Brasil prepara-se para revidar ‘invasão’ de produtos chineses
Publicado em 27/11/2006 16:53
Importações chinesas ao Brasil cresceram 5 vezes nos últimos 4 anos. País asiático desbancou a Argentina e se tornou o 2º país que mais vende ao Brasil. Para equilibrar jogo, governo e empresários preparam missão comercial à China.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– O comércio do Brasil com o exterior observa uma mudança histórica
neste ano. Em janeiro, a China tornou-se o segundo maior vendedor de
mercadorias ao mercado brasileiro, destronando a Argentina, que ocupava
a posição há tempos – a liderança segue com os Estados Unidos. A
entrada de produtos chineses cresce sem parar desde 1999 e
intensificou-se a partir de 2003. Por uma opção diplomática do governo
Lula, que quis diminuir a dependência de americanos e europeus, a nação
asiática passou a ser tratada como parceira estratégica. De 2002 a
2006, as importações brasileiras dobraram, mas as vindas da China
quintuplicaram e já representam 8%. Na contramão, as exportações
brasileiras à China “apenas” triplicaram e, mesmo assim, equivalem a só
1% das compras daquele país.
Para tentar equilibrar a relação
entre os dois países nos próximos anos e tirar mais proveito dos laços
comerciais que se apertaram nos últimos tempos, o governo está
preparando uma “invasão” da terra de Mao Tsé Tung. Esse será um dos
principais planos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio (MDIC) para este ano.
Na segunda quinzena de março, o
MDIC começará a procurar empresários para convencê-los a apostar mais
no embarque de mercadorias rumo ao mercado chinês. A idéia é montar uma
missão empresarial que vá até lá ainda no primeiro semestre, para
negociar com autoridades locais medidas que facilitem os negócios. “A
China não deve ser um parceiro estratégico só nas importações, a gente
também quer vender mais para lá”, diz o secretário de Comércio Exterior
do ministério, Armando Meziat.
O plano do MDIC sinaliza uma
certa mudança da postura que se verificou nos últimos tempos, quando o
assunto é comércio com a China. Até aqui, a atitude mais comum entre os
empresários nacionais era reclamar para o governo da enxurrada de
importações chinesas e tentar fazer com que autoridades brasileiras
arrancassem de Pequim medidas de autocontrole das vendas ao Brasil.
Agora, o governo resolveu agir dentro da trincheira adversária. “Chega
de chorar. Vamos atacar do outro lado também”, afirma Meziat.
Gigantesco mercado
O
alvo do ataque armado pelo governo é gigantesco. No ano passado, a
China pagou US$ 791 bilhões fazendo compras pelo exterior, oito vezes
mais que o Brasil. Cofres brasileiros ficaram com apenas 1% (US$ 8,4
bilhões) da gastança. E o pior. Mais de 70% dos negócios envolviam
produtos de baixo valor agregado. E 60% concentraram-se em duas
mercadorias - soja (US$ 2,4 bilhões) e minério de ferro (US$ 2,6
bilhões). Enquanto isso, a China despejava por aqui uma gama de
produtos mais variada, cara (eletrônicos, máquinas, produtos químicos)
e volumosa. O país forneceu 8% das importações brasileiras.
Para
o empresariado envolvido nas transações, o Brasil tem condições de
ampliar sua fatia nas compras chinesas, reforçando, sobretudo,
transações com artigos industriais, que têm maior valor agregado. Essa
é a avaliação do Conselho Empresarial Brasil-China. Segundo um estudo
da entidade, ao contrário do que se poderia imaginar, as mercadorias
brasileiras têm competitividade na China. Custam preços que
consumidores chineses podem pagar ou já pagam a fornecedores locais ou
de outros países. O trabalho aponta uma série de áreas com potencial de
crescimento das vendas que o governo levará em conta na ‘invasão’ da
China.
“Apesar da concentração em minérios e no complexo soja,
as exportações brasileiras à China têm registrado dinamismo relativo em
segmentos de teor tecnológico intermediário, como couros, papel e
celulose, e em insumos industriais, como autopeças, produtos químicos e
algumas máquinas e aparelhos elétricos e mecânicos”, diz o estudo, que
aponta “crescimento da complementaridade industrial entre os dois
países”.
Para Meziat, a competitividade não foi explorada
devidamente até agora porque o Brasil teria demorado a descobrir o
gigantesco mercado chinês. Países que chegaram antes ocuparam espaço
que fica difícil de tomar. A turbulência nos mercados financeiros pelo
mundo nos últimos dias tem, aliás, relação com os pioneiros da
ocupação. A instabilidade ocorreu porque o governo chinês resolveu
apertar a fiscalização das empresas para coibir fraudes. A decisão foi
interpretada como uma forma de combater o espírito de “terra sem lei”
encontrado e adotado pelas empresas que estão lá há tempos.























