Quem segurou o câmbio
Publicado em 27/11/2006 16:53
Na entrevista que encerra meu livro “Os Cabeças de Planilha”, o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sustenta que não se tentou
corrigir o câmbio em 1995 em função da perspectiva de uma crise
bancária – a mesma que obrigou à criação do PROER.
O demora em corrigir o câmbio foi fatal para o país. Provocou uma
expansão incontrolável da dívida pública, dizimou diversos setores
empregadores de mão de obra, quebrou estados e municípios.
Personagens da época, contudo, têm uma versão diferente para o
episódio. Quando FHC assumiu, em 1995, foi criada uma espécie de Câmara
Setorial para analisar a questão do câmbio. Compunham o grupo o
Ministro do Planejamento José Serra, o da Fazenda Pedro Malan, o
Secretário de Política Econômica da Fazenda, José Roberto Mendonça de
Barros, o Ministro-Chefe da Casa Civil Clóvis Carvalho, o presidente do
Banco Central Pérsio Arida e o Diretor de Política Monetária Gustavo
Franco, entre outros.
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Quase todos eram a favor de um ajuste rápido no câmbio. Contra
estavam Gustavo Franco – que, segundo membros da comissão, falava muito
pouco, entrando mudo e saindo calado, mas anotando tudo --, e Malan,
que assumia mais de frente a defesa da política cambial.
Em todas as reuniões, prevaleciam os argumentos do grupo a favor do
conserto rápido do câmbio. Quando a reunião terminava, tudo continuava
na mesma.
É evidente que Malan, sozinho, não conseguiria fazer valer sua
opinião. Mesmo assim, em um Ministério dividido, em uma Câmara Setorial
dividida, é evidente que ou prevaleceria a decisão do chefe maior, no
caso, o presidente da República.
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A decisão de manter o câmbio apreciado foi de FHC, mesmo sabendo
que estava destruindo setores inteiros da economia. Na entrevista ele
admite o estrago que provocou em diversos setores, admite o erro do
real apreciado, e fala do esforço que se seguiu, ainda no seu governo,
para tentar reconstruir esses setores. Fala, também, da falta de
crítica à política cambial que, segundo ele, tirava do governo qualquer
possibilidade de mexer nela.
A falta de crítica se devia, de um lado, à ilusão passageira
provocada por uma moeda forte. Cria-se uma sensação de bem estar e
prosperidade que não é sustentável com o tempo. O segundo fato é o
papel do governante, desqualificando as críticas. Valendo-se do seu
cargo, e do apoio incondicional da grande imprensa, FHC qualificava os
críticos do “neobobos”.
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Repete-se agora o mesmo drama. O canto de sereia do câmbio
apreciado vai provocando estragos em todos os setores. Em um primeiro
momento, provoca aumento da demanda, gerando algum emprego. Depois, o
excesso de importações de manufaturados vai destruindo setores, matando
empregos. E o impulso inicial se dissolve, trazendo de volta a crise.
Vou repetir aqui o que escrevi sobre o governo FHC em 1998. O
governo Lula começa a engrenar. O PAC (Plano de Aceleração do
Crescimento) foi um avanço, assim como tem sido a Bolsa Família e os
planos de educação anunciados pelo Ministério da Educação.
Todos esses avanços irão por água abaixo, quando os resultados dessa apreciação cambial se mostrarem mais visíveis.























