Dia de Combate ao Trabalho Infantil: apesar dos esforços, Brasil ainda tem pouco a comemorar
Publicado em 27/11/2006 16:53
No dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, a meta é unir forças para
acabar com esse crime presente em diversos países do mundo,
principalmente no Brasil. Atualmente, segundo dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,9 milhões de crianças e
adolescentes entre cinco e 15 anos estão em situação de trabalho no
Brasil. Na tentativa de combater o problema, o governo federal prevê
aplicar até o fim deste ano R$ 376,9 milhões no Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil (PETI). Até o início do mês, 30,8% desse total, ou
seja, R$ 116,3 milhões já haviam saído dos cofres federais, no intuito
de contribuir para as ações que visam frear essa barbárie no país. Clique aqui para ver a execução do programa este ano.
Depois
de 14 anos de queda, pela primeira vez, entre 2004 e 2005 houve um
aumento de 5,7% no número de crianças trabalhando, ou seja, 156.591 a
mais, na faixa etária considerada. Diante desses números, o dia 12 de
junho pretende mobilizar as autoridades, a mídia e o público em geral
para acabar de vez com esse problema. Passa a ser também um convite aos
jovens, para que façam sua parte, procurando aprender mais sobre o
tema, e desenvolvendo ações capazes de mudar a atual realidade.
O
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, a Presidência da
República e o Ministério do Trabalho e Emprego são os órgãos que compõe
o orçamento do PETI. O programa engloba ações como a concessão de
bolsas e atividades socioeducativas para crianças e adolescente em
situação de trabalho. As ações visam proteger socialmente crianças que
tiveram o direito ao não-trabalho violado, por meio de garantia da
permanência na escola, fortalecendo o processo de aprendizagem. Só para
essas ações estão previstos R$ 316,3 milhões, 84% do valor total da
dotação autorizada do programa para este ano.
De acordo com
uma publicação do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o
crescimento no número de trabalhadores infantis entre 2004 e 2005 se
deve ao aumento no trabalho para o próprio consumo e atividades
não-remuneradas, ambas geralmente agrícolas. Para o IBGE, a crise na
agricultura, principalmente na região sul, pode ser uma das causas para
esse aumento.
Dos últimos seis anos, o registro de maior dotação
autorizada para o programa foi em 2005, coincidindo com o aumento
significativo do número de envolvidos com esse tipo de trabalho. Na
ocasião, foram aplicados R$ 544,1 milhões no programa, já inclusos os
restos a pagar que foram quitados. No ano passado, foram autorizados R$
359,6 milhões para o programa e desses, 72% foram pagos.
O
diferencial do Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil deste ano é a
preocupação específica com a agricultura. A idéia é dedicar o Dia à
eliminação deste trabalho no setor e nas suas piores formas. Em todo o
mundo, a agricultura é o ramo onde encontramos a maior parte de
crianças trabalhadoras, em média 70%. Mais de 150 milhões de jovens,
menores de 18 anos, trabalham na produção agrícola e pecuária.
Com
base nisso, agências e organizações internacionais de âmbito agrícola
terão papel fundamental nessa luta. Essas entidades representam uma
importante ligação a nível nacional, dadas as suas relações com os
ministérios ou departamentos de agricultura, serviços de extensão
rural, organizações de empregadores e cooperativas agrícolas,
organizações de produtores agrícolas, órgãos de investigação e pesquisa
agrícola.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) lança
hoje, uma nova aliança com organizações dedicadas à agricultura: a
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO),
o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Instituto
Internacional de Pesquisas sobre Políticas Alimentares (IFPRI), o Grupo
Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), a Federação
Internacional de Produtores Agrícolas (FIPA) e o Sindicato
Internacional de Alimentos, Agricultura, Hotéis, Restaurantes,
Abastecimento, Fumo e Associações de Trabalhadores Aliados (IUF).
De
acordo com a OIT, ‘trabalho infantil é todo trabalho que prejudica o
bem-estar das crianças e que compromete a sua educação, desenvolvimento
e vida futura’. Como por exemplo, longas horas de afazeres no campo,
onde as crianças são impedidas de freqüentar regularmente a escola. As
meninas estão em desvantagem considerando que muitas vezes, saem do
campo para desempenhar atividades domésticas.
Segundo
levantamento feito pelo Inesc, o Ministério do Desenvolvimento Social e
combate à Fome considera que os recursos para este ano são suficientes
para atender às 1,5 milhão de crianças previstas no Projeto de Lei
Orçamentária Anual (PLOA), tendo em vista os que já são atendidos pelo
programa Bolsa Família.
