Envelhecimento da população e trabalho informal pedem ajustes
Publicado em 27/11/2006 16:53
Prognóstico de especialistas no 1º debate sobre o futuro da Previdência mostra necessidade de adequação das políticas públicas. Pesquisadora sugere rever aposentadoria feminina. Propostas serão submetidas à consulta na internet.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– O perfil da população brasileira vem mudando acentuadamente nos
últimos anos, com aumento da expectativa de vida, da idade média e do
contingente de idosos, ao mesmo tempo em que diminuem da taxa de
natalidade e a quantidade de jovens. A nova realidade demográfica vai
exigir a adequação de uma série de políticas públicas, como a
Previdência Social. No futuro, ela terá menos trabalhadores de quem
cobrar contribuição para pagar mais aposentados. Aliás, isso já
acontece por causa da grande informalidade do mercado de trabalho, com
muita gente empregada sem que os patrões lhes pague os direitos, algo
que também precisa ser atacado.
Essa foi a síntese das questões
discutidas durante a primeira reunião do Fórum Nacional da Previdência
Social, realizada nesta quarta-feira (7), em Brasília. No encontro,
houve duas exposições feitas por especialistas em questões
populacionais e previdenciárias: Juarez de Castro Oliveira, gerente de
Estudos e Análise da Dinâmica Demográfica do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), e Ana Amélia Camarano, do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Dados e projeções
apresentados pelo IBGE dão uma idéia da transformação demográfica do
país. De 2007 a 2050, o número de brasileiros com 60 anos ou mais deve
aumentar em 47 milhões, enquanto a faixa que reúne pessoas em condições
de trabalhar (15 a 65 anos) vai crescer 29 milhões. A idade média do
conjunto da população passará dos atuais 25 anos para 40. E se hoje
existe um idoso com 65 anos ou mais para cada dez brasileiros que podem
trabalhar, em 2050 haverá um idoso para cada três.
O cenário
traçado mostra que o sistema de Previdência Social terá de ser ajustado
para a nova realidade, caso a sociedade queira que ele sobreviva no
futuro. “Vai haver não só uma pressão de financiamento, como também de
pessoas que vão trabalhar e contribuir para ter aposentadoria. Uma
pressão muito maior do que hoje”, disse Castro Oliveira.
Para
ele, a alteração no perfil demográfico vai impor mudanças não só na
Previdência, como em diversas outras políticas públicas, como nas áreas
de Assistência Social, educação, transporte, saúde pública e lazer.
Estas políticas públicas terão de ser mais adequadas a uma quantidade
cada vez maior de idosos e pessoas vivendo por mais tempo.
O peso da informalidade
A
opinião foi compartilhada por Ana Amélia, que, classificou o
envelhecimento da população no Brasil e no mundo como “a maior
conquista social do século XX”. Para ela, contudo, a saúde da
Previdência está mais ameaçada por um elemento alheio à demografia. Em
1980, para cada aposentado do INSS havia 4,8 pessoas contribuindo com o
sistema. Em 2005, eram 2,8. Mais ou menos metade da população
economicamente ativa não paga nada à Previdência.
“Mais grave é
a informalidade. Houve uma redução da oferta de contribuintes. Se essa
informalidade continuar, vai afetar o caixa da Previdência hoje e no
futuro”, afirmou a pesquisadora. “Os países desenvolvidos lidam com a
questão do envelhecimento e acham isso complicado. Nós lidamos com dois
problemas. É ainda mais complicado”, completou.
Como forma de
combater a informalidade, Ana Amélia sugeriu ao Fórum a criação de
regras para tentar incluir trabalhadores na Previdência Social. Por
exemplo: instituir um regime especial para quem está empregado em
atividades que sofrem com a sazonalidade. Trabalhadores da área do
turismo, setor que contrata muito na alta temporada, poderiam pagar ao
INSS uma contribuição por ano, em vez de uma por mês, o que os afugenta.
Presidente
do Fórum, o ministro da Previdência, Nelson Machado, concorda que a
informalidade precisa mesmo ser combatida, o que ajudaria a montar um
sistema novo sem a necessidade de regras tão duras, como aponta o
cenário construído a partir da evolução demográfica da população.
“A
informalidade é uma grande preocupação da Previdência Social. O grande
objetivo é garantir a inclusão, o acesso ao direito previdenciário”,
afirmou o ministro, que no entanto destacou que, pelo calendário de
trabalho do Fórum, o mercado de trabalho e a informalidade serão
debatidos especificamente na próxima reunião, marcada para o dia 21 de
março.
Ao comentar os dados demográficos apresentados pelos dois
expositores, Machado avaliou que eles reforçam a necessidade da
discussão aberta pelo Fórum, de repensar o sistema para o futuro
levando-se em conta que Previdência se trata de um pacto feito pela
sociedade para proteger a si mesma com base em suas próprias
características. “O modelo atual não tem condições de se perpetuar até
2050, 2060, que é o foco co Fórum”, disse.
Aposentadoria feminina e consulta popular
A
pesquisadora do Ipea também sugeriu ao Fórum que sejam debatidas em
particular as regras previdenciárias das mulheres. Para ela, as
mulheres deveriam pagar contribuições maiores que as atuais e passar
mais tempo contribuindo, porque vivem mais e podem se aposentar mais
cedo. As duas vantagens em relações aos homens são formas de
compensá-las pelo fato de que muitas vezes cumprem jornada dupla de
trabalho (em casa e fora) e porque dão à luz. Segundo Ana Amélia, a
primeira compensação deve continuar, mas a segunda precisa ser revista,
porque há cada vez mais mulheres que decidem não ter filhos.
Preocupada
com eventuais implicações do Fórum sobre o segmento, a Articulação de
Mulheres Brasileiras (AMB) quer ter voz nos debates. Nesta quinta-feira
(8), fará atos estaduais para marcar posição sobre o assunto. No dia
12, se reunirá com Nelson Machado e, no dia seguinte, com a ministra da
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire.
As
eventuais propostas acertadas no Fórum, que trabalhará durante seis
meses, serão submetidas à avaliação popular. A consulta será feita pela
internet pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), instância ligada à
Presidência da República cuja tarefa é pensar e planejar o país no
longo prazo. Seria uma forma de medir o humor da sociedade antes de o
Congresso votar eventuais projetos. “A Previdência impacta a todos nós.
A sociedade vai indicar se concorda ou não. Será sinalização da
sociedade participando efetivamente do futuro”, disse o chefe do NAE,
Oswaldo Oliva Neto.
O Núcleo já havia promovido uma consulta do
tipo sobre a Previdência, ao preparar um plano estratégico com 50
itens. Na ocasião, opinaram 50 mil pessoas, e o resultado mostrou que
elas, em geral, acham que o tema é importante, tem problemas que
precisam ser resolvidos, mas não acreditam que isso acontecerá no curto
prazo.























