Direitos Humanos: Brasil promove outros Objetivos do Milênio
Publicado em 27/11/2006 16:53
Por Gustavo Capdevila, da IPS
Genebra, 14/03/2007 – A abolição da pena de morte no mundo e outras
aspirações em matéria de direitos humanos podem ser conseguidas por
meio de mecanismos semelhantes aos Objetivos de Desenvolvimento do
Milênio adotados pela Organização das Nações Unidas, de acordo com uma
proposta do governo brasileiro. Uma iniciativa apresentada ao Conselho
de Direitos Humanos da ONU pelo secretário de Direitos Humanos da
Presidência da República, Paulo Vannuchi, sugere o estabelecimento de
metas com prazos variáveis para erradicar alguns dos males que
restringem as liberdades e garantias das pessoas. Para ele, os países
dispõem de grande diversidade de legislações em questões humanitárias.
Em um encontro realizado em novembro pela Sociedade Chinesa de Estudos
de Direitos Humanos, Vannuchi comprovou que a China moderna, fundada em
1949 com o triunfo da revolução liderada por Mao Tsetung, se baseia em
um pensamento teórico que exclui a pena de morte de uma sociedade
futura. Em conseqüência, Pequim, que impõe a pena capital, e o Brasil,
que a descarta, coincidem quanto à supressão desse castigo a longo
prazo apesar de diferirem quanto à possibilidade de sua abolição
imediata, explicou Vannuchi.
Portanto, deve abrir-se um debate sobre a pena de morte no Conselho de
Direitos Humanos - máximo organismo da ONU especializado nessa matéria
- que leve em consideração a possibilidade de adotar uma decisão, em 10
ou 20 anos, se forem necessários, para “estabelecer um futuro no mundo
sem pena de morte”, afirmou Vannuchi à IPS, entretanto, reconhecendo
que somente a abolição da pena capital “não basta”.
No Brasil e em outros países onde este castigo não está previsto em
leis “temos um problema muito complexo, que é a pena de morte
extrajudicial”, execuções sumárias cometidas por forças policiais ou
esquadrões da morte, explicou Vannuchi. À revogação da pena de morte se
poderia agregar outros objetivos para formar uma cesta de temas de
direitos humanos, acrescentou. Em primeiro lugar figuraria o combate ao
racismo. A iniciativa começaria pela ONU e se estenderia às legislações
de todos os países, seguindo o exemplo brasileiro e de outras nações,
que já dispõem de normas que tipificam o racismo como um crime. As
pessoas poderão recorrer à lei e denunciar, por exemplo, “fui agredido
por ser negro”, o que produziria as primeiras condenações, previu
Vannuchi.
Nessa cesta de direitos humanos se incluiria a discriminação de caráter
religioso, de gênero ou orientação sexual. Este último aspecto tem sido
tratado na ONU, mas é considerado um tema tabu, ressaltou. “Há
fundamentalistas em todos os lados” em muitos países islâmicos e também
em muitos países cristãos que tratam a diversidade como pecado,
prosseguiu. A posição do governo brasileiro é muito clara, pois a
Secretaria de Direitos Humanos dispõe de um programa em favor de um
“Brasil sem homofobia”, disse seu titular. No Brasil foi criada uma
rede para sustentar esse critério e anualmente acontecem grandes
manifestações, de até um milhão de pessoas, as passeatas gays, que
defendem esse enfoque, disse Vannuchi.
O secretário também propôs a adoção de uma fórmula de compromisso da
ONU, pela qual a organização não tolerará, em um prazo determinado, a
tortura nem os desaparecimentos forçados. O especialista brasileiro
recordou que em fevereiro foi assinada em Paris uma convenção contra o
desaparecimento forçado adotada pela Assembléia Geral das Nações
Unidas. O tratado, impulsionado por França e Argentina começou a ser
criado em 1981, quando muitos argentinos estavam exilados nesse país
europeu, recordou Vannuchi. O tratado não responde ao problema dos
desaparecimentos no Brasil, Chile, Argentina e outros países subjugados
por ditaduras militares, mas cria um contexto adequado para evitar
essas violações dos direitos humanos, acrescentou.
Vannuchi propôs ao Conselho de Direitos Humanos a criação de um grupo
de trabalho que prepare um plano de metas especificas que serão
perseguidas de forma paralela aos Objetivos de Desenvolvimento do
Milênio. Os países da ONU decidiram em setembro de 2000 estabelecer
oito objetivos de desenvolvimento para serem atingidos até 2015. O
compromisso assumido pretende, entre outros objetivos, reduzir a
pobreza e a fome, universalizar o ensino primário e promover a
igualdade de gênero.
As metas de direitos humanos favorecerão uma abertura internacional que
reforçará os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estimou o
brasileiro. A importância dos objetivos do milênio reside no
compromisso, pela primeira vez na história das nações, com objetivos de
desenvolvimento concretos, embora nem todos os países possam
alcançá-los, o que dependerá de seus processos internos, das situações
de guerra ou da própria economia mundial, justificou Vannuchi.
A iniciativa brasileira pretende que o plano de novas metas seja
lançado no próximo ano, por ocasião do 60º aniversário da Declaração
Universal dos Direitos Humanos adotada pela ONU em 1948. Com esta
idéia, a delegação brasileira procura desviar o Conselho de Direitos
Humanos de uma tendência de envolver-se em debates de questões
retóricas, mais próprias do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e
dedicar-se completamente a objetivos concretos. Vannuchi expôs o
exemplo do Brasil, onde os esforços para alcançar os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio deram lugar a um encontro de diferentes
setores comprometidos, como sindicatos, ONGs, empresários e
universidades, entre outros. (IPS/Envolverde)
(Envolverde/ IPS)