A secretária executiva do Fórum Nacional
de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), Isa Maria de
Oliveira, acredita que há verba suficiente para atender a demanda de
crianças em situação de trabalho. Porém, segundo a secretária, o
dinheiro não é liberado e o Ministério acaba não conseguindo aplicar os
recursos de maneira eficiente. Ela afirma que o PETI requer uma série
de novas iniciativas. "A Jornada Ampliada, atividade que estimula a
criatividade por meio de atividades esportivas, culturais e sociais nos
horários em que os alunos não estão em aula formal, não funciona. Não
existem parâmetros pedagógicos para ela”, afirma Isa.
Para
ela, o número de trabalhadores infantis vinha decrescendo nos últimos
anos. Segundo ela, existiam mais crianças trabalhando na formalidade e
o aumento foi ocasionado justamente pela informalidade. Isa acredita
que é muito difícil fiscalizar e identificar esses menores
trabalhadores porque muitas vezes estão trabalhando em casa, para a
própria família. Vale lembrar que nem todo o trabalho das crianças na
agricultura é prejudicial. Segundo a OIT, muitas experiências laborais
podem ser positivas e também podem proporcionar ferramentas práticas e
sociais para a vida adulta.
O professor Vicente Faleiros,
mestre em políticas sociais, avalia que o trabalho infantil é uma
questão cultural e não só econômica. Para ele, nos últimos 15 anos
houve uma mudança de visão na sociedade. Ele acredita que antes a
criança podia ser educada com o trabalho, e agora, a necessidade é de
inserção na escola. A discussão em torno da educação tomou o rumo da
competitividade, do estudo, da valorização da escola e não do trabalho.
Faleiros defende que o governo brasileiro tem feito um esforço em
combater esse tipo exploração. Segundo o professor, umas das opções
para a erradicação desse nicho de trabalhadores seria a política de
emprego para os pais.
A respeito da discussão que envolve o
trabalho infantil pesado e o trabalho infantil intelectual, como, por
exemplo, atores mirins, o professor avalia: “A criança da classe média
estuda, procura inserção cultural. Já a pobre só visa ajudar em casa e
por conta disso, ela passa por cima da alfabetização, da cidadania e
das condições que teria para mudar de trajetória, ou seja, por cima do
próprio futuro”, diz.
Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
Em
2006, o PETI foi integrado ao programa Bolsa Família visando melhorar a
gestão dos recursos, ser mais ágil o processo de transferência de renda
às famílias e principalmente universalizar o acesso de crianças e
adolescentes às ações socioeducativas por meio do Cadastro Único dos
programas sociais, evitando sobreposições de pagamentos.
Nesse
cadastro, até maio deste ano, 871.753 crianças e adolescentes do PETI
já haviam sido incluídos. Do total, 679.473 recebem pelo Bolsa Família,
112.493 pelo do cartão do PETI e 80.777 por intermédio da prefeitura. O
objetivo é que todos os beneficiários recebam via Bolsa Família (se
atender ao critério do programa) ou cartão do PETI. É muito importante
o cadastramento único, por parte dos municípios, de todas as crianças e
adolescentes que estejam em situação de trabalho. Assim, elas serão
incluídas no PETI.
O PETI é um projeto de transferência direta
de renda do Governo Federal para famílias de crianças e adolescentes em
situação de trabalho. O objetivo é erradicar todas as formas de
trabalho infantil no país por meio, além de outros, da inclusão social
de suas famílias. O programa atende a crianças e adolescentes com idade
inferior a 16 anos, e para receber o dinheiro as famílias devem assumir
compromissos como retirar essas crianças de atividades laborais e de
exploração. Além disso, é necessário freqüentar no mínimo 85% da carga
horária mensal das aulas de ensino regular e a Jornada Ampliada das
Ações Socioeducativas e de Convivência.
Só são incluídas nesse
programa famílias cuja renda per capita mensal é superior a R$ 120. O
benefício do programa para residentes na área urbana (capitais, regiões
metropolitanas e municípios com mais de 250 mil habitantes) equivale a
uma bolsa mensal no valor de R$ 40 por criança. Já para os residentes
na área rural, a bolsa é R$ 25. O programa destina ainda, visto Fundo
Nacional de Assistência Social ao Fundo Municipal/Estadual de
Assistência Social, R$ 20 nas áreas rurais e R$ 10 nas áreas urbanas
(por criança ou adolescente) à denominada Jornada Ampliada.
Este
ano será implantado um sistema informatizado (SISPETI), para monitorar
as ações socioeducativas do programa. O projeto está sendo testado em
municípios para eventuais ajustes e a idéia seguinte é disponibilizar
na Internet. Será possível assim, colher dados qualitativos a partir
das informações fornecidas pelos municípios.
Caroline Bellaguarda
Do Contas Abertas























