Governo Lula decide quebrar patente de remédio anti-Aids
Publicado em 27/11/2006 16:53
LEILA SUWWAN
da Folha de S.Paulo, em Brasília
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu autorizar o licenciamento
compulsório do remédio Efavirenz, o que, na prática, representa a
quebra da patente do medicamento. A decisão, que segue recomendação do
Ministério da Saúde, será anunciada hoje em cerimônia às 12h no Palácio
do Planalto.
Após recusar a contraproposta de desconto de 30%,
feita pelo laboratório Merck Sharp&Dohme, um dos maiores do mundo,
o ministro José Gomes Temporão (Saúde) enviou ontem ao Palácio do
Planalto a proposta de licenciamento compulsório do antiretroviral,
usado hoje por cerca de 75 mil pacientes de Aids na rede pública, a um
custo de US$ 43 milhões por ano.
Com o licenciamento
compulsório, o país pode tanto iniciar a produção nacional da droga
como importar genéricos. Sem isso, só a Merck poderia vendê-lo no país,
pois é dona da patente do medicamento aqui, o que significa
exclusividade de comercialização.
Embora a decisão não tenha
sido anunciada oficialmente, foi confirmada informalmente por
assessores da Presidência e consta na agenda de Lula como "cerimônia de
assinatura de ato de licenciamento compulsório de medicamento
antiretroviral". Procurada pela Folha por volta das 21h, a Merck declarou que não havia sido informada.
Será
a primeira vez que o Brasil licencia um remédio protegido por patente
--já houve ameaças em 2001 e 2003, relativas ao Nelfinavir (Roche) e ao
Kaletra (Abbott). E até hoje, poucos países fizeram isso --como
Tailândia, Moçambique, Malásia e Indonésia. No caso da Tailândia, o
país enfrenta retaliações do laboratório Abbott e até do governo
norte-americano.
"Já tivemos reuniões demais com o
laboratório. Em nenhum momento apresentaram uma proposta séria e
consistente", disse Temporão, que evitou, porém, confirmar a decisão.
Para ele, "é pouco provável" que ocorram novas negociações.
Participaram
da decisão também a Casa Civil e o Ministério das Relações Exteriores.
A Folha apurou que o laboratório não tem condições de apresentar preços
menores ao governo e deve ir à Justiça para manter a patente. Segundo
executivos da Merck, a empresa tenta, desde o último dia 24 de abril,
realizar reuniões para explicar melhor seus motivos e encontra portas
fechadas no ministério.
O Brasil tenta desde novembro
pressionar o laboratório Merck, sem sucesso, a reduzir o preço do
Efavirenz de US$ 1,59 para US$ 0,65 por comprimido de 600mg. Na semana
passada, o Ministério da Saúde declarou o medicamento de "interesse
público" e anunciou a intenção de comprar a versão genérica da Índia
por um preço de US$ 0,45 por comprimido.
A economia estimada
seria de US$ 30 milhões por ano. Mesmo assim, foi dado um prazo para a
Merck fazer uma contraproposta. Na última sexta, o laboratório ofereceu
um desconto de 30%, que foi considerado "insuficiente" pelo governo,
segundo Temporão.
Além disso, o desconto seria válido até
2010, não 2012, data em que a patente expira. O licenciamento prevê o
pagamento de 1,5% em royalties como remuneração à Merck por ter
inventado o remédio. Além disso, o Brasil fica vedado de comercializar
o produto.
O país tem estoque do Efavirenz da Merck até
agosto. E afirma que não haverá desabastecimento porque três
fabricantes da Índia, os laboratórios Ranbaxy, Cipla e Aurobindo, já
foram consultados sobre o fornecimento para o país. Esses genéricos são
pré-qualificados pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Colaboraram EDUARDO SCOLESE, da Sucursal de Brasília e FABIANE LEITE, da Revista da Folha























