Diretor conservador decide sair um dia após divulgação do PIB
Publicado em 27/11/2006 16:53
Afonso Beviláqua alega razões pessoais e deixa diretoria de Política Econômica do BC. Henrique Meirelles nega pressão política e admite novas trocas. Mário Mesquita, substituto momentâneo de Beviláqua, também é visto como ortodoxo.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– Pode ser só coincidência, mas um dia depois de o país ser informado
que 2006 foi mais um ano de crescimento frustrante da economia, o Banco
Central (BC), tido por muitos como culpado pela decepção, anunciou uma
mudança na diretoria. E a troca atinge aquele que é considerado o
símbolo do juro alto que emperra o crescimento: Afonso Beviláqua,
diretor de Política Econômica, segundo cargo mais importante do BC. Ele
deixa o posto, que ocupava há quatro anos, dizendo ter tomado uma
decisão própria baseada em motivos pessoais. O presidente do Banco
Central, Henrique Meirelles, também afirmou que houve uma opção
individual do subordinado, e não resposta a pressões políticas.
Apesar
das afirmações de que se trata de uma decisão individual e das
negativas de que houve pressão política, a saída de Beviláqua já estava
certa, por um desejo do presidente Lula, como Carta Maior antecipara há um mês. O presidente está decidido a fazer mudanças no BC desde a eleição (leia matéria). Meirelles admitiu que pode haver novas mudanças.
Uma
pista de que influências políticas podem ter pesado na saída pode ser
encontrada numa segunda possível coincidência. Beviláqua decidiu sair
apenas seis dias antes de a diretoria do BC se reunir, como faz a cada
a cada seis ou sete semanas, para rediscutir a taxa de juro. E fez isso
apesar de Meirelles ter dito à imprensa que pediu aos subordinados para
só tomar uma decisão sobre ficar ou sair do BC, quando o governo
finalizasse a reforma ministerial.
O anúncio sobre uma
eventual nova taxa de juros está marcado para a próxima quarta-feira
(7). Meirelles e Beviláqua disseram que o diretor pode ou não
participar dela. Depende do ritmo com que a substituição será feita. O
substituto precisa de tempo para se inteirar das atribuições do
demissionário. Para a vaga, irá outro diretor do BC, Mário Mesquita, da
área de Estudos Especiais. Ele acumulará as funções por tempo
indeterminado, segundo Meirelles.
Seis por meia dúzia?
Caso
Mesquita seja efetivado na diretoria de Política Econômica, é pouco
provável que haja algum abandono do “excesso de conservadorismo” Esta é
opinião da economista Maryse Farhi, especialista em política monetária
que prepara um estudo comparando a atuação do Banco Central brasileiro
com o de outros países emergentes.
Para a professora da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mesquita tem o mesmo
perfil conservador de Beviláqua. Algumas credenciais do diretor apontam
nesta direção. Ele foi economista do Fundo Monetário Internacional
(FMI) entre 1997 e 2000 e diretor da Federação Brasileira dos Bancos
(Febraban) de 2005 a 2006, quando foi para o BC.
Outra
evidência da harmonia com Beviláqua pode ser encontrada, segundo
Maryse, em um texto produzido em conjunto pelos dois e que foi
divulgado recentemente na página do BC na internet. Escrito em inglês,
o trabalho faz apologia da política de juros adotada pelo BC no
primeiro governo Lula. “O texto reafirma a opção de desinflação rápida,
mesmo que sacrifique o crescimento. Por isso, se o Mesquita for
efetivado, será uma troca de seis por meia dúzia”, afirmou a professora.
A
Central Única dos Trabalhadores (CUT) tem preocupação semelhante com o
risco de “seis por meia dúzia”. Inclusive, porque encara o
conservadorismo do BC como uma característica da instituição que
independe dos nomes assentados na diretoria. Mas a entidade mostrou
certo otimismo, pois a troca atinge o coração da ortodoxia. “A mudança
tem conteúdo simbólico forte, porque se trata de um dirigente com
perfil conservador. Se representar efetivamente mudança de política
econômica, será positivo”, disse o presidente da CUT, Artur Henrique da
Silva Santos.
Explicações oficiais
A saída de
Beviláqua foi explicada à imprensa em uma entrevista dada por ele e
Meirelles na noite desta quinta-feira (01). O banqueiro afirmou ter
sido procurado durante o dia pelo subordinado, que lhe comunicou o
desejo de sair imediatamente. O presidente Lula e o ministro da
Fazenda, Guido Mantega, foram avisados em seguida.
Na
entrevista, Beviláqua disse que quer passar mais tempo com a família,
que mora no Rio – ele fez carreira acadêmica na Pontifícia Universidade
Católica do estado (PUC-RJ), tida como berço intelectual do
conservadorismo brasileiro. E insistiu não ter precipitado a saída, ao
contrário do que o chefe lhe pedira, por qualquer pressão política. Nem
mesmo a saraivada de críticas disparada na véspera contra o BC, por
causa de mais um crescimento baixo. “Foi motivação pessoal mesmo”,
disse, lembrando que sofre críticas há quatro anos.
As críticas
ao BC são antigas, como o diretor demissionário salientou, mas
aumentaram nos últimos tempos. Especialmente depois da última reunião
do BC sobre juros. A redução na taxa foi menor que a esperada pelos
“desenvolvimentistas”. Depois disso, houve quem pedisse a demissão de
Meirelles – caso do ex-ministro José Dirceu. Com a divulgação do
crescimento econômico em 2006 (veja matéria), nesta quarta-feira (28) a Força Sindical reforçou o pedido.
Ao
divulgar o resultado da geração de emprego no ano passado, que ficou
abaixo da expectativa, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, também
atacou o BC (confira matéria).
Ele culpou a política de juros pelo resultado. Chegou a dizer que o
resultado deveria “servir de alerta” para a equipe econômica do
governo, em particular, para o BC.
Alvo do tiroteio, Meirelles
afirmou que a saída de Beviláqua é normal, porque o diretor era um dos
mais antigos do BC e entrara para trabalhar nos quatro anos do governo
anterior. O presidente do BC aproveitou para, ao menos na retórica,
jogar uma ducha de água fria nos críticos que poderiam se animar com a
troca. “A política do BC não é dependente de um ou outro diretor. É uma
decisão colegiada”, disse. O Comitê de Política Monetária (Copom), que
define a taxa de juros, é formado por todos os diretores do banco.























