Governo e moradores de rua discutem promoção de políticas
Publicado em 27/11/2006 16:53
Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) vai elaborar censo amplo e detalhado e coordenar ações que tenham como foco a promoção dos direitos dos moradores de rua. Para movimento, programas de assistência social são insuficientes.
Jonas Valente – Carta Maior
BRASÍLIA
- Presentes no cotidiano brasileiro, os moradores de rua sempre foram
relegados a uma posição de invisibilidade e abandono por parte tanto da
sociedade quanto do Estado. Para tentar mudar esta situação, o governo
federal montou um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) que vai
produzir um diagnóstico e coordenar ações governamentais que tenham
como foco a promoção dos direitos desta parcela da população. Em
reunião na última quinta-feira (1º), os sete ministérios que dele
participam se reuniram para o início dos trabalhos.
“Já
vínhamos financiando atividades e projetos como pesquisas, manutenção
de redes de acolhida temporária [albergues], iniciativas de capacitação
e de melhoria da qualidade de vida destas pessoas, mas agora vamos
fazer uma ação mais efetiva, envolvendo os ministérios”, explica
Marlene Azevedo Silva, diretora do Departamento de Proteção Social
Especial do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Para
identificar os problemas emergenciais e estruturais dos moradores de
rua, uma primeira medida já definida no âmbito do GTI será a realização
de um censo com vistas a produzir um diagnóstico sobre a situação deste
contingente de pessoas em 60 cidades com mais de 30 mil habitantes.
Os
dados existentes hoje são de um levantamento preliminar feito pelo MDS
junto a 49 cidades com mais de 300 mil habitantes. O referido estudo
identificou a presença de 27 mil pessoas vivendo nesta situação, com
forte predominância do sexo masculino - em um índice que chegou a 80%
dos entrevistados - entre este grupo social. No que toca a cor, a maior
ocorrência é de pardos e negros que, juntos, somam até 65% desse
segmento populacional. O planejado censo pretende dar uma visão mais
fiel da realidade, uma vez que esse estudo realizado em 2004 pelo MDS
foi baseado em respostas de questionários aplicados por parte das
prefeituras municipais e pode ter refletido algumas inconsistências.
Outra
iniciativa para trazer uma visão mais aprofundada sobre o problema se
concretizou com o convite para que o Movimento Nacional da População de
Rua (MNPR) faça parte do GTI. Na avaliação do MNPR, é preciso enfrentar
os diversos fatores que levam uma pessoa a esta condição. Entre os
principais está a dificuldade de sustentar os custos de vida, em
especial aqueles relacionados à moradia. “A maioria do problema em si é
dificuldade de se pagar um aluguel, que hoje está muito difícil”,
explica Sebastião Oliveira, da equipe de articulação do movimento. Ele
aponta como principal razão deste quadro a queda da renda da população
mais pobre. “Antes era possível pagar quartinhos. Hoje não existe esta
possibilidade”.
Outro motivo apresentado consiste na perda de
vínculos familiares, que se dá tanto entre pessoas na linha da miséria
quanto entre pessoas com algum poder aquisitivo que, por conta de
separação ou expulsão do lar, acabam nas ruas. Esse tipo de situação é
bastante comuns no caso dos jovens. “Há pessoas estruturadas que estão
nessa situação por problemas familiares. No caso de muitos jovens, o
uso de drogas serve como razão para saírem ou serem expulsos”, comenta
Oliveira.
Medidas
Mesmo antes do resultado do censo
governamental, o movimento cobra ações emergenciais do GTI. Algumas
delas aparentemente simples, como fornecer banheiros públicos. “Para
quem mora na rua não tem isso [banheiro]. Só o fato de ter que usar a
rua como banheiro afasta a pessoa como ser humano”, comenta Sebastião
de Oliveira.
Outras são mais estruturais e dizem respeito a
dívidas histórias para com a população mais pobre do país, como uma
política mais efetiva de geração de renda para as pessoas em situação
de miséria e programas de moradia popular voltadas à restituição de um
espaço físico para estas pessoas. Segundo o representante do MNPR, esta
medida em especial é essencial frente ao pouco êxito dos albergues como
solução para moradores de rua. “Está mais do que provado hoje que a
assistência social não dá conta de parar a situação das pessoas morando
na rua, porque albergue é temporário”, afirma.
Outro problema
que voltou a freqüentar as páginas de jornais é o da segurança. Não na
ótica da população de rua como autora de crimes, mas como vítimas da
violência cometida por agentes do Estado. Um dos pontos da pauta do
MNPR ao GTI é a realização coordenada de ações que pelo menos evitem
ações como a retirada de moradores de rua de maneira forçada dos locais
mais freqüentados por pessoas de maior poder aquisitivo, dentro da
própria cidade, ou dela para outros municípios do interior. Isso sem
falar na necessidade de coibir e punir devidamente casos mais extremos,
como a execução sumária de moradores de rua, como nos caso do massacre
em São Paulo (saiba mais sobre protestos contra a violência policial e manifestações que relembraram as execuções em 2004).
O
MNPR reivindica ainda o acesso a programas de assistência, sobretudo os
de transferência de renda. Em muitos casos, a falta de endereço e renda
comprovada é colocada como um impeditivo para que uma família ou pessoa
possa requerer benefícios como o Bolsa Família.























