Estudo econômico da cultura é fundamental para elaboração de políticas públicas
Publicado em 27/11/2006 16:53
O Estado tem um papel vital no fortalecimento da economia da cultura, seja no fomento do desenvolvimento de atividades e expressões, seja na mediação entre os interesses do mercado e da sociedade.
Carlos Gustavo Yoda*- especial para Carta Maior
Quando
Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura, a elaboração e gestão de
políticas públicas foram divididas em três eixos de atuação: simbólico,
cidadão e econômico. Raros são os estudos acadêmicos que se propõem a
dialogar sobre economia e cultura com a profundidade que esta complexa
dimensão da cultura necessita. Um dos motivos da falta de pensamento
acerca do tema, de acordo com pesquisadores que participaram do III
Enecult (leia mais), é a ausência de dados estatísticos para estudar a chamada indústria criativa.
Como
já afirmou o ministro, o Estado tem um papel vital no fortalecimento da
economia da cultura, seja no levantamento do potencial, seja no
planejamento das ações, na articulação dos agentes econômicos e
criativos, na mobilização da energia social disponível, no fomento
direto, na regulação das relações entre agentes econômicos, na mediação
dos interesses dos agentes econômicos e dos interesses da sociedade,
assim como na fiscalização das atividades. “Não se trata de reabilitar
o Estado produtor de cultura, ou o Estado dirigista. Ao contrário.
Parte-se do princípio de que o Estado pode e deve estimular um ambiente
favorável ao desenvolvimento de empresas e criadores, para que o
mercado possa ampliar-se e realizar seu potencial, não apenas de
auto-sustentabilidade, mas de ganhos sociais (emprego, renda, inclusão
ao consumo de bens culturais)”, conclui o ministro, em palestra de 2005
(leia aqui).
As
atividades culturais já constituem um dos setores mais dinâmicos da
economia mundial. Segundo levantamento da PriceWaterhouse Coopers, a
economia da cultura no planeta crescerá em média 6,3% ao ano no período
2004/2008, para um crescimento geral de 5,7%.
O impacto
econômico da cultura pode ser ainda maior se visto sob uma
interpretação antropológica mais ampla sobre o que é cultura. Para o
economista Fábio Sá Earp, pesquisador da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, os economistas só conseguem ver uma forma de negociação: o
comércio, enquanto, segundo o consenso acadêmico presente no encontro
de Salvador, cultura é tudo o que fazemos do nosso tempo livre.
Dessa
forma, podemos interpretar como economia criativa todo o consumo de
conteúdo informativo, da venda de jornais a quanto uma emissora de tevê
recebe de verbas publicitárias; da pechincha de um boneco de mestre
Vitalino em uma feira livre, à escolha de um azulejo para uma cozinha;
de uma sessão de um filme blockbuster no Cinemark, à aquisição de
quatro devedês por dez reais em um camelô; da compra direta de um cocar
indígena em uma aldeia à última roupa da moda na Daslu ou na Daspu.
Para
Maria Salete Nery, doutoranda em Ciências Sociais da UFBA, há “um
enlace, ou melhor, um engate entre economia e cultura que precisa ser
reconhecido, debatido e aprofundado. Discutir moda, por exemplo,
significa discutir os rumos do capitalismo”. A pesquisadora explica que
desenvolveu um estudo que tomou como ponto de partida a produção do
vestuário em Salvador. Porém, como os caminhos que a curiosidade guiou
o olhar, a pesquisa abrangeu um universo muito mais amplo e alcançou
uma discussão cultural central na relação humana: a busca da identidade.
“O
Brasil não exporta apenas maiôs e biquínis ‘made in brazil’. Exportamos
o jeito de se exibir do verão brasileiro. Mais do que uma peça de
roupa, o que se comercializa nas indústrias criativas é o valor
simbólico das coisas. E isso é difícil de medir”, pontua Maria Salete.
O
economista venezuelno, Daniel Mato, entende que todas as indústrias são
culturais: “Sempre é possível fazer uma análise, do que quer que seja,
com um olhar cultural”. Matos considera que toda relação parte de
princípios intangíveis. Segundo ele, devemos nos questionar por que é
um processo cultural comer uma feijoada em Nova Iorque e em São Paulo
não é. Assim, até mesmo os hábitos alimentares, da gastronomia de
tradições, podem ser incluídos entre as estatísticas da cultura.
Indicadores Estatísticos
Antônio
Carvalho Cabral, FGV Direito – Rio, diz que é difícil encontrar
informações sobre as indústrias culturais: “Eles vivem dentro de um
mundo paralelo, onde muita coisa acontece de forma informal, como o
jabá nas rádios e tevês”.
Conforme relatório do BNDES, no
Brasil, os dados são incipientes, mas ainda assim reveladores. Segundo
o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada - Ipea, o setor respondia,
em 2004, por 5% dos empregos formais do país. O Mercosul Cultural
informa que, em 2004, o impacto no PIB era de 5%. Pesquisa da Fundação
João Pinheiro, por sua vez, indica que, de 1985 a 1994, as atividades
culturais respondiam por 160 novos postos de trabalho por cada R$ 1
milhão investidos, superando o turismo, a construção civil e os demais
setores.
Economista ligado à Secretaria de Políticas Culturais
do MinC, Felipe de Oliveira Ribeiro afirma que o estudo econômico da
cultura é fundamental para a formulação de políticas públicas. Felipe
trabalha atualmente na finalização do Anuário Estatístico da Cultura
Brasileira, que deve ser lançado em setembro, para municiar
constantemente o aprofundamento de pesquisas para formulação e
monitoramento das políticas culturais.
O representante do
Ministério, que também apresentou trabalho no III Enecult, explica que
o ideal seria abranger nos indicadores as três dimensões da cultura
(simbólica, cidadã e econômica), porém, torna-se praticamente inviável
medir a dimensão simbólica da cultura.
Felipe Ribeiro utiliza
como exemplo da complexidade dos estudos a cadeia produtiva da música,
que se dá através de um tripé produção, distribuição e consumo. “A
economia da música é baseada em economias de grande escala, em um
processo controlado, em sua maior parte, por grandes gravadoras”,
destaca. Com todo o entendimento já comum das práticas tradicionais da
indústria cultural e o estudo de novas práticas informais de produção
(leia mais), o pesquisador do MinC acredita que os formuladores de
políticas podem pensar novos modelos de negócios para a cultura,
valorizando mais os produtores culturais do que os atravessadores
hegemônicos da indústria cultural.
Carência dos Números
O
diretor de cinema e televisão argentino, Octavio Getino, lembra que os
primeiros estudos sobre economia e cultura datam de 1910, na Alemanha.
Ele lembra que, em 99, participou de um estudo sobre as dimensões
culturais e o processo de integração do Mercosul: “Os departamentos de
economia dos países envolvidos não computavam a movimentação sobre
cultura porque simplesmente não sabiam o que poderia ser inserido como
cultural”.
No ano passado, o IBGE, pela primeira vez, iniciou
estudos e já está desenvolvendo um censo cultural que deve levantar
toda a discussão econômica e estatística da cultura brasileira. Na
Bahia, também já está em início de trabalho o Observatório
Internacional para Indústrias da Criatividade. Isaura Botelho, que
participa da análise dos dados do IBGE afirma que o processo de estudos
acadêmicos não é tão veloz como as políticas necessitam, mas, em breve,
uma análise mais profunda sobre a cultura no Brasil de hoje deve dar
sustentação para a urgência de novas políticas de regulação para o
setor.
(*) Carlos Gustavo Yoda cobriu o III Enecult a convite da organização do evento.























