A guerra particular da Merck
Publicado em 27/11/2006 16:53
Depois de embarcar de cabeça no lobby da Merck Sharp & Dome e na
Amcham, parte da imprensa começa a se informar melhor e a reavaliar a
cobertura pavloviana da quebra de patente do Efivarenz. Aliás, embarcou
no lobby por duas razões: reflexo pavloviano na hora de cobrir temas
como quebra de patente (como se toda quebra de patente fosse igual); e
releases com chavões inconsistentes, mas que não foram checados. Agora,
pelo menos a "Folha" começa a rever a cobertura parcial do primeiro dia.
Houvesse um pouco mais de informação sobre o tema, antes de sair reproduzindo a cobertura, teriam anotado que:
1. Existem normas específicas na OMC (Organização Mundial do Comércio)
para quebra de patentes. E o Brasil seguiu as normas. É diferença entre
água e vinho.
2. O fato de a decisão ter sido embasada em reuniões do Ministério da
Saúde com Relações Exteriores, Casa Civil e MDIC (Ministério do
Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior), e de ter seguido as
normas da OMC, era mais do que um indício de que não tinha sido tomada
de afogadilho e que tinha embasamento.
3. Nem a Merck nem a Amcham fala pelo governo americano. Muito menos
pela opinião pública americana. No final de semana, todas as ameaças de
ambas foram reproduzidas acriticamente, como se, pelo fato de serem
americanas, fossem porta-vozes dos EUA. Nem se considerou que na época
da ameaça de quebra de patentes, no governo FHC, a opinião pública
americana ficou a favor do Brasil.
4. É ridícula a ameaça de redução de investimentos externos no Brasil.
No setor farmacêutico, não há o que reduzir: o investimento é próximo
de zero. Nos demais setores, não houve insegurança jurídica nenhuma, já
que se apelou para normas da OMC específicas para medicamentos.
5. A indústria farmacêutica estrangeira no Brasil tem um problema sério
de representação. Na época da ameaça de quebra de patente, quando o
então Ministro da Saúde José Serra disse que “não trataria com
lobistas” (referindo-se à então Abifarma), houve uma troca geral de
dirigentes de laboratórios estrangeiros no Brasil. Na época conversei
com um deles, que me disse que tinha terminado o tempo em que
laboratório só tratava com lobista que encontrava espaço para vendas no
Ministério da Saúde. Não foi o que aconteceu, conforme o episódio
demonstrou. A Interfarma é um pouco melhor, a Febrafarma (que
substituiu a Abifarma) é inexpressiva, e os dirigentes de laboratórios,
em geral, não têm estratégia, jogo de cintura nem autonomia para tratar
com governo e opinião pública. Representantes de multinacionais em um
país tem que ter um mínimo de conhecimento político e diplomático. Mas
continuam atuando apenas no circuito dos operadores de Ministério.
6. A arrogância com que a Merck tratou as negociações com a Saúde (sete
reuniões fincando o pé em desconto de 2% nos preços) é de uma
incompetência a toda prova. O curioso é que os mesmos que cobravam
atitudes duras contra um índio desgovernado, como Evo Morales, não
levam em conta o absurdo da falta de jogo de cintura da empresa em
tratar com a autoridade máxima de saúde do Brasil. Foi necessária a
intervenção do embaixador americano –quando o incêndio já lavrava— para
o presidente mundial da Merck entrar no circuito. Se a Merck for uma
empresa eficiente, não tenha dúvida de que ou rolarão pescoços na Merck
Brasil ou em áreas nos EUA onde ela estava subordinada. Por US$ 35
milhões de arrogância, o laboratório abriu uma brecha monumental para o
início de uma política efetiva industrial brasileira para a área.
7. O programa brasileiro de AIDs é reputado no mundo todo. Tem muito melhor reputação do que a Merck.























