O ralo da corrupção com recursos públicos está no superfaturamento, segundo peritos
Publicado em 27/11/2006 16:53
Priscilla Mazenotti
Repórter da Agência Brasil
Brasília - O ralo por onde o dinheiro público escoa está localizado,
principalmente, no superfaturamento de licitações. Um rastreamento do
modelo da corrupção com obras públicas no Brasil, elaborado pela
Associação de Peritos da Polícia Federal, mostra que as irregularidades
surgem no edital de licitação e abrangem, também,
a execução do contrato.
Segundo o mapeamento da
associação, em vários casos existem a
apresentação de projetos "viciados" entregues por
construtoras aos órgãos que fazem a licitação.
Entre os vícios, estão o superdimensionamento das
quantidades de material, a omissão de serviços e
materiais necessários, a introdução de defeitos
no projeto e o sobrepreço de materiais.
Há,
ainda, o conluio de construtoras para que por meio de preços
superfaturados definam, entre si, quem irá vencer a licitação.
“Se não houver superfaturamento, não tem como haver
propina, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, crimes
eleitorais e compras de votos porque essa é a forma de fazer o
caixa”, disse Alan Lopes, que ajudou a elaborar pela associação
um projeto de lei para criminalizar superfaturamento de obras
públicas.
Depois de publicado o edital de licitação,
começa a fase de negociação. Segundo o relatório
da Associação de Peritos, essa negociação
se dá, principalmente por meio de lobby político –
ações junto à parlamentares com a liberação
de emendas e ações em diretores de empresas públicas
que têm orçamento próprio. Esse tipo de atuação
pôde ser vista durante a Operação Sanguessuga e,
mais recentemente, a Operação Navalha, as duas
desencadeadas pela Polícia Federal a pedido do Ministério
Público Federal.
As operações mostraram a
atuação de empresários e empreiteiras junto à
liberação de emendas ao orçamento por meio de
pagamento de propina, presentes e “mimos” à deputados e
senadores. ”Realmente essa é uma fraude bem genérica,
das mais comuns”, explicou o perito.
Passada essa fase do
edital, vem a fase de execução do contrato, o que,
muitas vezes não é feita. “Essa fraude é
extremamente danosa e exige um alto custo para investigar. É
uma perícia muito cara porque, para aprofundar o exame e
constatar todas as modalidades exige, além de um esforço
técnico, um custo. São locais ermos e, às vezes,
há até obras enterradas. É um serviço que
o fraudador, quando faz, às vezes tem a certeza de que vai
conseguir escapar ileso”, disse.
O resultado da malversação
do dinheiro público, segundo Alan Lopes, resulta em repasse de
dinheiro pago à construtoras a servidores e parlamentares
corruptos, o envio de dinheiro não declarado ao exterior e
compra de votos e caixa 2 em campanhas eleitorais. Para Alan, não
é apenas acabando com as emendas parlamentares individuais que
o problema de corrupção em obras públicas será
solucionado. “Há problemas nas estatais que têm
orçamento próprio e que não dependem de emenda”,
disse.
Para ele, a principal causa da corrupção
no gasto com o dinheiro público é a falta de
tipificação como crime do superfaturamento de
licitações. Essa brecha na lei, segundo ele, dificulta
o trabalho de investigadores e do Ministério Público,
que precisa buscar adaptar o crime cometido à lei já
existente, normalmente formação de quadrilha e fraude
em licitação. “Fica-se atacando muito a beirada do
problema, a lavagem de dinheiro, a pessoa que aprovou a emenda, tudo
isso realmente é fraudulento, mas se o faturamento não
for estancado, não há como isso tudo ser movimentado”,
disse. “Teremos um escândalo atrás do outro até
que realmente se reconheça que superfaturamento tem de ser
crime no Brasil”, defendeu.
























que um dia o Brasil vai mudar?