Visita do papa acirra debates sobre sexo e aborto
Publicado em 27/11/2006 16:53
O aborto, os preservativos e os direitos dos homossexuais são os temas mais difíceis nas conversas entre o governo brasileiro e a Igreja Católica, às vésperas da visita do papa Bento 16, que chega hoje a São Paulo.
O Pontífice, que iniciará uma visita de cinco dias ao Brasil, será
recebido por milhões de fiéis. Mas também deverá enfrentar as queixas
de grupos que se sentem ofendidos pelo conservadorismo do Vaticano.
O
Grupo Gay da Bahia (GGB), uma ativa organização de homossexuais, vai
promover uma queima simbólica dos documentos da Igreja Católica que
criticam a homossexualidade. Além disso, convocará manifestações de
protesto contra a visita papal.
Marcelo Cerqueira, presidente do
GGB, disse que o protesto em Salvador terá como alvos outras posições
do Vaticano, que se opõe ao uso de preservativos e ao divórcio.
"Será
uma crítica à postura da Igreja contra todas as liberdades", declarou o
ativista. Para ele, a Igreja "semeia discórdias, promove o ódio e a
homofobia, e é culpada de muitos dos casos de aids e gravidez não
desejada no mundo".
Uma pesquisa da organização Católicas pelo
Direito de Decidir, que quer maior liberdade sexual para os fiéis da
religião, descobriu que a oposição às políticas do Vaticano na área
sexual é generalizada entre os jovens brasileiros.
Segundo a
enquete, 96% dos jovens católicos são a favor do uso de preservativos,
e 79% aprovam as relações sexuais antes do casamento.
Além disso, 88% opinaram que uma pessoa "pode usar métodos anticoncepcionais e continuar sendo uma boa católica".
No
entanto, o Episcopado brasileiro tem criticado a política de combate à
aids do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que inclui a distribuição
de preservativos em escolas.
O arcebispo Geraldo Lyrio Rocha,
presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),
comentou que o programa não educa a população. Pelo contrário, só
"favorece a promiscuidade" e "estimula precocemente" as crianças e os
adolescentes.
A visita de Bento 16 também será alvo de protestos
de feministas, que pretendem denunciar a "discriminação" contra a
mulher na Igreja.
"As mulheres devem estar a serviço da Igreja,
mas não há perspectivas de elas chegarem ao sacerdócio, que seria o
acesso à palavra e ao poder de decisão na Igreja", criticou a socióloga
Dulce Xavier, membro da Católicas pelo Direito de Decidir.
No
entanto, nem todas as manifestações desta agitada semana religiosa são
contrárias à doutrina católica. Em Brasília, centenas de pessoas
convocadas por instituições católicas e evangélicas se manifestaram na
terça-feira contra a legalização do aborto.
Os temores nos
setores mais conservadores da sociedade e na própria Igreja surgiram
nas últimas semanas. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, se
declarou a favor de um plebiscito sobre a legalização do aborto, como o
que aconteceu recentemente em Portugal.
Lula comentou o tema na
segunda-feira, numa entrevista a uma rede de rádios católicas. Ele
disse ser contra o aborto, mas acrescentou com certa ambigüidade que
entende "as jovens desesperadas por uma gravidez não desejada".
O
aborto só é permitido no Brasil em casos de estupro, risco de vida para
a mãe e fetos sem cérebro. Mesmo assim, deve ser autorizado pela
Justiça.
Lula disse que não pretende falar do tema com o papa, com quem terá uma reunião na quinta-feira.
Bento
16 ficará no Brasil até domingo, quando rezará uma missa campal no
Santuário de Nossa Senhora Aparecida, com a presença esperada de 500 a
700 mil pessoas.























