Mortalidade materna é maior entre mulheres negras
Publicado em 27/11/2006 16:53
Por Julia Dietrich, do Aprendiz
Mesmo com a melhoria do índice de morte neonatal, o número de mulheres
mortas em conseqüência direta ou indireta da gravidez, na gestação,
parto ou puerpério (até o 42º dia após o nascimento) não diminuiu.
Entre as mulheres negras, a proporção de mortalidade materna é quase
sete vezes maior que entre as brancas. O total aumentou sensivelmente
entre 2000 e 2004, não conseguindo cumprir um dos oito objetivos do
milênio, acordados internacionalmente.
Dentre as inúmeras causas, sobressaem hipertensão, síndromes
hemorrágicas relacionadas ao parto, infecções no puerpério e
complicações decorrentes de abortos realizados incorretamente. "Outra
causa que nos surpreendeu muito, de acordo com as recentes pesquisas,
foi o aumento exponencial das mortes relacionadas à síndrome de
imunodeficiência adquirida (AIDS)", comentou Ana Cristina Tanaka.
Professora da faculdade de saúde pública da Universidade de São Paulo
(USP) e referência acadêmica na área, ela verificou que entre as
mulheres amarelas os índices de mortalidade materna por hipertensão são
extremamente altos.
Segundo a professora, a imensa maioria dos óbitos é evitável,
conseqüência da desorganização do sistema, superlotação hospitalar,
falta de humanização dos procedimentos e má qualidade na assistência.
"Observamos que a mulher, além de peregrinar por assistência, chega a
ficar mais de seis horas sem ser vista por um profissional da área de
obstetrícia", revela. De acordo com a Organização Panamericana de Saúde
(OPAS), o aborto inseguro é a principal causa de mortalidade materna em
toda América Latina e Caribe e os índices brasileiros são considerados
gravíssimos.
De acordo com os dados do Comitê de Mortalidade Materna do município de
São Paulo, dos 11.879 mortes de mulheres, quase 2.000 eram de mães.
"Durante a pesquisa, verificamos que uma mulher saiu do Grajaú, no
extremo sul da capital paulista e foi morrer do outro lado da cidade,
no Jardim Helena", revolta-se com os mais de 65 quilômetros percorridos
em vão na busca por assistência hospitalar, o médico e pesquisador do
órgão.
De acordo com Tanaka, a mortalidade de mulheres de 15 a 19 anos foi
somente maior que a de mulheres de 20 a 29 anos, que é justamente a
faixa etária tida como mais favorável para a reprodução. "Portanto,
observamos que o risco relativo das adolescentes é menor do que o da
população de gestantes como um todo. Não é uma questão de valoração
moral, mas um dado sintomático para analisarmos", aponta. A razão de
mortalidade materna sobe exponencialmente na fase entre 10 e 14 anos e
perto da menopausa (mais de 39 anos) das mães, realçando a gravidez de
alto risco.
Segundo pesquisas realizadas nos últimos anos, a grande maioria das
mortes maternas por infecção puerperal e da gravidez se dão por
realização de cesáreas desnecessárias. "Parece que a mulher tem um
zíper na barriga. É só abrir e fechar e acabou", condena Tanaka,
lembrando que no Brasil realiza-se esse tipo de cirurgia em 40% dos
partos.
De acordo com os dados do governo, acontecem 106 mortes maternas para
cada 100 mil crianças nascidas vivas no Brasil. O número é muito alto
se comparado aos 17 casos nos Estados Unidos e aos quatro na Áustria,
média permanente nos países desenvolvidos. Os piores números estão
associados diretamente a miséria em que se encontram outras nações,
como as mais de mil mortes no sul do Saara (deserto no norte da África)
e 880 em Uganda (África).
Para Vega, a mortalidade materna age como um poderoso instrumento de
verificação das condições sociais de um país, pois seu alto índice está
associado desde a miséria até a negação dos direitos sexuais e
reprodutivos da mulher. "Isso sem contar que os marcadores de
mortalidade são muito ruins e cheios de erros, fazendo com que os
números sejam provavelmente bem mais assustadores do que se imagina",
acredita.
No estado do Paraná, por exemplo, os números são muito maiores do que
os da região sul e sudeste. "E não é porque a situação lá está pior,
mas porque o sistema de controle dos casos é 100% eficaz. O problema é
que ele examina todos os óbitos de mulheres em determinada faixa
etária, dependendo de equipe, tempo e verba maior", explica Vega.
Para Simone Diniz, professora da faculdade de saúde pública da USP, é
preciso que a sociedade se aproprie desses dados e pressione desde o
poder público aos funcionários dos hospitais para o melhor atendimento
à mulher grávida, parturiente e na fase logo após o parto. "E, embora
as diretrizes de planejamento familiar propostas pelo governo federal
sejam de fundamental importância, é necessário fortalecer a humanização
da assistência a essas mães que são muitas vezes tratadas apenas como
um receptáculo que hospeda uma criança", conclui.
Para facilitar o registro dos óbitos, o município montou um formulário
de notificação sobre morte materna acessível a qualquer cidadão no qual
ele pode indicar se alguma mulher morreu estando grávida ou no
puerpério, disponível no endereço http://www9.prefeitura.sp.gov.br/forms/obito/formObito.php
(Envolverde/Aprendiz)























