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O encontro do G-8 entre a guerra fria e a guerra quente

Publicado em 27/11/2006 16:53

Agência Carta Maior

Enquanto George W. Bush troca farpas com Vladimir Putin, Lula viaja para a Alemanha, onde terá recepção de destaque: é chamado pela mídia local de porta-voz das nações do Terceiro Mundo e líder da alternativa energética do etanol.

ROSTOCK (Alemanha) – Apesar da pressão das autoridades, as manifestações em Rostock, no norte da Alemanha, por ocasião da reunião do G-8 na vizinha Heiligendamm, vão continuar a todo vapor nos próximos dias. Na segunda-feira (4), houve novos confrontos entre manifestantes – os auto-intitulados Chaoten ou Autonomen, Caóticos ou Autônomos – e a polícia. Houve um saldo de 50 policiais feridos, e um número não divulgado de feridos e detidos entre os manifestantes.

Os números parecem pequenos diante dos da manifestação de sábado, 1000 feridos, entre eles 450 policiais. De todo modo, a série de manifestações e enfrentamentos provocou e provoca reações variadas. Num movimento rápido e inusitado, o Tribunal de Rostock já julgou e condenou um manifestante a 10 meses de prisão, por jogar pedras na polícia. Outros nove, pelo menos, enfrentarão julgamento até o final da semana.

Crescem pressões entre os políticos conservadores para que a polícia seja mais dura na repressão. Entretanto porta-vozes da polícia de Rostock e arredores dizem que não vão mudar de tática, só intervindo depois de a situação, a seu ver, ter desandado. Entretanto, a ação da polícia também tem merecido críticas. Ativistas dos direitos humanos vêem excessos, como os controles feitos nas estradas e estações de trem onde muitos ativistas, militantes e até jornalistas estrangeiros tem sido impedidos de prosseguir caminho até Rostock ou Heiligendamm.

Paralelamente, se instalou o encontro alternativo ao G-8, com seminários e mesas na igreja de São Nicolau, em Rostock. Terça-feira (5), a principal presença foi do professor de sociologia da Universidade de Genf, Jean Ziegler, que defendeu a existência de uma “sociedade civil planetária” como força opositora ao poder do G-8. Esperam-se presenças como as de Waldir Bailo, Chico Whitaker e Ignacio Ramonet. Quanto ao G-8 propriamente dito, as tensões não param de se acumular, pondo em risco qualquer expectativa de resultado.

A semana começou com declarações contundentes por parte da primeira-ministra conservadora da Alemanha, país anfitrião, Angela Merkel. Repetiu ela várias vezes para a imprensa e a mídia que tinha sérias dúvidas quanto à possibilidade de resultados positivos e concretos na reunião do G-8 quanto a medidas para deter o aquecimento global. Para ela, o principal motivo desse temor é a posição do governo Bush, refratário ao Protocolo de Quioto e até o momento a qualquer outra forma de acordo internacional que comprometa a posição dos Estados Unidos. As declarações de Merkel provocaram reações contrárias entre partidários da Democracia Cristã, de que ela faz parte, estranhando essa atitude de ceticismo diante de Bush, que, para eles, tem demonstrado interesse em resolver os problemas planetários... O caso das declarações de Merkel mostra a sua crescente dificuldade em acomodar a coalizão que lidera, com seu partido (CDU) e os social-democratas (SPD) em rota de colisão, ainda que no momento mais retórica do que propriamente prática.

Por seu lado, Bush antecipou sua vinda para Heiligendamm para terça (era esperado para quarta). O motivo alegado foi o de descanso, o que vem a calhar, pois Heiligendamm é tradicionalmente um balneário junto ao Mar Báltico. Mas o motivo maior parece ter sido o de evitar uma chegada cheia de conflitos, pois os manifestantes – tanto os Chaoten como os do Apta e outras organizações que tem procurado evitar os choques com a polícia – prometiam uma recepção “calorosa” ou “acalorada” para o presidente norte-americano.

Bush chegou de Praga, na República Tcheca, onde teve presença polêmica. Num gesto que mereceu comentários de que estava reavivando os tempos da Guerra Fria, Bush provocou o primeiro ministro russo Vladimir Putin em duas oportunidades. A primeira quando reafirmou, diante dos governantes tchecos (o presidente Vaclav Klaus e o primeiro-ministro Mirek Topolanek) a disposição dos Estados Unidos de construir bases militares naquele país. A mesma disposição está prevista para a Polônia, no sábado, para onde Bush vai depois do encontro de Heiligendamm. Ao mesmo tempo em que reafirmava essa disposição de construir um “escudo defensivo” na região, o que incluiria ogivas nucleares, Bush declarou que a Rússia nada tem a temer quanto a isso. Só faltou esclarecer então contra quem esse escudo defensivo está sendo montado, uma vez que nenhum outro país, a não ser a Rússia, parece ser um alvo condizente com a quantidade de investimento que isso acarretará.

Na segunda oportunidade, Bush afirmou que o processo de reformas políticas na Rússia, referindo-se à questão da democracia, tinha “descarrilado”, perante uma reunião de ativistas políticos de dezenas de países da região.

Apesar de Bush ter incluído outros países nesta lista dos “descarrilados”, como a China e a Coréia do Norte, ficou claro que o alvo principal do comentário era mesmo o governo russo, não só porque têm enfrentado nas semanas próximas passadas, manifestações e protestos contra sua política, como também porque na quinta-feira (7) ambos os mandatários, Bush e Putin, devem se encontrar pessoalmente em Heiligendamm.

A reação de Putin e da diplomacia russa foi, para dizer o mínimo, “azeda”, com comentários de que o premiê russo nem sempre concordava com as afirmações de Bush, que, em público, o chama de “Vladimir”.

Enquanto isso o presidente Lula está também chegando a Berlim, onde tem tido uma recepção com destaque na imprensa local, que o apresenta como porta-voz das nações do Terceiro Mundo e como o líder de uma alternativa energética, a do etanol, que pode contribuir para a diminuição dos efeitos da “guerra quente”, a do aquecimento global.
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