Brasil perde mais de R$ 20 bilhões com mortes violentas
Publicado em 27/11/2006 16:53
A violência é um dos maiores problemas enfrentados atualmente pela
sociedade brasileira. De acordo com o último levantamento realizado
pelo Ministério da Saúde, o homicídio é a principal causa de morte no
Brasil. Além do desrespeito contra o ser humano, a brutalidade que
apavora o cidadão brasileiro também prejudica a economia do país. Do
ponto de vista econômico, cada vítima da violência significa perda de
investimentos em capital humano e de capacidade produtiva. De acordo
com pesquisa divulgada esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), só em 2001, as mortes causadas por fatores externos,
geraram uma perda de R$ 20,1 bilhões à economia brasileira.
Com
o objetivo de fornecer bases para a melhoria das políticas públicas, o
estudo "Custos das Mortes por Causas Externas no Brasil" estima o custo
social gerado ao país com a perda de capital humano. A partir da base
de dados de renda dos trabalhadores (IBGE) e dos levantamentos de
óbitos do Ministério da Saúde, a pesquisa calculou o valor total dos
rendimentos que os indivíduos receberiam caso continuassem vivos nos
próximos anos de vida produtiva (dos 15 aos 65 anos). A pesquisa foi
feita em conjunto por três pesquisadores do Ipea e um da Escola
Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE).
Para se ter uma
idéia do prejuízo anual gerado pela violência, o custo resultante das
mortes em 2001 é quase quatro vezes maior do que a totalidade dos
gastos globais do Ministério da Justiça no ano passado, órgão
responsável por partes das políticas nacionais de segurança no país. Os
óbitos registrados resultaram em um total de 4,96 milhões de anos de
vida perdidos. No período analisado pelos pesquisadores só as mortes
por agressões (homicídios), geraram um prejuízo de R$ 9,1 bilhões, só
em termos de perda de produtividade humana. O valor supera, por
exemplo, o orçamento deste ano previsto para o Ministério da Integração
Nacional.
Nos últimos 25 anos o número de registros de
homicídios no Brasil apresentou um aumento médio anual de 5,6%, o que
posicionou o país entre os mais violentos do planeta, com uma taxa de
28 homicídios para cada 100 mil habitantes. Nesse período, ocorreram
794 mil assassinatos. De acordo com os dados mais recentes do
Ministério da Saúde, que data de 2004, durante o período foram
registradas mais de 48 mil mortes por agressão em todo o Brasil.
Segunda
maior causa de mortes no país, os acidentes de trânsito aumentaram 9%
em três anos, matando 35.753 apenas em 2005. De acordo com a pesquisa
do Ipea, os custos oriundos dos óbitos resultantes da imprudência nas
estradas superam os R$ 5 bilhões. As causas das preocupantes
estatísticas estão relacionadas sobretudo ao consumo excessivo de
bebidas alcoólicas, alta velocidade, não uso de capacetes ou de cinto
de segurança e problemas na infra-estrutura de rodovias e vias
públicas.
Outro fator que gera preocupação são os suicídios,
que embora representem um número significativo de mortes, “parecem se
tratar de uma questão invisível socialmente no Brasil”, como salientam
os autores da pesquisa. Cerca de 7.800 pessoas se suicidam por ano.
“Ainda que a magnitude dessas ocorrências seja bastante inferior aos
homicídios e acidentes de transporte, pouco se discute este problema”,
ressaltam os pesquisadores.
Desde 1990, o número de suicídios
cresceu 59,2% superando inclusive o crescimento dos homicídios (55,2%)
e dos acidentes de transporte (17%), indicando tratar-se de um problema
sério de saúde pública, para o qual não há política clara. A perda de
capital produtivo hmano oriunda das mortes dessa natureza ocorridas em
2001 chegou a R$ 1,3 bilhão.
Os pesquisadores também calcularam
as perdas médias de produção por vítima da violência em 2001. Nesse
caso, os homicídios apresentam as maiores médias: R$ 189,5 mil para o
ano de 2001. Já a perda média por vítima de acidentes de transporte
gerou uma perda de produção média de R$ 172 mil. A perda individual
resultante das mortes por homicídios, segundo a pesquisa, é maior pelo
fato das vítimas serem de faixas etárias mais baixas e
predominantemente do sexo masculino (com rendimentos de trabalho mais
altos). Isso sem contar que a maior parte delas reside nas áreas
urbanas, onde a renda tende a ser maior.
Além dos custos
resultantes de perda de capital humano, os pesquisadores destacam que
outros prejuízos sociais decorrentes da violência no Brasil precisam
ser estimados. “Do ponto de vista da demanda, por exemplo, o medo, a
dor e o sofrimento mudam o comportamento, fazem diminuir a demanda por
determinados bens e serviços e geram perdas patrimoniais nos mercados
imobiliários localizados em regiões com maior prevalência de incidentes
violentos”, ressaltam os estudiosos. Segundo eles, entender
precisamente as conseqüências e os custos da violência no Brasil é uma
questão crucial tanto para o balizamento de políticas públicas de saúde
e de segurança, quanto para a melhor aplicação dos recursos públicos.
Veja o estudo na íntegra.
Mariana Braga
Do Contas Abertas























