Entidades rechaçam modelo de produção com base no agronegócio
Publicado em 27/11/2006 16:53
Diante da vinda do presidente dos EUA, George W. Bush, ao Brasil para tratar do etanol, movimentos sociais defendem a produção de agrocombustíveis, desde que beneficie agricultores familiares e não seja com base no modelo agroexportador.
Natália Suzuki - Carta Maior
SÃO PAULO – Às vésperas da visita do presidente
norte-americano George W. Bush e diante da perspectiva de tratativas
específicas sobre o etanol, entidades dos movimentos sociais
reafirmaram a sua posição contrária ao modelo de exportação e do
agronegócio para a produção de biocombustíveis em coletiva nesta
quarta-feira (7).
Os representantes das entidades reconhecem que fontes de energia como o
etanol são uma alternativa saudável para a substituição dos
combustíveis fósseis, como o carvão e petróleo, responsáveis pela
produção suja e pela emissão de gases poluentes na atmosfera, mas
defendem que o Brasil deve aderir ao projeto de acordo com os
interesses do povo brasileiro.
“Os movimentos sociais não são contra o agrocombustível, mas sim contra
o modelo de exportação e a forma de organização do agronegócio para a
produção de grãos e cana-de-açúcar”, explica Temístocles Marcelos Neto,
ambientalista e membro da executiva nacional da Central Única dos
Trabalhadores (CUT). “Seria fundamental que a produção fosse pela
modalidade de agricultura familiar e, principalmente, abastecesse o
mercado nacional, a frota de transporte coletivo e de automóveis. Sem
essa sanha de exportação”, defende Marcelos. Para ele, a venda do
produto para outros países não deveria ser do produto biocombustível,
mas sim da tecnologia de produção que o Brasil detém para os demais
países do Hemisfério Sul.
Segundo o membro da CUT, se a produção dos agrocombustíveis forem
calcados no modelo do agronegócio, haverá sérias conseqüências sociais
e ambientais. “A monocultura afeta o aquecimento do planeta, pois
destrói a biodiversidade e impede que a água e a umidade das chuvas se
mantenham em equilíbrio com a produção agrícola. Além disso, faz uso
intenso de agrotóxicos e máquinas”, adiciona o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em nota. Para Marcelos, o
histórico da plantação de cana e do funcionamento das usinas remete
ainda ao uso de trabalho escravo e infantil. “Essa energia, além de ser
renovável, tem que ser sustentável”, observa.
Dom Tomás Balduíno, conselheiro da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
ressalta que haverá uma demanda grande por terras para novos plantios
de cana-de-açúcar ou outros grãos para a produção de biocombustíveis.
Atualmente, mais de 6 milhões de hectares são destinados para os
cultivos de cana-de-açúcar e, segundo a CUT, se os caminhos seguirem
para onde apontam, a ampliação da produção deve exigir mais 22 milhões
de hectares nos próximos anos. “Para o universo camponês, é uma
perspectiva de destruição, de marginalização e de morte”, prevê o
missionário.
“Toda vez que se espalha a monocultura, a condição das mulheres de
serem camponesas que é ameaçada. É por causa da destruição das unidades
familiares camponesas para a utilização de todo o espaço de produção de
soja e cana que as mulheres não têm condições de manter a sua horta e a
criação de pequenos animais, que são fundamentais para o autoconsumo e
para a venda nas comunidades locais”, alerta Mirian Nobre, da Marcha
Mundial das Mulheres. Devido a esse viés social, que tem influência nas
condições de vida da mulher, o tema dos agrocombustíveis está na pauta
do movimento feminista.
Motivação política
A visita do presidente Bush ao Brasil tem motivações políticas mais
fortes do que a vontade de produzir energia limpa, de acordo com João
Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST.
Stédile lembra que, nos últimos meses, governos progressistas - que
contrariam ideologicamente os interesses do governo norte-americano -
foram eleitos na América Latina. Para o integrante do MST, acordos como
o do etanol são uma forma de reconquistar o espaço perdido e exercer
influência sobre a região, além de representarem uma ofensiva ao
governo venezuelano de Hugo Chávez.
O fato de países do Hemisfério Sul como o Brasil terem uma geografia
favorável à expansão do cultivo com terras disponíveis, maior
incidência de energia solar e grandes reservas de água atrai os
negócios do capital internacional que, segundo Stédile, está
concentrado nas mãos das transnacionais petrolíferas, grupos
empresariais do setor do agronegócio e de automóveis. “Defendemos a
possibilidade do uso do agrocombustível, mas produzido de outra forma:
de modo sustentável e sob controle das populações locais", afirma (leia
matéria). "Esperamos que o governo Lula mantenha o seu compromisso com
a população que o elegeu”.























