A origem do efeito manada
Publicado em 27/11/2006 16:53
Há plena liberdade de entrada e saída de capitais em quase todos os
países. Esses capitais se organizam, em geral, em forma de fundos e se
movem em duas direções: procuram ativos (ações, papéis que rende juros,
imóveis, minérios etc.) baratos para comprar; e vendem ativos
considerados excessivamente valorizados.
Praticamente todos os ativos internacionais estão em bolsa. Existe
um mercado de compra e venda à vista; e outro mercado maior dos
chamados “derivativos” – ou operações derivadas dos ativos em questão.
Por exemplo, posso comprar a ação de uma determinada companhia para
receber daqui a seis meses. Nem a pessoa que compra tem o dinheiro; nem
a pessoa que vende tem a ação. A cada dia, se o valor da ação sobe ou
desce, comprador e vendedor recebem ou pagam a diferença na Bolsa em
que a operação foi efetuada. São os chamados ajustes diários, que o
investidor que está na ponta perdedora é obrigado a fazer. Além dele,
existe a chamada de margem, o aporte de garantias adicionais a cada
baque maior do mercado.
Na hora de investir, os grandes fundos espalham sua carteira por
uma infinidade de ativos no mundo todo. Suponha que estoure uma crise
com determinado ativo – mercado de opções de créditos hipotecários nos
EUA. Se o tamanho do tombo for muito grande, os investidores que
estiverem na ponta perdedora terão que atender ao chamado de margem.
Como fazem isso? Vendem seus ativos mais líquidos (aqueles que têm mais
negociações). Dependendo do volume de vendas, essa venda adicional
derruba também o mercado desse ativo. Dependendo da intensidade das
quedas, ocorre o efeito-dominó, com um mercado derrubando outro
sucessivamente.
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Tem mais. Os operadores de mercado trabalham com o conceito de
“múltiplos”. Pegam o valor patrimonial de determinada empresa e
multiplicam por determinado multiplicador. Quando muda o status do
ativo – pela melhora ou piora da rentabilidade – imediatamente o
mercado aumenta ou reduz o multiplicador, com resultados expressivos
sobre a cotação do produto.
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Veja bem que os dois primeiros tópicos – os mercados de derivativos
e o sistema de múltiplos (que definem a “valuation”) do ativo podem
provocar terremotos expressivos da noite para o dia.
E aí se entram em características próprias do momento atual. Há
muito dinheiro sobrando no mundo, que levou empresas a se endividarem
para a aquisição de outras, ou para recompra de suas próprias ações.
Esses financiamentos levam em conta a capacidade de pagamento das
empresas, ou o valor das suas ações – dadas em garantia.
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Hoje em dia, os múltiplos estão elevadíssimos, especialmente para
países como o Brasil, cujos papéis são chamados de “pró-cíclicos”. Esse
termo significa que sempre que melhora o quadro internacional, os
papéis do Brasil são os primeiros a melhorar. Sempre que piora, são os
primeiros a piorar também.
Hoje em dia, em caso de efeito-manada nas Bolsas internacionais, os
primeiros ativos a sentirem serão os de países emergentes como o
Brasil. São os mais fáceis de vender, aqueles em que a desvalorização
será maior (daí a pressa do investidor em passar para frente).
Se ele começa a vender e a tirar os dólares do país, como não há
limite para entrada ou saída, haverá efeitos sobre Bolsas de Valores
caindo, real se desvalorizando.
























vc mencionou que os multiplos estao elevados: como vc avalia, hj, comparativamente a dez anos atras?
A dez anos atrás, a América Latina estava desvalorizada. Terrenos, campos, edifícios, maquinaria, propriedade intelectual, marcas e o espectro eletromagnético da região tinham um preço menor que o justificado por sua produtividade. Esses mesmos ativos, se estivessem na Europa ou nos Estados Unidos, custariam muito mais; em alguns casos, até 10 vezes mais.
Na maioria dos países, o valor de mercado do acervo de capital é de duas a cinco vezes o PIB do país. Nos países com recursos minerais, petróleo ou grandes bosques, o valor pode ser ainda muito maior. Suponhamos que, num período curto, o valor de mercado do acervo de capital de um país aumente duas a três vezes mais que o PIB. O aumento do valor dos ativos seria um faturamento igual ao PIB de um ano. Tal faturamento iria para os donos dos ativos, que estariam rapidamente mais ricos do que antes. Seus gastos aumentariam e também poderiam investir na melhoria de seus ativos. Os aumentos em gastos e investimento poderiam levar a um círculo virtuoso de crescimento do PIB e a aumentos adicionais no valor de mercado dos ativos do país.
grato