Relatório revela violações a direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais
Publicado em 27/11/2006 16:53
Informe 2006 divulgado pelo Projeto Relatores Nacionais mostra que país ainda enfrenta, de forma precária, ameaças e permanências de violações a direitos fundamentais. Objetivo é trabalhar de forma preventiva.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO
PAULO – Desde 2002, o Projeto Relatores Nacionais em Direitos Humanos
Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca) monitora, analisa
e difunde informações sobre a situação dos direitos humanos no Brasil.
Atuando em áreas temáticas – como alimentação adequada, trabalho,
saúde, educação, terra e trabalho –, relatores realizam visitas a
estados e municípios na expectativa de, a partir da construção de um
quadro de violações, contribuir para que o país modifique suas
políticas e adote um padrão de respeito aos direitos humanos,
reorientando políticas de governo e ações privadas que possam causar
danos às populações.
Na semana passada, a Plataforma Dhesca
Brasil divulgou seu último informe, um extenso documento de 184 páginas
que relata as missões desenvolvidas ao longo de 2006. Segundo Maria
Elena Rodriguez, coordenadora do projeto, no último ano elas tiveram um
caráter preventivo, com o objetivo principal de investigar e denunciar
violações iminentes e potenciais, decorrentes desde uma ação até um
mega-projeto, realizados pelo Estado ou pela iniciativa privada.
“O
objetivo maior é prevenir a ocorrência de violações de direitos humanos
em situações onde se verifica uma ameaça iminente, e não apenas
verificar e denunciar as violações já ocorridas, uma vez que, na
maioria dos casos, a reparação ou a cessação da violação em curso pode
levar um tempo indeterminado”, explica. Para Maria Elena, num momento
em que o país se vê desafiado a novas pressões de grandes projetos e
investimentos, é preciso impedir a repetição de um padrão de
desenvolvimento desigual e segregatório.
Em 2006, a Plataforma
também realizou as chamadas “missões de seguimento” das situações
investigadas pelos relatores nacionais em anos anteriores. Nesse
processo, houve avanços, como a obtenção de respostas oficiais por
parte do Estado, o diálogo com ministérios e com a Secretaria Especial
de Direitos Humanos, a criação de espaços de interlocução com o poder
público também nas esferas estadual e municipal, e com órgãos como o
Ministério Público e com a Defensoria Pública. O projeto chegou a
assinar, por exemplo, um protocolo de intenções para cooperação técnica
entre o Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça do
Ministério Público dos Estados e da União. O acordo facilitará a
implementação de mecanismos de exigibilidade e monitoramento da
observância dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais.
Novas denúncias
O
número de denúncias, no entanto, recebidas principalmente de movimentos
sociais e organizações da sociedade civil, não reduziu no último
período. Somente a relatoria de moradia adequada recebeu denúncias de
cerca de 100 violações no ano passado. São acusações que vão dos
programas de higienização desenvolvidos pela Prefeitura de São Paulo às
políticas de expulsão da população pobre de áreas valorizadas na cidade
de São José dos Campos, no interior paulista. A relatoria também
monitorou a situação das famílias sem teto do Parque Industrial em
Goiânia e das ameaçadas pela implantação do Pólo Siderúrgico na Ilha de
São Luis do Maranhão, numa missão conjunta com demais relatores.
A
situação de violação do direito à moradia também é crítica no estado do
Rio de Janeiro. Na Baixada Fluminense, cerca de um milhão de pessoas
vive em condições subumanas pela falta de salubridade da moradia e
ausência de esgotamento sanitário, limpeza dos córregos, rios e ruas e
sistema de abastecimento de água. Dentre as violações cometidas
destacam-se a perda de vidas e destruição de bens em enchentes e
desabamentos de morros; a ausência de uma política publica de habitação
e de saneamento ambiental para a região; ausência de dialogo entre
comunidade e poder público e a não responsabilização das autoridades
competentes pelas violações.
Além disso, há um grande número de
famílias ameaças de despejo pelo próprio Estado. Desde outubro de 2005,
o Ministério Público do Rio de Janeiro solicita à Prefeitura Municipal
a remoção de 14 favelas situadas em áreas que eles consideram de risco
e de preservação ambiental. Enquanto isso, o centro da cidade, segundo
a relatoria, possui um número relevante de imóveis, de propriedade
pública e privada, abandonados, que começaram a ser ocupados por grupos
de famílias.
“Com isso, os moradores das ocupações Zumbi dos
Palmares, Chiquinha Gonzaga, Regente Feijó e outros fizeram com que os
edifícios públicos viessem a cumprir com sua função social”, afirma no
estudo a arquiteta Lucia Maria Moraes, Relatora Nacional para o Direito
Humano à Moradia Adequada. “Esses prédios, antes relegados ao silêncio
do abandono, passam a ser palcos de atividades sociais, culturais e
educativas. No entanto, a despeito de estarem construindo uma nova
realidade, voltada para a igualdade, à dignidade humana e efetivação do
direito à moradia – preceitos estes resguardados pela Constituição
Federal – essas pessoas não têm encontrado amparo por parte do poder
público. Assim,
o que se observa, são repetidas tentativas –
infelizmente em muitos casos vitoriosas – de retirar essas famílias dos
prédios públicos, desconsiderando o novo paradigma que estas buscam
consolidar”, explica.
A ameaça e realização de despejos foi a
principal denúncia recebida pela relatoria no ano passado. Neste
contexto, a participação do Poder Judiciário na defesa do direito à
moradia digna tem se dado de forma isolada. De acordo com a Plataforma,
em grande parte dos casos em que há sentença para execução dos despejos
os juízes autorizam o uso de força policial e não avaliam o cumprimento
do princípio da função social da propriedade e da posse, face às ações
de reintegração propostas em áreas ocupadas por famílias de baixa
renda. Por isso, uma das recomendações apontadas no relatório é a
construção de uma Plataforma Nacional de Prevenção aos Despejos.























