Quase 60% dos gays de SP já sofreram agressão, indica pesquisa
Publicado em 27/11/2006 16:53
Carolina Glycerio
De São Paulo
Contratado pela Secretaria, o Instituto Criterium entrevistou 846 pessoas que participaram do evento no ano passado. Também foram feitas 1.373 entrevistas em Manaus, Porto Alegre e Natal.
Mais da metade dos casos relatados em São Paulo são de agressões verbais e ameaças de agressão física, indica o levantamento.
Embora os dados das outras três cidades ainda não tenham sido sistematizados, a Secretaria adianta que os resultados são semelhantes aos de São Paulo.
"Outra constatação é que no geral as vítimas de discriminação, preconceito e agressão não têm percebido nenhum encaminhamento concreto", afirma o diretor do Grupo Gay de Alagoas, Marcelo Nascimento, que apresentou, em Brasília, os resultados da pesquisa nas quatro cidades a 300 profissionais que trabalham no combate à homofobia.
Por outro lado, a assessoria de Comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informa que nem sempre as vítimas de ataques homofóbicos denunciam os crimes.
A vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, Regina Facchini, diz que o levantamento confirma que o público que sofre violência é muito maior do que o que denuncia.
"Muita gente tem vergonha de dizer que apanhou porque é gay. Elas também têm medo de ser destratadas novamente", diz Facchini.
Os 59% dos 846 entrevistados que dizem ter sofrido algum tipo de agressão "devido à sua sexualidade" relataram casos de agressão verbal e ameaça de violência física, agressão física, chantagem ou extorsão, violência sexual e o golpe do remédio "Boa Noite, Cinderela".
Quando a pesquisa incluiu todo tipo de discriminação, esse número subiu para 67% (em São Paulo).
O combate à homofobia será tema de campanha da 11ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. A organização da parada espera que 3 milhões de pessoas participem do evento, neste domingo, na avenida Paulista.
Homicídios
Embora não haja dados oficiais sobre assassinatos de homossexuais e transexuais, um levantamento do Grupo Gay da Bahia indica que 51 homossexuais foram mortos no país apenas entre janeiro e abril.
Segundo a entidade baiana, projetando-se este número para o resto do ano, 2007 deve superar o ano passado, quando 88 homossexuais foram mortos.
Marcelo Cerqueira, presidente do GGB, ressalta que os dados são "incompletos" porque são baseados em notícias de jornais e informações enviadas à ONG.
O jornalista André Fisher, diretor do site Mix Brasil, observa também que o levantamento do GGB não discrimina assassinatos comuns dos homofóbicos.
"No caso de um latrocínio, não dá para saber se o cara foi morto porque, sem querer, colocou um assaltante dentro de casa, ou se foi morto pelo fato de ser gay", diz Fisher.
'Desejo Marginal'
O sociólogo Antonio Celso Spagnol, autor do livro Desejo Marginal, que analisa três casos de assassinatos de homossexuais, diz que a forma violenta de matar é uma das marcas do crime homofóbico.
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Assassinatos de homossexuais
2004: 158
2005: 61
2006: 88
Fonte: Grupo Gay da Bahia
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"Casos de extrema violência são típicos. Às vezes vejo no jornal 'sujeito morreu com 20 facadas, teve o crânio esmagado, ninguém sabe quem foi'. É praticamente certo que seja homossexual, pela extrema violência que o sujeito causa no outro", diz Spagnol, do Núcleo dos Estudos da Violência (NEV) da USP.
Os dados reunidos pelo GGB confirmam a observação do sociólogo. A maioria das mortes registradas até abril revela assassinatos por facadas, estrangulamento, decapitação, entre outros métodos brutais.
"Não se trata somente de matar o outro, se trata de destruir o corpo do outro porque a relação é com ele mesmo. É destruir aquilo que o outro personifica para destruir o que está dentro de mim", afirma Spagnol, que acaba de rever a edição de 2001 para nova publicação neste ano.
Embora os números variem para baixo nos últimos três anos, o estudioso acredita que a variação tenha mais a ver com a inconsistência dos dados do que com uma real flutuação no número de crimes.
"A violência não acabou, mas não está aumentando. É chocante, mas comparado com anos anteriores, é mais ou menos a mesma coisa – dois homossexuais por semana."
Fisher, como outros líderes do movimento, defende a criminalização da homofobia para coagir os ataques.
"É importante que você explicite a discriminação contra a orientação sexual como um crime igual ao racismo."
O
projeto de lei 5003/01, que criminaliza a homofobia, já foi aprovado na
Câmara dos Deputados e está agora na Comissão de Direitos Humanos do
Senado.























