Onde há pobreza, realidade vale mais que dogmas, dizem padres
Publicado em 27/11/2006 16:53
Para os padres Jaime Crowe, no Jardim Ângela, periferia de São Paulo, Edilberto Sena, na periferia de Santarém, Pará, e Luis Tonetto, no semi-árido baiano da região de Juazeiro, a realidade de violência e pobreza de seus paroquianos tem muito mais peso sobre a prática pastoral do que as premissas de Bento XVI.
Verena Glass - Carta Maior
SÃO
PAULO - Jardim Ângela, bairro da zona sul de São Paulo, já foi
considerado pela ONU o “lugar mais violento do mundo” por conta da taxa
anual de 116,23 assassinatos para cada 100 mil habitantes em 2000.
Hoje, muito em função do trabalho do pároco James Crowe – ou padre
Jaime, como é conhecido, o título não é mais do bairro.
Irlandês
de nascença, padre Jaime chegou ao Brasil em 1969 a assumiu a paróquia
Santos Mártires e seus 40 mil paroquianos, no Ângela, em 1986. Desde
então, tem coordenado uma série de projetos de inclusão social que
mudaram visivelmente a situação de violência na região, valendo-lhe o
Prêmio USP de Direitos Humanos em 2005.
Reunido esta semana em
Campinas com um grupo de religiosos de toda a América Latina para
elaborar um documento sobre dependência química, que deverá ser
entregue ao Papa nesta sexta (11), padre Jaime não está entre os
entusiastas incondicionais de Bento XVI; principalmente em função de
seus posicionamentos conservadores pouco condizentes com a realidade da
periferia paulistana. “O Papa é sinal de unidade [da Igreja Católica],
mas não temos que baixar a cabeça e dizer amém para tudo que ele fala.
O Papa não conhece o Jardim Ângela...”, pondera.
Esta também é a
posição do padre Edilberto Sena, cuja paróquia, na periferia de
Santarém, no Pará, é responsável por um “rebanho” de cerca de 2,5 mil
pessoas. Santarém, e principalmente sua periferia, tem se tornado um
pólo de pobreza e conflitos com a crescente ofensiva de grandes
plantadores de soja sobre a floresta amazônica; tanto por conta da
expulsão dos pequenos agricultores do campo, que têm inchado os bolsões
de miséria da cidade, quanto pelo embate entre os sojeiros e os
movimentos sociais que lutam pela preservação da floresta.
Padre
Edilberto é um dos integrantes da lista de religiosos ameaçados de
morte no Pará – que inclui ainda o bispo da prelazia do Xingu, Dom
Erwin Kräutler, frei Henri des Roziers, de Xinguara, padre José Amaro
de Souza, de Anapu, e padre José Boeing, também de Santarém. Diretor da
Radio Rural do município, Edilberto é um dos que encabeça a briga
contra sojeiros, grileiros e madeireiros ilegais na região, o que lhe
valeu no ano passado, além da ameaça de morte, o convite para receber
na Índia o prêmio Mahatma Gandhi por sua luta contra a devastação da
Amazônia.
Tanto para Jaime quanto para Edilberto, a concepção
européia de Igreja de Joseph Ratzinger tem uma evidente distância da
realidade de suas paróquias, o que se evidencia em suas práticas
pastorais cotidianas. Para eles, o segundo casamento de pessoas
divorciadas, condenado por Bento XVI em março passado, por exemplo,
nunca foi um problema espiritual. “Se existe uma união estável aqui,
damos graças a Deus. No Jardim Ângela, 70% das famílias são
incompletas, é uma mãe com três, quatro filhos de pais diferentes. O
segundo casamento não é um tema para nós”, diz Jaime.
“Essa
regra não é bíblica ou evangélica. Não me sinto impedido pelo Papa, se
um casal de segundo casamento, que está integrado à nossa comunidade,
quiser comungar. Nós, que trabalhamos com o povo, vivemos muitas
situações imprevistas. Nesse sentido, usamos o princípio da epiquéia [o
eventual, oportuno e prudente afastamento da letra da lei] do direito
canônico, que autoriza aquele que está na base a julgar o que é
melhor”, acrescenta Edilberto.
