Peso estatal será usado para obter tecnologia e baratear remédio
Publicado em 27/11/2006 16:53
Ministério da Saúde prepara proposta para setor público, grande cliente de empresas da área, obter concessões e criar política industrial. Em debate no Senado, ministro pede discussão sobre aborto e restrição à propaganda de bebidas.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– De cada quatro remédios vendidos no Brasil, o poder público adquire
um. Metade dos equipamentos médico-hospitalares e 80% das vacinas
também têm comprador estatal. O peso do Estado nos negócios dos
laboratórios e outras empresas do ramo é uma arma que o Ministério da
Saúde quer explorar em favor do interesse público e nacional. Com este
objetivo, prepara proposta que permita ao governo arrancar das
multinacionais acordos de transferência de tecnologia e remédios mais
baratos, por exemplo.
Para o ministro José Gomes Temporão,
aproveitar o poder de barganha estatal ajudará o país a reverter a
dependência tecnológica de empresas estrangeiras – da década de 80 a
2006, o custo da dependência subiu oito vezes e causou no ano passado
prejuízo de US$ 5 bilhões. Ao mesmo tempo, incentivará uma atividade
econômica capaz de gerar renda para a população – há 2,5 milhões de
trabalhadores só em estabelecimentos médicos.
“Temos que usar
melhor essa capacidade do Estado [de barganhar]. A saúde é um grande
espaço de criação de riqueza e emprego”, disse Temporão nesta
quarta-feira (9), durante audiência pública na Comissão de Assuntos
Sociais (CAS) do Senado.
A recente quebra de patente de
medicamento usado no tratamento da Aids já foi um exemplo de uso da
força do Estado em favor do interesse do país, segundo Temporão. Para o
governo, a medida teve um efeito psicológico sobre as multinacionais
que facilitará a obtenção de concessões. O ministro está negociando com
uma multinacional, também fornecedora de medicamento de tratamento de
Aids, e disse que se aproxima de um “excelente acordo”.
A quebra
da patente foi elogiada, na audiência, até por adversários do governo,
sejam de partidos de direita ou de esquerda. “Foi um gol de placa, uma
demonstração de soberania”, disse o senador Jayme Campos (ex-PFL-MT).
“Não se pode ter condescendência com quem só pensa no lucro”, afirmou
José Nery (PSOL-PA).
Aborto, álcool e verba
No debate,
o ministro apresentou planos e linhas de atuação que pretende adotar no
cargo. E mostrou disposição para enfrentar temas polêmicos, como
aborto, propaganda de bebidas alcoólicas e ampliação dos recursos para
a saúde.
No dia em que o Papa Bento XVI chegou ao Brasil e
condenou o aborto, insistiu que o assunto é questão de saúde pública,
não filosófica ou religiosa. A clandestinidade das cirurgias ameaça a
vida milhares de grávidas. “As mulheres ricas resolvem de maneira fácil
e discreta, e a mulheres pobres sofrem até conseqüências psicológicas”,
disse o ministro.
Para ele, as feministas precisam entrar no
debate, que até agora teria um “viés machista”, dado o predomínio de
vozes masculinas.
A posição do ministro, que poderia ser
explorada por adversários do presidente Lula para enfrentamento
político, produziu manifestação afinada por parte de um dos mais
radicais opositores do governo no Senado. “É um problema que
infelizmente nós da sociedade viramos as costas [para ele]”, disse
Heráclito Fortes (ex-PFL-PI).
Temporão também viu reações
alinhadas com a sua, ao defender restrições à propaganda de bebida
alcoólica como existe com cigarro e dizer que vai trabalhar para que
isso aconteça. “Álcool é um problema grave de saúde pública”, disse.
“Temos de debater nesse país que alcoolismo é doença, não podemos fazer
propaganda de doença”, afirmou o senador Augusto Botelho (PT-RR).
Outras
prioridades apontadas pelo ministro foram o fortalecimento das
farmácias populares (vendem remédio a preço baixo) e do programa de
saúde da família (agentes comunitários vão à casa das pessoas cuidar
delas) e a melhoria da qualificação e dos salários dos servidores da
saúde.
São planos que dependem de mais recursos, apesar de o
ministro considerar que há muita ineficiência nos gastos do setor. Daí
a reivindicação de mais verba. “É evidente que o setor de saúde é
subfinanciado. Para cumprirmos a Constituição, precisa de mais”,
afirmou.
Para reforçar o caixa, Temporão começou a negociar no
governo a regulamentação de dispositivo da Constituição que pode
ampliar em R$ 10 bilhões o orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Carta Maior publicará uma reportagem específica sobre esta negociação nos próximos dias.





















