Agências reguladoras possuem 75% do orçamento 2007 bloqueado
Publicado em 27/11/2006 16:53
Criadas no período de privatizações como órgãos independentes do
governo com o objetivo de intermediar as relações entre o público e o
privado, as agências reguladoras parecem se distanciar cada vez mais da
função para a qual foram instituídas. Falta de autonomia, carência de
pessoal e restrições orçamentárias são apenas alguns dos problemas que
atingem em cheio o funcionamento de tais órgãos, deixando vulnerável o
capital aplicado na privatização de estatais.
As
interferências do governo na atividade das agências já começa na
definição da verba disponível. Dos R$ 7,1 bilhões autorizados em
orçamento para todas as agências reguladoras do país este ano, R$ 5,3
bilhões (75%) fazem parte da chamada “reserva de contingência”, uma
espécie de limite orçamentário imposto pelo Executivo para garantir o
superávit primário no fim do ano. Ou seja, três quartos da verba
destinada aos órgãos reguladores para gastos com pessoal, despesas
correntes e investimentos estão congelados em 2007. Os dados são do
Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).
O
orçamento das entidades reguladoras também foi vítima brutal dos
contingencimentos impostos em 2005 e em 2006. Dos R$ 11,6 bilhões
autorizados para o período, R$ 8,5 bilhões engordaram a reserva de
contingência da União. O valor equivale a 73% dos recursos destinados
ao setor. Os problemas, no entanto, não se limitam ao orçamento.
Algumas agências possuem dificuldades para preencher todos os cargos
dos conselhos diretores e parte delas ainda é acusada de servir de
cabide de emprego de militantes de partidos e sindicatos.
A
Agência Nacional do Petróleo (ANP) é o órgão regulador que dispõe de
maior verba para este ano. Porém, 90% da quantia faz parte da reserva
de contingência, isto é, dos R$ 3,2 bilhões autorizados para 2007, R$
2,9 bilhões estão congelados. Situação semelhante acontece na Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel). O orçamento autorizado para o
ano é de R$ 2,4 bilhões, sendo que R$ 2 bilhões (85%) estão
contingenciados e, por isso, não podem ser utilizados, a não ser que o
governo, no decorer do ano, decida abrir um pouco mais o bolso. A
Agência Reguladora de Energia Elétrica (Aneel) também não escapou das
limitações impostas pelo Executivo. Dos R$ 414,9 milhões, R$ 256,3
(62%) não podem ser utilizados, para contribuir com as metas
superavitárias do ano.
Além dessas, outro órgão regulador que
possui reserva de contingência em seu orçamento para 2007 é a Agência
Nacional de Águas (ANA). As outras quatro agências do país - Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS), Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e
Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) - não possuem verba
congelada, porém recebem menos recursos que as demais (ANP, Anatel e
Aneel).
O diretor do Centro de Estudos de Regulação da
Universidade de Brasília (UnB), Paulo Coutinho, acredita que o
contingenciamento vem prejudicando o setor. “Os recursos em
investimento de capacitação e consultoria estão reduzidos. Vários
trabalhos estão atrasados por falta de verba”, afirma.
Segundo
ele, a remuneração dos funcionários das agências é baixa. “Os
trabalhadores deveriam receber melhores salários, pois possuem alta
qualificação técnica e ocupam cargos de muita responsabilidade. Várias
agências são desfalcadas porque os funcionários passam em outros
concursos públicos em busca de melhores salários”, diz. Ele sugere que
o vencimento da classe seja equiparado ao do Executivo.
Recursos insuficientes
O
superintendente de administração geral da Anatel, Marcelo Andrade
Pimenta, disse que o orçamento autorizado da agência para este ano é de
R$ 358 milhões. Segundo ele, os R$ 2,4 bilhões que constam no Siafi
para órgão são, na verdade, destinados ao Fundo de Fiscalização das
Telecomunicações (Fistel) como um todo e não apenas para a Anatel.
Pimenta afirmou ainda que a Anatel não enfrenta problemas com vacância
nos cargos do conselho. “O Senado sabatinou e aprovou dois indicados
pelo presidente Lula em abril e maio deste ano, o atual
procurador-geral da agência, Antônio Bedran, e o embaixador Ronaldo
Sardenberg”.
Já a assessoria de imprensa da ANP disse “que os
números do Siafi merecem uma explicação”. Em resposta enviada ao Contas
Abertas, disse que a agência tem, por lei, direito a receber 28% das
participações especiais, que são pagas pelas empresas que exploram
campos de petróleo de grande produção ou alta lucratividade. Esse
dinheiro, segundo a assessoria, nunca foi repassado na íntegra para a
ANP e, por isso, “não se pode medir o contingenciamento de verbas da
entidade tendo por base esses recursos”.
A assessoria alega que
o contingenciamento tem que ser calculado sobre o orçamento sugerido
pela ANP. Segundo o órgão, nos últimos anos o percentual variou: 30% em
2000, 70% em 2001, 43% em 2002, 53% em 2003, 10% em 2004, 13% em 2005,
1% em 2006 e, para este ano, a previsão inicial é de 30%. Quanto à
diretoria da agência, a assessoria informou que o colegiado é composto
por cinco integrantes, mas que atualmente há um cargo vago.
A
Aneel afirma que, diferente do que consta no Siafi, R$ 414,9 milhões, o
orçamento efetivamente disponível este ano para a agência é de R$ 158
milhões. No entanto, não soube explicar o porquê do sistema financeiro
oficial do governo registrar uma quantia tão superior. Segundo a
assessoria, o dinheiro serve para gastos com manutenção e fiscalização,
incluindo despesas com pagamento de pessoal. Quanto à diretoria, a
agência informou que todos os cinco cargos estão preenchidos.
O
Contas Abertas (CA) também entrou em contato com o Ministério do
Planejamento para saber o porquê do valor da reserva de contingência
das agências reguladoras ser tão alto. A pasta informou que os
responsáveis pela elaboração do orçamento e, conseqüentemente, do valor
contingenciado, são os ministérios aos quais as agências são
vinculadas. Até o fechamento da matéria, nem o Ministério das
Comunicações nem a Pasta de Minas e Energia responderam ao CA sobre a
Anatel, ANP e Aneel.
Clique aqui para ver o orçamento das agências reguladoras para 2007.
Leandro Kleber
Do Contas Abertas