Segundo ele, o padre que lida com
comunidades em situação de fragilidade social tem de usar acima de tudo
o bom senso. “Aqui, por exemplo, a sexualidade entra muito cedo na vida
dos jovens, e não é o padre que vai dizer que não pode usar camisinha.
O problema maior não é a camisinha, são crianças gestando crianças; é
uma questão de saúde pública”, afirma. E conclui: “a Igreja tem o papel
de zelar pela presença cristã no mundo, e cria sua moral para isso como
um guia de comportamento. Mas pessoalmente, com 35 anos como padre,
tiro minha responsabilidade moral da fé e da confiança na figura de
Jesus Cristo e no evangelho. Acredito que o Papa tenha suas regras
básicas, mas a prática pastoral tem de ser adaptada à realidade local” .
Já
padre Jaime se diz preocupado com uma rigidez excessiva de Bento XVI,
uma vez que a função da Igreja é a de acolher e incluir. “Jesus acolheu
a mulher em adultério; que atirasse a primeira pedra quem não tivesse
pecado. O povo [da periferia] já é tão excluído e rejeitado
socialmente... se a Igreja repetir este comportamento não estará
cumprindo o evangelho”.
Teologia da Libertação
Em
Senhor do Bonfim no sertão da Bahia, região de semi-árido entre Feira
de Santana e Juazeiro, os problemas da comunidade do padre Luiz Tonetto
não advêm tanto da violência descontrolada das periferias urbanas ou da
grilagem de terras. São a fome dos pequenos agricultores, a falta de
perspectiva, o desemprego, problemas estruturais de um campo
oligárquico que mantém imutáveis as diferenças e injustiças sociais,
diz.
Em municípios como Umburana e Mirangaba, parte da base de
sua paróquia, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é
um dos mais baixos do país e a população é paupérrima. “Mas aqui a
pobreza se origina da concentração de terra, que também dá origem aos
trabalhadores escravos aliciados no Oeste da Bahia, em Goiás e até em
São Paulo; e ao trabalho infantil na produção do sisal”, conta padre
Luiz. Na sua região, complementa, casamento gay ou aborto não são uma
questão importante. A preocupação é mesmo a mudança das condições
sociais do povo, a partir de suas demandas e com a sua participação.
Claramente
fundamentada na Teologia da Libertação, a prática pastoral dos padres
Jaime, Edilberto e Luis segue uma linha que não tem sido vista com bons
olhos por João Paulo II, e agora sofre ataques também de Bento XVI –
que, ainda em 1984, enquanto Cardeal Ratzinger, se posicionou duramente
contra ela.
“Aquele posicionamento criou um grande desconforto
para nós e gerou um esfriamento do trabalho pastoral”, afirma Luis. Já
a recente condenação do teólogo salvadorenho Jon Sobrino, por suas
proposições não estarem “em conformidade com a doutrina da Igreja", foi
duramente criticada e considerada pelos três padres um ato de
intolerância e autoritarismo.
Agora, pondera Luis, o Papa traz
uma discussão espiritual que não olha as pragas da vida humana,
fortalecendo uma tendência dos tempos de neoliberalismo que leva à
busca da espiritualidade como mercadoria, para uma satisfação
individual. “Há uma preocupação muito grande em cumprir pequenas leis e
regras, e não se tem mais o senso pastoral. Está se criando um ambiente
que dificulta o trabalho que transforma a sociedade”.
Edilberto
é mais enfático na crítica à posição de Bento XVI sobre a Teologia da
Libertação. “É uma visão vesga e européia de um patrimônio teológico e
ideológico da Igreja. Para ela só serve a teologia de São Thomas de
Aquino. Neste Papa vejo uma concepção teológica inflexível, que não
aceita as diferentes relações com Deus. Ignorar que a América Latina
vive a desigualdade de forma aguda? A Igreja deveria se perguntar como
fazer a vontade de Deus nessa realidade”.
Questionados se também
comungavam da “febre de ver o Papa”, os padres Edilberto e Luis
desconversaram. “Estou muito ocupado aqui na Radio Rural”, brinca
Edilberto. “Eu não tenho todo este afeto por ele. Rezo sempre pela
unidade da Igreja, mas não tenho toda essa ânsia de ver o Papa”, diz
Luis.
Padre Jaime será o único a encontrar o Pontífice nesta sexta, em Aparecida. Para entregar um documento.























