À espera do papa, médicos criticam Igreja e discutem aborto
Publicado em 27/11/2006 16:53
Por Terry Wade
SÃO PAULO (Reuters) - Médicos de uma clínica de saúde pública em um bairro carente de São Paulo deixam seu trabalho todos os dias sabendo que muitas das suas pacientes grávidas -- imigrantes bolivianas, moradoras de favelas e prostitutas -- farão abortos inseguros, desenvolverão infecções uterinas e, em casos extremos, morrerão.
A dias da visita do papa Bento 16 ao país, os médicos da clínica, na zona leste da capital paulista, culpam os líderes católicos por prejudicarem a saúde das mulheres e a luta contra a Aids.
No Brasil, os médicos podem ser cassados por fazer abortos ilegais ou mesmo por encaminhar as mulheres às clínicas clandestinas que atendem a população de classe média alta.
Quando uma paciente pobre quer interromper uma gestação indesejada, os médicos são então pegos em um dilema moral. "Isso nos coloca numa posição horrível", disse Ruth Loreto Sampaio de Oliveira, ginecologista do Centro de Saúde Escola Barra Funda. "Tivemos pacientes que morreram depois de recorrerem a abortos arriscados."
As mulheres de baixa renda muitas vezes induzem abortos com um medicamento chamado misoprostol, vendido ilegalmente por ambulantes nas ruas de São Paulo. Algumas exageram na dose, rompendo o útero. Outras confiam em poções caseiras que contêm peróxido, que causa queimaduras, ou em aparelhos improvisados.
O sofrimento, segundo os médicos, poderia ser evitado. Eles esperam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desafie a Igreja no quesito aborto, agora que ele não tem mais que disputar a reeleição.
Seu ministro da Saúde, José Gomes Temporão, quer um referendo sobre o tema, embora as pesquisas mostrem que os brasileiros rejeitariam a concessão de mais opções à mulher. Mesmo assim, líderes antiaborto temem que se repita no Brasil o mesmo que em Portugal, que liberou o aborto em um plebiscito em fevereiro, e a Cidade do México, que legalizou em abril. "Este ano está sendo preocupante para as pessoas que acreditam que a vida começa na concepção", disse Luiz Bassuma, presidente da frente parlamentar antiaborto.
CONFRONTO COM A IGREJA
As políticas públicas já se chocam com a doutrina da Igreja a respeito de planejamento familiar, ciência e Aids. O ministério da Saúde fornece pílulas anticoncepcionais e ligadura de trompas gratuitamente, além de autorizar abortos na rede pública em caso de estupro ou risco de vida para a mãe.
"A Igreja entra no caminho sempre que tentamos ampliar o acesso ao controle de natalidade, mas perdeu a batalha sobre a política para a Aids", disse a médica Tânia Lago, que dirige os programas de saúde feminina do Estado de São Paulo. "É uma doença que mata, então os políticos se dispuseram a enfrentar a Igreja."
O cardeal Geraldo Majella, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, demonstrou sua indisposição com a política pública, quando o governo distribui mais uma vez milhares de camisinhas antes do Carnaval deste ano.
"Não podemos concordar com preservativos, porque eles podem transformar a vida em vida sem responsabilidade", disse.
Os católicos, que representam 74 por cento dos brasileiros, parecem ignorar a doutrina. A frequência com que eles recorrem ao aborto e aos anticoncepcionais é a mesma dos não-católicos, segundo estudos.
"Há uma enorme lacuna entre o que os católicos pensam sobre a saúde reprodutiva e as regras que a hierarquia da Igreja defende", disse Dulce Xavier, da entidade Católicas pelo Direito de Decidir.
Os ensinamentos da Igreja sobre a abstinência sexual também parecem entrar por um ouvido e sair por outro no Brasil, país que só perde para a Grécia em uma lista dos que mais praticam sexo publicada recentemente.
"Se eu disser aos meus pacientes para praticar a abstinência, todo mundo riria da minha cara", disse Marta Campagnoni, médica que dá aulas de planejamento familiar na clínica da Barra Funda.























