI são os de sempre.
Folha- O sr. quer dizer que a intimação não
terá efeito nenhum?
Rezek- Dificilmente. Os acusados, eu imagino, estão dentro do Sudão,
que não é signatário [do TPI] e não tem obrigação nem vontade de colaborar com
o tribunal, mandando essas pessoas a julgamento. E isso não vai criar nenhum
clima de indignação na comunidade jurídica, porque não há novidade. São apenas
novas versões dos réus de sempre, dos réus miseráveis e caídos em desgraça.
Folha- O TPI está condenado a ser mais um
tribunal guiado por imperativos políticos, não jurídicos?
Rezek- Lamentavelmente, ele está condicionado pelas circunstâncias.
Seria muito bom que a comunidade jurídica caísse de joelhos, num exercício de
admiração pelo TPI, por ele abrir um novo rumo no respeito aos direitos humanos
e na aplicação do direito penal internacional, pondo no banco dos réus aqueles
--e não vou mencionar nomes-- que todos sabem que deveriam estar lá. Embora
muito bem-nascido, o TPI, pelo menos por enquanto, neste que é um dos momentos
mais sombrios da história da comunidade internacional, não vai poder fazer seu
trabalho.
Folha- O que tornaria esse tribunal eficaz?
Rezek- Se esse tribunal, por sua própria iniciativa, quisesse fazer
algo de heróico, mesmo assim não conseguiria. Aquilo de que todos dependemos é
uma mudança no quadro internacional, que é o pior de toda a história da raça
humana. Nunca antes, em nenhum momento da história da humanidade, o direito foi
tão assumidamente violado. O direito internacional e a ONU foram jogados de
lado para que prevaleça uma política de poder. Sem nenhum respeito pelo ideal
de justiça e pela vida humana. Nunca se derramou tanto sangue humano à revelia
do direito como neste momento da história, e de modo tão transparente.
Folha- O que deve ser feito para colocar o
direito na frente da força?
Rezek- A ONU não pode agir, até porque o seu mecanismo de decisão é
contaminado pelo privilégio do veto que os cinco grandes têm no Conselho de
Segurança. Qual o caminho? Enxotar do poder nos países, dentro do processo
democrático, as pessoas que mostraram nos últimos anos que não têm nenhum
respeito pela vida humana. Isso exige alguma inteligência e nós vivemos num
mundo em que inúmeros países, até muito bem alimentados têm uma maioria
numérica de estúpidos, uma maioria numérica de idiotas, de pessoas sem nenhuma
noção de mundo, sem nenhuma ética. Espera-se que isso mude.
Folha- Que influência têm para o declínio do
direito internacional gestos de desprezo dos EUA a instituições como o TPI?
Rezek- Os Estados Unidos não entraram para o tratado do sistema de
Roma [que criou o TPI] por acreditar, e com razão, que não seriam poucos os
réus americanos, em qualquer tribunal internacional que se criasse neste
momento da história. Eles sabem disso e todos sabem. É uma das maiores
obviedades da hora atual. Mas eles foram mais longe do que isso. Eles andaram
celebrando com alguns países especialmente cooperativos tratados bilaterais
para garantir que esses países não colaborarão com o TPI no caso de réus
americanos. Para o bom funcionamento do tribunal, o mais importante não é saber
a nacionalidade do réu. O mais importante é saber onde essa pessoas está. Que
país tem a disponibilidade física do réu. O fato de os EUA, a Rússia e a China
não serem signatários do tratado de Roma e não cooperarem com o tribunal
significa apenas que um réu americano, russo ou chinês que esteja em seu país
de nacionalidade não será mandado para lá. Mas não significa absolutamente que
alguém que tenha nacionalidade de um país participante não possa ser mandado
para julgamento no TPI se estiver em outro país, este sim disposto a colaborar.
Foi por isso que os EUA fizeram essa coisa que é bem um sinal dos tempos,
porque foi feita com a maior transparência e sem nenhum pudor, obter a
colaboração de alguns países especialmente cooperativos, como eu disse, e
conseguir que esses países, embora signatários do tratado de Roma, não mandarão
americanos ao tribunal se solicitados. Veja bem, países que estão comprometidos
em mandar seus próprios nacionais aceitaram não mandar americanos por força
desses tratados. A não participação no TPI é apenas um dos inúmeros fatos
demonstrativos de que, sob a administração republicana de George W. Bush, os
Estados Unidos não estão vivendo um momento saudável e brilhante no que
concerne ao direito.
Folha- O que a prisão americana de
Guantánamo, em Cuba, diz sobre esse momento?
Rezek- O que se faz em Guantánamo já se fez nos subterrâneos de uma
porção de ditaduras, de esquerda e de direita. Mas nas ditaduras isso se faz
sem transparência. A tortura não se assume como tortura. A negativa de direito
também não. Guantánamo é um fato absolutamente novo na história, pois tudo
aquilo que até hoje já aconteceu com muitos seres humanos, mas sempre de modo
oculto, nos porões das ditaduras, até sem o conhecimento da cúpula do governo,
tudo isso está acontecendo hoje assumidamente, abertamente, sob o patrocínio
daquilo que posou até outro dia de grande democracia. Com a condescendência do
poder judiciário, do Congresso e da maioria numérica da população.
Guantánamo é uma vergonha sem precedente. E mostra a que ponto pode chegar o
apodrecimento da consciência das pessoas quando são manipuladas pelos
respectivos governos na base do sentimento do medo. Quando os governos
conseguem, habilidosamente, manipular o medo e, com isso, idiotizar as pessoas.
Desde que as pessoas sensíveis a esse processo representem pouco mais de 50% da
população, esses governos se mantêm no poder democraticamente.
Folha- Nesse quadro sombrio, como o sr. o
classifica, o direito internacional ainda tem importância?
Rezek- O direito internacional nunca foi tão sacrificado como hoje
no que ele tem de essencial. O direito internacional público tem funcionado
exemplarmente na sua parte acessória, periférica. Por exemplo, a Organização
Internacional do Trabalho e as convenções sobre meio ambiente. Também há
inúmeros temas ligados ao comércio internacional, sob a asa da Organização
Mundial do Comércio, perante a qual o Brasil já reclamou tantas vezes e muitas
vezes com sucesso. O que não tem funcionado, o que foi por água abaixo, foi o
principal: a questão da guerra e da paz. É nesse ponto fundamental que o
direito internacional e a ONU enfrentam hoje uma crise.
Folha- O direito internacional seria capaz de
evitar crises com países como Irã e Coréia do Norte?
Rezek- Isso seria possível se a ONU e o direito recuperassem a
credibilidade que já tiveram no passado. Não se pode esperar uma atitude muito
diferente do chefe de Estado iraniano, quando ele diz que o país quer se
defender numa situação de perigo generalizado. Até atitudes como a desse
ridículo ditador da Coréia do Norte não aconteceriam se o direito e a
organização internacional não estivessem desacreditados. Esse rapaz da Coréia
do Norte só faz as trampolinagens que faz por causa disso. Por que ninguém se
escandaliza muito se ele não quer obedecer a ordens de pessoas que ele
considera piores do que ele. O argumento é esse, e é de uma lógica exemplar. Como
não entender os líderes do Irã e da Coréia do Norte quando eles dizem que não
aceitam se submeter a pessoas piores que eles? Eles não existiriam, não diriam
o que dizem e não fariam o que fazem se o mundo estivesse num momento
diferente.























