Governo ve expansão nuclear como opção para geração de energia
Publicado em 27/11/2006 16:53
Além de Angra 3, representantes do setor energético nuclear do governo defendem construção de até outras oito novas usinas no país como fonte alternativa de energia. Grupos socioambientais são contra a proposta.
Natália Suzuki - Carta Maior
SÃO
PAULO – Diante dos problemas trazidos pelo aquecimento global, a
emissão de gases provocadores do efeito estufa (GEE) é uma das
principais metas a ser atacada na tentativa de mitigar as implicações
das mudanças climáticas no planeta. A redução do uso de combustíveis
fósseis – carvão e petróleo – para a geração de energia e o emprego de
fontes alternativas são apontados como as principais ações para um
modelo sustentável de produção energética.
A ampliação da
energia nuclear no Brasil é uma das opções que ressurge como proposta
pelos setores energéticos do país. O movimento socioambiental é
veementemente contra a idéia por temer os riscos de acidente e o
problema do lixo radioativo.
Atualmente, a energia nuclear
corresponde a 2,4% da produção energética brasileira, gerados pelas
usinas Angra 1 (657 megawatts) e Angra 2 (1350 megawatts). A principal
matriz do Brasil é a hidroeletricidade (80%). A intenção é aumentar a
capacidade nuclear com a instalação de Angra 3 em 2012.
Há
cerca de uma semana, em audiência pública da Comissão de Minas e
Energia, o presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva,
disse que a construção de Angra 3 está prevista no Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Segundo ele, assim,
como Angra 2, a sua geração será de 1.350 megawatts.
“Para o
Brasil crescer e democratizar a sua energia, o país não pode e não deve
abrir mão de nenhuma forma energética. A nuclear vai ajudar o
desenvolvimento sustentável através do fornecimento de energia limpa, a
preço competitivo, com total gestão sobre seus rejeitos e contribuindo
fundamentalmente para a redução dos GEEs”, defendeu o diretor da
Eletronuclear, Roberto Travassos, no 2o Congresso Ibero-Americano sobre
Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu em São Paulo entre os dias
24 a 26 e abril.
Segundo Travassos, além de Agra 3, para 2030
está planejada a construção de mais duas usinas nucleares na região
sudeste e outras duas no nordeste. “Dependendo do crescimento da
economia, esse número de quatro usinas, pode subir para oito”, prevê o
diretor da Eletronuclear.
Apesar de a matriz energética
brasileira estar concentrada na hidroeletricidade, Travassos lembra que
há uma dificuldade para a construção de outras grandes hidrelétricas na
região norte, onde o potencial hidrelétrico é o maior do país, porque
40% dessas terras são demarcadas como territórios indígenas ou reservas
ambientais. Essa seria uma das principais razões para o Brasil adotar a
opção nuclear.
O orçamento estimado pela estatal é de que serão
necessários US$ 1,8 bilhão para finalizar Angra 3. “O projeto está
sendo apreciado no CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) e
estamos aguardando um posicionamento do governo para a sua retomada”,
diz Travassos. Segundo ele, o EIA-Rima (estudo e relatório de impacto
ambiental) de Angra 3 está submetido ao Ibama. “Em relação ao
licenciamento nuclear, por (Angra 3) ser uma cópia quase fiel de Angra
2, estamos bastante confiante que não haverá problemas, a grande
diferença entre elas é sua instrumentalização digital”, avalia.
Custos
Um
dos principais pontos de discordância entre os defensores da energia
nuclear e os socioambientalistas são os custos desse tipo de matriz.
Guilherme
Leonardi, coordenador da campanha de energia antinuclear do Greenpeace,
garante que, com os investimentos a serem gastos em Angra 3, é possível
construir parques eólicos num período de um a dois anos. Os custos
poderiam chegar até US$ 7 bilhões. “A implantação de Angra 3 não é
viável. A energia nuclear é extremamente cara no Brasil e no mundo. Se
quiserem suprir a demanda energética, há outras mais baratas, como a
eólica, solar e a biomassa, que não produzem lixo radioativo. O Brasil
tem bastante potencial para gerar energia sustentável”.
“Essa
matriz não é limpa e sim suja. Ela produz lixo radioativo e até hoje
não tem soluções para esse tipo de rejeito. Não se pode trocar um
problema pelo outro”, avalia Leonardi.
O diretor da
Eletronuclear enfatiza que o fato de o Brasil ter grandes reservas de
urânio colabora para se reduzir os custos da energia nuclear. Segundo
ele, apenas um terço do território foi prospectado para a extração do
material e, até então, o país conta com 309 mil toneladas. “Se Angra
1,2 e 3 estiverem em funcionamento, elas podem operar por 500 anos com
essa quantidade de urânio”, calcula Travassos. O Brasil é o sexto país
em reservas de urânio.
No mundo
Atualmente, 31 países
operam usinas nucleares; são 443 no total e existem outras 38 em
construção em 15 países, incluindo Angra 3 no Brasil.
Segundo
Roberto Travassos, diretor da Eletronuclear, os Estados Unidos, que é o
maior gerador de energia nuclear, tem feito pequenos investimentos para
alongar a vida útil de 48 das suas 104 usinas por mais 20 anos. Mais 20
outras estariam em revisão.
Para Leonardi, “a energia nuclear
vem caindo no mundo todo”. O ambientalista menciona exemplos como a
Alemanha, Espanha e Suécia que, gradativamente, estão abandonando a
matriz. “Esses países já optaram por abrir mão desse tipo de energia”,
diz.























