Socialismo do século 21
Publicado em 27/11/2006 16:53
Folha on line
Qual o significado desse aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da alternativa ao capitalismo? Que potenciais e riscos tem?
O que de mais relevante está a
acontecer em nível mundial
acontece à margem das teorias
dominantes e até em contradição
com elas.
Há 20 anos, o pensamento político conservador declarou o fim da
história, a chegada da paz perpétua dominada pelo desenvolvimento
"normal" do capitalismo -em liberdade e para benefício de todos-,
finalmente liberto da concorrência do socialismo, lançado este
irremediavelmente no lixo da história. À revelia de todas essas
previsões, houve, neste período, mais guerra que paz, as desigualdades
sociais se agravaram, a fome, as pandemias e a violência se
intensificaram, a China "se desenvolveu" sem liberdade e mediante
violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo
voltou à agenda política de alguns países.
Concentro-me neste último, pois constitui um desafio tanto ao
pensamento político conservador como ao pensamento político
progressista. A ausência de alternativa ao capitalismo foi tão
interiorizada por um quanto pelo outro. Daí que, no campo progressista,
tenham dominado "terceiras vias", buscando achar no capitalismo a
solução dos problemas que o socialismo não soubera resolver.
Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda
política o objetivo de construir o "socialismo do século 21". Desde então,
dois outros governantes -tal como
Chávez, democraticamente eleitos-,
Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa
(Equador), tomaram a mesma opção.
Qual o significado desse aparente
desmentido do fim da história? Qual o
perfil da alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e riscos
ela contém?
O socialismo reemerge porque o capitalismo neoliberal não só não
cumpriu suas promessas como tentou disfarçar o fato com arrogância
militar e cultural; porque sua voracidade por recursos naturais o
envolveu em guerras injustas e acabou por dar poder a alguns países que
os detêm; porque Cuba -seja qual for a opinião a respeito do seu
regime- continua a ser exemplo de solidariedade internacional e de
dignidade na resistência contra a superpotência; porque, desde 2001, o
Fórum Social Mundial tem vindo a apontar para futuros pós-capitalistas,
ainda que sem os definir; porque nesse processo ganharam força e
visibilidade movimentos sociais cujas lutas pela terra, pela água, pela
soberania alimentar, pelo fim da dívida externa e das discriminações
raciais e sexuais, pela identidade cultural e por uma sociedade justa e
ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao fracasso no marco
do capitalismo neoliberal.
O socialismo do século 21, como o
próprio nome indica, define-se, por
enquanto, melhor pelo que não é do
que pelo que é: não quer ser igual ao
socialismo do séc. 20, cujos erros e
fracassos não quer repetir.
Não basta, porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate
profundo sobre os erros e fracassos
para que seja credível a vontade de
evitá-los. Se tal desidentificação em
relação ao socialismo do séc. 20 for levada a cabo, alguns dos seguintes traços da alternativa deverão emergir.
Um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre
democracia representativa e democracia participativa; legitimidade da
diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do
"inimigo do povo"; modo de produção menos assente na propriedade
estatal dos meios de produção que na associação de produtores; regime
misto de propriedade em que coexistem propriedade privada, estatal e
coletiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a
economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Microsoft
Windows e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na
geração de riqueza e lhe seja superior no respeito à natureza e na
justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais
descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público
do Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento
da interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for o caso); luta
permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da
burocracia ou da lealdade partidária; promoção da educação, dos
conhecimentos (científicos e outros) e do fim das discriminações
sexuais, raciais e religiosas como prioridades governativas.
Será tal alternativa possível? A
questão está em aberto. Nas condições do tempo presente, parece mais
difícil que nunca implantar o socialismo num só país, mas, por outro lado,
não se imagina que o mesmo modelo
se aplique em diferentes países. Não
haverá, pois, socialismo, e sim socialismos do séc. 21. Terão em comum
reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS , 66, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Escreveu, entre outros livros, "A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política" (Cortez, 2006).























