Um G-8 contestado e sem horizonte
Publicado em 27/11/2006 16:53
O G-8 afunda na própria ilegitimidade de sua existência. Não é o convite para as tais potências emergentes, entre elas o Brasil, que vai resolver o seu problema. Só a volta ao mais genuíno multilateralismo pode apontar alguma saída.
Parece
coisa de minorias insatisfeitas. Mas o fato é que os(as) manifestantes
em Rostock, na Alemanha, são o grito de muita gente, de milhões e
milhões que não agüentam mais, mundo afora. As cenas, que se repetem
todas as noites diante de nossos olhos na pequena tela, são tristes e
lembram um clamor contido contra o que está sendo decidido lá dentro
dos muros. Afinal, por que os governos dos sete países mais
industrializados do mundo, mais a Rússia, precisam se isolar num lugar
tão distante de tudo, como o complexo turístico de Heiligendamm, e
protegidos por quilômetros de cercas e muros, com milhares de policiais
dispostos a reprimir qualquer manifestação? Algo está invertido nesta
história de bons mocinhos e maus bandidos. Quem está se escondendo?
O
G-7 e depois G-8, com a inclusão da Rússia, potência nuclear e
energética, nasceu no bojo da globalização neoliberal triunfante do
final do século XX. Representa o maior atentado contra a ONU e o
sistema multilateral, montado nas décadas de 1940 e 1950, no esforço de
conciliação e paz emergido da traumática II Guerra Mundial. O G-8
funciona como uma espécie de clube privado dos governos das nações mais
poderosas do planeta. É um lugar de concertação política, sem dúvida,
mas sem os indesejáveis, para manter e ampliar o poder e a dominação de
uns poucos sobre o mundo. Tudo sob o controle da maior potência
econômica e militar da atualidade, os EUA. O aparecimento do G-8 tem
como correlato um esforço de esvaziamento dos fundamentos ainda frágeis
do multilateralismo, expresso particularmente no sistema ONU. Na
prática, opera-se uma verdadeira privatização do poder mundial,
declaradamente como suporte à expansão das grandes corporações
econômico-financeiras, em sua estratégia de submeter o mundo a uma
lógica de mercados e de negócios globais.
O mal-estar com tudo o
que significa a globalização dominante vai criando força na segunda
metade da década de 1990. No início, poucos(as) se manifestavam. Mas,
devagar, uma onda gigante vai tomando corpo. Tudo o que era visto como
expressão da globalização neoliberal passa a ser alvo de coalizões de
entidades e movimentos cada vez mais amplos. Podem ser as reuniões
semestrais do Banco Mundial e FMI, as reuniões do clube G7+1, as
cúpulas da União Européia, as rodadas da novíssima OMC, os encontros
anuais do Fórum Econômico Mundial, de Davos. Multiplicam-se os eventos
de governos e empresas pró-globalização e, como contra-força,
amplificam-se os protestos antiglobalização dos(as) deixados(as) de
fora. A efervescência atinge um ápice na virada do século. Os marcos –
diferentes em conteúdo e forma, mas unidos umbilicalmente na expressão
da crescente insatisfação social com os rumos do mundo – são o bloqueio
cívico à conferência da OMC em Seattle, nos EUA, em fins de novembro e
início de dezembro de 1999, e a emergência do Fórum Social Mundial, em
janeiro de 2001, em Porto Alegre.
A partir daí, o triunfalismo
da globalização como modelo de desenvolvimento e vida cede lugar às
incontroláveis contradições e fraturas que a movem. Os governos
dominantes, quando se reúnem, evitam, de todas as formas, a proximidade
com a cidadania que os constitui. Esta é a situação em que se encontra
o G-8. Cada vez mais contestado. Cada vez com menos legitimidade. Mas
ainda poderoso. Desde alguns anos, o G-8 vem mudando a sua agenda
oficial, incluindo temas caros para a emergente cidadania planetária,
como o cancelamento da dívida externa, o enfrentamento da pobreza, a
atenção às regiões e países menos desenvolvidos.
Agora, no
calor do debate sobre a mudança climática, até isto entra na agenda.
Mas no fundo, o que interessa mesmo é a segurança e a ordem, para a
prosperidade dos negócios, bem entendido. É estranho o aparente esforço
do G-8 em ser aberto às demandas da cidadania ativa, reprimindo aquela
que se manifesta à sua porta. Promete-se muito e pouco se faz. O G-8,
com todo o seu poder, afunda na própria ilegitimidade de sua
existência. Não é o convite para as tais potências emergentes, entre
elas o Brasil, que vai resolver o seu problema. Só a volta ao mais
genuíno multilateralismo pode apontar alguma saída.
A humanidade
vai continuar a caminhar para um beco sem saída se os governantes
continuarem a lhe dar as costas e olhar mais para empresas e negócios.
Estamos diante de sinais claros de crise da civilização industrial
capitalista, que ao mesmo tempo cria abundância e miséria, gera
concentração de riquezas e exclusão social, produz muito e destrói a
base natural de produção e vida, organiza a economia e o poder em
escala global e mina as bases de existência de sociedades sustentáveis
em sua diversidade. Precisamos, urgentemente, reconstruir uma ordem
mundial democrática, subsidiária de economias e poderes locais
fortalecidos, que não necessita de G-8 ou qualquer clube de países
zelosos em proteger os interesses de suas corporações capitalistas.
Cândido Grzybowski, sociólogo, é diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).























