Crescimento ‘chinês’, exploração ‘chinesa’: duas faces do etanol
Publicado em 27/11/2006 16:53
Por trás da produção recorde de cana e álcool na safra 2007/08, há um quadro de superexploração de cortadores e condições de trabalho desumanas. Estudo da Universidade Federal de São Carlos dimensionou essa exploração.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– A produção de álcool combustível no Brasil vai crescer 14% e atingir
a marca histórica de 20 bilhões de litros na safra 2007/2008. O plantio
de cana avançará 11% e também será recorde. Os números divulgados pelo
ministério da Agricultura na última quinta-feira (31) mostram que,
graças ao aumento do consumo de etanol no Brasil e no mundo, por razões
ambientais ou econômicas, o setor canavieiro vive um momento “chinês”,
expressão que virou sinônimo de altos índices de expansão.
Mas
não são só os negócios canavieiros que merecem o carimbo. Os números
grandiosos escondem - quando não dependem de - uma “chinesa” exploração
dos trabalhadores. Como no país asiático, que deve muito de sua fama de
competitivo e seu elevado crescimento a salários baixos e desproteção
da mão-de-obra, os canavieiros brasileiros submetem os cortadores de
cana a condições desumanas, como se viu, por coincidência também na
quinta-feira, durante uma audiência pública na Comissão de Direitos
Humanos do Senado.
Segundo sindicalistas, fiscais e procuradores
do trabalho, as jornadas dos cortadores são muito longas, enfrentadas
sem direito a descanso, sem água mesmo sob sol forte, sem equipamento
adequado de segurança. A imposição de pesadas cotas de corte leva os
trabalhadores a um esforço superior ao que o corpo suporta, causando
lesão por esforço repetitivo (LER) e distúrbio osteomuscular
relacionado ao trabalho (DORT).
Em São Paulo, Estado campeão na
produção de cana, cada trabalhador corta em média 10 toneladas por dia,
em troca de R$ 24. Para dar conta do serviço, percorre 9 km a pé,
desfere 72 mil golpes de facão, faz 36 mil flexões de perna e carrega
800 montes de 15kg de cana, de acordo com estudo da Universidade
Federal de São Carlos (UFScar).
No Mato Grosso, o Ministério
Público do Trabalho (MPT) já flagrou fazenda cobrando 30 toneladas dos
cortadores. “É difícil imaginar o que é isso. E é tudo feito com
exposição a intempéries, jornadas extensas, geralmente sem pausas, sem
reposição de água, sem abrigos”, disse o procurador Alessandro Miranda,
coordenador nacional de defesa do meio ambiente do trabalho do MPT.
“O
que se exige do cortador de cana é digno de um atleta, mas sem o mesmo
cuidado, o mesmo preparo, o mesmo descanso”, afirmou Valdiney Arruda,
vice-presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho
(Sinait).
Acidentes e mortes
As condições de trabalho
dos cortadores são propícias para acidentes não raro fatais. De cada
100 acidentes com gente que tem carteira assinada, cinco ocorrem no
setor sucro-alcooleiro. De 2002 a 2005, foram 83 mil casos. No período,
houve 312 mortes no setor. “No Brasil, está diminuindo a taxa de
mortalidade dos trabalhadores, mas neste setor há um aumento
significativo”, disse Remígio Todeschini, presidente da Fundacentro,
órgão do Ministério do Trabalho responsável por estudos na área de
segurança e saúde no trabalho.
Para melhorar a vida dos
cortadores, Todeschini defende que se reforce a aplicação de uma norma
do ministério (NR 31) que impõe regras de segurança de trabalho à
agricultura. E a redução da jornada para seis horas. São duas idéias
polêmicas. Os fazendeiros rejeitam a primeira, e os trabalhadores têm
medo da segunda.
“A NR 31 é a norma mais exigente do mundo,
queremos que ela seja mais amena”, disse Clovis Veloso de Queiroz Neto,
técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A
aplicação da norma também esbarra na insuficiência de fiscais do
trabalho. São pouco mais de 3 mil, menos da metade do que a Organização
Mundial do Trabalho (OIT) recomenda para o Brasil (7 mil).
Os
trabalhadores, por sua vez, receiam a diminuição da jornada porque pode
provocar queda de renda, uma vez que existem cotas de produção. Seria
necessário um improvável tabelamento salarial. Ou, o que também parece
improvável, uma instantânea conscientização social por parte dos
fazendeiros de que lucros não deveriam nascer da exploração.
“Não
se conhece usineiro pobre, só trabalhador miserável”, afirmou o
presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag), Manoel José dos Santos. E completou: “Etanol produzido à base
de profunda exploração, é uma energia limpa? Não queremos um
combustível limpo simplesmente para os carburadores, mas também para os
trabalhadores.”
Arrocho salarial
A tese de que a
exploração dos trabalhadores sustenta lucros dos patrões canavieiros
tem o endosso de dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e
Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Nos últimos 12 anos, o
salário mínimo aumentou 280%, mas o valor pago pela tonelada de cana
cortada subiu bem menos, 118%. O custo de produção do álcool no Brasil
é a metade do que se vê em países concorrentes como Índia e Tailândia.
“O Brasil é um país competitivo porque tem um baixo custo de produção e
isso tem relação não só com a tecnologia que o país domina, mas também
o baixo salário do trabalhador”, disse o supervisor técnico do Dieese,
José Silvestre Prado de Oliveira.
Mais identificado com o lado
patronal do setor rural, o Ministério da Agricultura reconhece o
arrocho. “O salário do cortador de cana é maior do que em outras áreas
rurais, mas tinha de ser melhor”, afirmou Alexandre Betinardi
Strapasson, coordenador-geral de açúcar e álcool do Ministério.
Apesar
disso, Strapasson acredita que não se deve satanizar o setor
sucro-alcooleiro, mas sim resolver os problemas por meio de uma agenda
positiva. Apostar no setor, disse ele, vale à pena pelo impacto
ambiental positivo do etanol como combustível e pela geração de
empregos - a atividade emprega um milhão de brasileiros. Para ele, aos
poucos haverá um “processo de amadurecimento empresarial” que mudará as
relações capital-trabalho no setor. Mas fica a dúvida: quantas mortes
ainda vão necessárias para que haja "amadurecimento empresarial"?























